Região: O maior partido do Brasil é o antipetismo, diz cientista político sobre eleições
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Consulte formatos e valores disponíveisPublicado em 18 de outubro de 2026 às 08h00 .
Priorizar nos meus resultados Google O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 e os desdobramentos das primeiras semanas do primeiro turno mostram que o antipetismo se tornou a principal força de aglutinação política no Brasil. Essa avaliação é do cientista político Marco Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), em entrevista à EXAME.
Para ele, a oposição ao PT ajuda a explicar a concentração de apoios ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa do segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"Eu acho que hoje, se você perguntar para mim qual é o maior partido do Brasil, eu te digo que é o antipetismo", afirmou Teixeira, em entrevista à EXAME. Segundo o professor, o bolsonarismo reúne uma base própria de eleitores, mas é sustentado também por uma parcela mais ampla de descontentes com o partido dos Trabalhadores.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio recebeu 56,1 milhões de votos (47,03% dos válidos), enquanto Lula obteve 53,9 milhões (45,16%). A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos, ou 1,87 ponto percentual, segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com 99,99% das urnas apuradas.
O professor também aponta uma mudança na representação política, com candidatos ligados às redes sociais conquistando espaço antes ocupado por lideranças tradicionais evangélicas, e que vão mudar a lógica no Congresso Nacional a partir de 2027.
Flávio Bolsonaro reuniu apoios de partidos e de candidatos derrotados no primeiro turno. O que essa movimentação mostra sobre sua estratégia para o segundo turno?
Ele, de maneira, digamos assim, pouco previsível, chegou em primeiro lugar. E quem chega em primeiro lugar, numa posição de subida na reta de chegada, como foi a dele, começa o segundo turno mais tranquilo e mais propenso a receber apoios. O enfrentamento entre ele e o Lula virou não apenas o enfrentamento entre os dois, mas o enfrentamento entre um campo político mais conservador, que fez oposição ao governo Lula. Leia-se aí o Caiado, hoje no PSD, o Augusto Cury, que foi a novidade desse processo, assim como o Zema, um notório opositor petista há muito tempo. Era mais do que natural que esses três candidatos firmassem apoio ao Flávio, por mais que os três, uns mais, outros menos, tenham batido pesadamente nele também. Mas, por natureza, sobretudo o Zema e o Caiado são adversários históricos do PT. O Caiado é um notório contendor do PT desde a eleição de 1989. Sob esse aspecto, a campanha do Flávio começa em vantagem porque aglutinou não apenas o apoio desses principais competidores, como também o apoio de partidos bem estruturados, como o Republicanos, que teve no Tarcísio sua principal vitória, e também o União Brasil e o Partido Progressista. Se a gente tirar o retrato de hoje, a vantagem do Flávio Bolsonaro, por conta do somatório de apoios, é gigantesca. Ele somou apoios, o Lula não somou nenhum, se a gente for contar partidos. Talvez só o Avante tenha declarado apoio ao Lula, ou mesmo personalidades de peso da política.
Em 2018, Jair Bolsonaro não tinha uma estrutura partidária consolidada. Agora, o PL passou quatro anos fortalecendo sua organização. Essa estrutura ajuda a explicar o resultado de Flávio ou a votação está mais relacionada à polarização e ao desgaste de Lula?
Eu acho que se mistura. O Lula ganhou a eleição em 2022 muito mais por um contexto em que uma parcela majoritária da sociedade achou que a democracia estava em risco. O embate entre o bolsonarismo e o petismo, desde a sua origem, em 2018, nunca foi um embate de ideias. Foi um embate de polos mesmo. Junto com isso, obviamente, o bolsonarismo foi se reconstruindo. Parecia que o 8 de janeiro havia matado o bolsonarismo. Mas a própria incapacidade do governo Lula de ampliar seu leque de alianças, os embates que ele sofreu com o Congresso e o desgaste da governabilidade jogaram esse setor mais de centro, de centro-direita, no colo do bolsonarismo, por ausência absoluta de outra liderança para fazer a luta antipetista.
Mas o que isso significa sobre força política do partido?
