as alavancas do voto (por Gaudêncio Torquato) — Empatia, simpatia e rejeição
Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região
Consulte formatos e valores disponíveisHUGO BARRETO / METRÓPOLES @hugobarretophoto Uma eleição não se decide apenas no confronto de propostas. Decide-se também na relação que o candidato estabelece com o eleitor. Antes de examinar um programa, o eleitor se pergunta: ele entende minha vida? Parece uma pessoa em quem posso confiar? Desperta vontade de aproximação ou de afastamento? Nesse campo, empatia, simpatia e rejeição funcionam como três alavancas da imagem política. Duas podem abrir portas; a terceira pode fechá-las.
Empatia é a capacidade de compreender a experiência do outro, suas dificuldades e expectativas. Na política, significa perceber o mundo a partir do lugar ocupado pelo cidadão. O trabalhador que enfrenta três conduções e a mãe que espera uma consulta para o filho querem mais do que uma exposição de indicadores. Querem reconhecer, na fala do candidato, alguém que sabe o peso de suas preocupações.
Isso exige escuta, respeito e disposição para traduzir dificuldades em prioridades. A frase “sei o que você está passando” perde força quando aparece acompanhada de respostas evasivas. A empatia ganha consistência quando o problema ouvido se transforma em proposta compreensível, com meios de execução. Há diferença entre explorar a dor de alguém diante das câmeras e assumir compromisso com sua solução.
Simpatia pertence a outro plano. É a impressão favorável despertada pelo jeito de falar, pelo sorriso, pelo humor e pela facilidade de convivência. A simpatia pode reduzir a distância entre o palanque e a plateia. Mas ser agradável não significa compreender o eleitor. Pode haver cordialidade sem escuta e sensibilidade em uma pessoa reservada. Confundi-las é um erro.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles O estudo de Randall Renstrom e Victor Ottati, pesquisadores norte-americanos de psicologia, com trabalhos sobre ciência política, publicado no Journal of Social and Political Psychology, encontrou, em dois experimentos, avaliações mais favoráveis e maior intenção de voto diante de mensagens empáticas. O resultado indica o valor da linguagem, mas experimentos não reproduzem toda a complexidade eleitoral. Partidos, trajetória, contexto econômico e credibilidade também pesam.
A rejeição, por sua vez, é a barreira que se ergue quando uma parcela do eleitorado afirma que não votaria naquele nome. Suas raízes variam: decepção administrativa, suspeitas de corrupção, divergência ideológica, comportamento agressivo ou associação com um grupo político. Há rejeição à pessoa, ao partido ou ao que simbolizam. Por isso, um índice isolado informa menos do que a investigação dos motivos que o sustentam.
Também é preciso distinguir rejeição de desconhecimento e de desaprovação. Um eleitor pode avaliar mal um governo e preferir seu representante às alternativas. Pode não conhecer um candidato e mudar de posição depois de ouvi-lo. A declaração de que jamais votaria em alguém deve ser lida no contexto da pergunta e das opções disponíveis. Não existe um percentual mágico que, sozinho, decrete derrota. A disputa depende também do adversário.
Quando a competição se estreita, o voto contra pode ganhar protagonismo. O cidadão escolhe um candidato para impedir a vitória do outro, mesmo sem entusiasmo. Essa adesão exige cautela: vitória eleitoral não equivale a aprovação irrestrita. Quem toma o voto de contenção como um cheque em branco pode transformar uma maioria circunstancial em frustração duradoura.
As três forças se cruzam. A simpatia pode facilitar o primeiro contato; a empatia pode aprofundar a identificação; a rejeição pode impedir que a mensagem seja sequer considerada. Um político hábil no palco pode parecer distante quando trata de problemas concretos. Outro, tecnicamente preparado, pode perder espaço por transmitir arrogância. E alguém muito querido por sua base pode provocar resistência fora dela. A mesma fala produz efeitos diferentes.
Nas redes sociais, esses sentimentos encontram um ambiente de exposição contínua. Um gesto de atenção pode circular ao lado de um recorte de irritação; uma brincadeira pode soar acolhedora para uns e ofensiva para outros. Não basta fabricar uma personalidade impecável. A distância entre a personagem e a conduta cotidiana fragiliza a imagem. A coerência precisa sobreviver à câmera desligada.
Há uma dimensão ética nesse debate. Ouvir não pode ser apenas técnica de persuasão, nem demonstrar afeto pode servir de licença para prometer o impossível. O candidato deve combinar proximidade com responsabilidade e sensibilidade com capacidade de governar. Afinal, a democracia empobrece quando a disputa se limita a escolher quem diverte mais ou quem provoca menos antipatia.
A imagem política se sustenta no encontro entre palavras, atitudes e resultados. Simpatia atrai; empatia aproxima; rejeição afasta. Nenhuma dessas forças dispensa propostas, integridade e competência. O desafio de uma candidatura é fazer o cidadão sentir que será ouvido sem pedir que ele abandone o julgamento crítico. O sorriso pode abrir a conversa. A compreensão pode dar sentido a ela. Mas será a realidade, depois da eleição, que dirá quanto valiam aqueles gestos.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político.
Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região
Consulte formatos e valores disponíveisMatérias Relacionadas
Em destaque: Roda de Choro apresenta Grupo Tamoio em homenagem a Ernesto Nazareth
Gravado ao vivo na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro (RJ), em setembro de 2026, o espetáculo vai ao ar neste domingo (18), às 20h, com reapresentação pel
Região: Epitaciolândia é goleado na estreia pelo Grupo B da Taça Brasil de Futsal Feminino Sub-17
Na noite deste sábado (17), a equipe acreana foi goleada por 11 a 1 pelo Praminas-MG, em jogo válido pelo Grupo B, realizado no Ginásio Poliesportivo Coronel Ne
Atualização: Empresas de três regiões terão aporte de R$ 450 milhões para inovação
O financiamento irá fomentar 114 projetos inovadores e de risco tecnológico com impacto no desenvolvimento regional e relevância social.