Eu acho que hoje, se você perguntar para mim qual é o maior partido do Brasil, eu te digo que é o antipetismo. Ele consegue aglutinar uma frente de descontentes. Quando você vai para os estados, pega o Lira em Alagoas, a própria Raquel Lyra, que não apoiou o Lula e não apoiou ninguém, mas acabou vencendo em Pernambuco, pega a dissidência do Ciro no Ceará. Você vai ver que são grupos que outrora apoiavam o Lula e, por questões regionais, passaram a fazer embate com o PT. Você tem um somatório dos conflitos com o bolsonarismo, da dificuldade de governabilidade e das questões regionais. Como a direita não tem uma liderança, o bolsonarismo virou uma força de gravidade. Agora, o que a gente vai precisar ver, ao longo do tempo, é como o bolsonarismo vai se relacionar com esses apoios e como ele vai governar também. Porque, quando o Bolsonaro ganhou o poder, ele não fez aliança com partidos. Fez a famosa aliança com o agro, com os evangélicos, dizendo que não faria a política tradicional. Mas o Flávio está indo por um caminho que é mais comum, tipo Centrão mesmo.
Onde termina o antipetismo e começa o bolsonarismo? O bolsonarismo já pode ser comparado à força política do lulismo?
Eu diria que hoje está mais consolidado o lulismo do que o petismo. Não sei te dizer se é comparável, mas eu te garanto que ele existe em função do petismo. Se o petismo enfraquecer, essa aliança do bolsonarismo, que deve ter 20%, 25% dos votos, com um antipetismo que dá mais 25%, 30%, ela se desfaz.
O governo Lula chega à eleição com indicadores econômicos positivos, mas enfrenta dificuldades eleitorais. Por que a economia não teve o peso esperado? É um problema de comunicação ou de desgaste político?
O lulismo sobreviveu ao mensalão, em 2006, graças ao equilíbrio econômico do país. Não por acaso, a eleição de 2006 foi absolutamente atípica. O Alckmin foi o adversário do Lula, foi para o segundo turno e, no segundo turno, teve menos votos que no primeiro. Sobreviveu à Lava Jato, reelegendo a Dilma, também graças ao momento econômico do país. Deve-se lembrar que o Lula saiu com 83% de aprovação. E aí, a partir disso, começa a ter uma fadiga. Escândalos de corrupção que se sucedem, vínculos de vários dirigentes do PT com escândalos de corrupção. Aí vem a eleição de 2022 e, obviamente, nesse período teve prisão, essas coisas todas. E a confiança no Lula é devolvida em função da democracia.
Casos como o do suposto envolvimento do filho do presidente em escândalos também impactam?
Agora, no decorrer desse processo, o que eu tenho visto é que, quando a gente pega as pesquisas eleitorais, o caso Lulinha teve um efeito devastador. Parece que o retorno da agenda da corrupção passou a seguinte mensagem: chega. O grande problema do "chega" é que o outro lado não é um lado que pode de um discurso anticorrupção. Se em 2018 o bolsonarismo usava o discurso anticorrupção como mote, agora, em 2026, não. Mas, ao mesmo tempo, como não tem alternativa, me parece que diz o seguinte: "Vamos tentar com esse, mesmo sendo um risco ou tendo tudo o que se fala contra ele do ponto de vista de suspeitas".
Então, na sua avaliação, o sentimento de desgaste com Lula tem mais peso do que eventuais erros de comunicação da campanha?
Não, não acredito. Se você olha o comportamento das pesquisas, elas têm a ver com fatos. O país não está mal. Algumas políticas públicas estão entregando. O Pé-de-Meia é um sucesso. Nunca se teve uma política pública para combater a evasão no ensino médio. O Bolsa Família continua sendo um programa importante para o país. O governo já fez três Desenrolas. Não proibiu as bets. É uma coisa curiosa: a proibição das bets é apoiada por quase 70% dos brasileiros. Isso não se reverte em prestígio. Então, eu acredito que tem muito mais fadiga de ver mais do mesmo nessa coisa da probidade da gestão do que "olha, eu vou votar contra o Lula porque o desemprego cresceu". Até porque a gente está vivendo quase pleno emprego.
Flávio terminou o primeiro turno à frente, mas com uma diferença pequena. O antipetismo torna muito difícil uma reação de Lula no segundo turno?
Eu não diria que é muito difícil, nem diria que é impossível, porque essa é uma eleição cujas agendas as campanhas não controlam. As campanhas também não têm controle. Você imaginava ontem que hoje a Veja sairia com essa manchete? Você não sabe o que vai acontecer. Você não sabe o que vai vir contra o Flávio também. Então, eu esperaria. Agora, eu diria para você que o PT já teve uma desvantagem maior, que foi na eleição da Dilma, e reverteu.
O PT conseguiu manter governos no Nordeste, mas encontrou dificuldades em outras regiões. O partido enfrenta um problema para construir novas lideranças?
O PT vem tendo uma dificuldade desde o período Dilma em sair do Nordeste. Vem experimentando sucesso no Nordeste. Agora, vão ser 24 anos de governo na Bahia, vai para 16 anos de governo no Ceará, dois do Camilo, dois do Elmano, possivelmente vai para oito anos no Rio Grande do Norte e 16 também no Piauí. E, obviamente, a grande derrota não esperada pelo PT foi a aliança com o João Campos, derrotada em Pernambuco. Fora isso, desde 2010, o PT não avança. Inclusive, experimentou um recrudescimento grande no Rio Grande do Sul, que era onde o partido, na região Sul, disputava de maneira competitiva. Esse ano não lançou nem cabeça de chapa e perdeu a eleição para o Senado. Agora, nas capitais, continuou forte. O PT ganhou a eleição presidencial na cidade de São Paulo, ganhou em Porto Alegre e em outras cidades grandes também. Então, tem um problema que é do Sul e Sudeste, mas, sobretudo, do interior das regiões Sul e Sudeste. A dificuldade é falta de liderança e, provavelmente, as lideranças antipetistas se consolidaram nessa região. Basta você ver Santa Catarina, onde o PT já teve senador, já governou a maior cidade do estado, que é Joinville, e outras cidades importantes, como Blumenau e Criciúma. E agora o resultado foi trágico. O governador, notório antipetista, o Jorginho, teve quase 80% dos votos.
A eleição para a Câmara também mostrou candidatos com votações expressivas a partir de discursos sobre pautas de costumes e forte presença nas redes sociais. O que esse fenômeno revela sobre a representação política?
A maior prova disso não é só a derrota do PT, é a derrota dos evangélicos tradicionais. Você teve vários parlamentares evangélicos que vinham de mandatos consecutivos, como o Cezinha de Madureira, como os filhos do R. R. Soares, que não voltaram. Então, você está tendo uma mudança para um tipo de representação que é mais difusa. O Lucas Pavanato representa quem? Provavelmente o ativismo que ele desenvolve nas redes, que pulverizam uma legião de pessoas, o que é diferente daquele cara que é pastor, que está ali na igreja. Ou mesmo a pupila dele, que foi eleita deputada estadual em São Paulo, que era uma vereadora de uma cidade de porte médio para pequeno, Praia Grande, que conseguiu um número de votos que deve ser dez vezes a população de Praia Grande.
Você tem as redes sociais como mediadoras, desempenhando um papel absolutamente importante. Por isso, dominar as redes agora, no segundo turno, está virando obsessão do próprio PT também.
Essa mudança na representação política tende a se repetir nas próximas eleições ou cada disputa depende de circunstâncias próprias?
É difícil. Cada vez mais difícil fazer projeção de cenário. Porque tem um ator que também está muito enfraquecido, que são os partidos. Os partidos estão dependendo de lideranças que eles não sabem quem são. Ou seja, num contexto normal, o Pavanato seria o principal líder do PL. Apesar dessa votação estrondosa, ele é um ninguém no PL.
Nos votos totais, o petista registra 46,4% e o senador, 44,6%
Encontro começa às 20h e terá três blocos, com perguntas dos mediadores e confronto direto entre os candidatos
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