O fardo de escolher — Gestão Esportiva na Prática
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Consulte formatos e valores disponíveisFavorite o Lance! no Google Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance! Forte dividida entre Pacho Fermín López no duelo entre PSG e Barcelona pela Champions O Brasil voltou às urnas no último domingo. Acordamos cercados de análises sobre acertos, equívocos, inteligência e ignorância. O resultado, que deveria representar a escolha de uma maioria, virou certificado de razão para uns e de incompetência para outros.
Não pretendo discutir as escolhas dos eleitores, mas nossa dificuldade de compreender que o resultado de uma disputa, por mais definitivo que seja, não consegue explicar sozinho a qualidade das decisões que nos levaram até ele.
No futebol, convivemos com essa simplificação diariamente. Uma vitória transforma decisões contestadas em exemplos de competência, enquanto uma derrota converte escolhas razoáveis em demonstrações de despreparo. Entre uma interpretação e outra, algumas vezes existe apenas uma bola que bate na trave e entra, ou bate na mesma trave e sai.
Escrevi recentemente uma reflexão que vem me acompanhando: "O caminho da coerência, levado às últimas consequências, é uma forma de radicalismo."
A afirmação parece contraditória. Afinal, em um mundo que exige adaptações permanentes, seria razoável defender a coerência até suas últimas consequências? Penso que sim, desde que saibamos distinguir princípios de opiniões e convicções de teimosia.
As responsabilidades que assumimos, as pessoas com quem convivemos, o aprendizado com nossos erros e até os imprevistos da vida podem modificar profundamente nossa maneira de compreender determinada situação. Não há mérito em permanecer agarrado a uma ideia para demonstrar que nunca mudamos de opinião. Em determinadas circunstâncias, insistir no erro é justamente a maneira mais evidente de abandonar aquilo em que acreditamos.
Na gestão do futebol, essa distinção é fundamental. O conhecimento e a experiência não nos garantem resultados, mas oferecem melhores condições para interpretar cenários, reconhecer riscos e tomar decisões. Ainda assim, continuaremos sujeitos a variáveis que não controlamos e a acontecimentos que desafiam até os diagnósticos mais consistentes.
O problema é que o futebol costuma julgar a qualidade das decisões conhecendo informações que não estavam disponíveis quando elas foram tomadas. Na reta final da temporada, essa distorção se acentua. Meses de trabalho, decisões, correções de percurso, dificuldades superadas e oportunidades desperdiçadas passam a ser avaliados por um número cada vez menor de partidas. Três vitórias podem modificar completamente a percepção sobre uma campanha. Três resultados diferentes podem produzir um julgamento absolutamente oposto sobre as mesmas pessoas e praticamente o mesmo trabalho.
Isso faz parte da natureza competitiva do futebol. O resultado define classificações, conquistas e fracassos esportivos. Não seria correto tentar diminuir essa realidade. Mas o resultado nunca contará toda a história.
Uma vitória não absolve decisões equivocadas, assim como uma derrota não deveria invalidar automaticamente escolhas fundamentadas. Isso não diminui a responsabilidade de quem decide. Pelo contrário, aumenta a obrigação de avaliar o que poderia ter sido feito de outra maneira.
Também não podemos reivindicar os méritos das vitórias e atribuir exclusivamente às circunstâncias as razões das derrotas. Quem decide precisa responder pelos caminhos que escolheu, pelas condições que construiu e pelos erros que cometeu, independentemente do resultado que tenha alcançado.
É nesse ponto que a coerência deixa de ser uma qualidade desejável e se torna um compromisso incômodo. Porque defender princípios quando tudo funciona é relativamente simples. Difícil é sustentá-los quando os resultados não aparecem, quando as cobranças aumentam e quando a alternativa mais conveniente seria abandonar aquilo em que acreditamos para acompanhar a opinião predominante.
Recusar-se a seguir a maioria não significa necessariamente estar certo. É possível caminhar sozinho porque enxergamos algo que os outros ainda não perceberam, mas também porque nos recusamos a ouvir aquilo que não gostaríamos de escutar. A coragem de sustentar uma convicção não pode ser confundida com a arrogância de considerá-la infalível.
Aprendi que uma das responsabilidades mais difíceis de quem ocupa posições de liderança é conviver com essa dúvida sem permitir que ela paralise suas decisões. Precisamos ouvir, aprender, corrigir caminhos e reconhecer erros, mas também compreender que nem toda crítica exige uma mudança de direção e que nem toda pressão representa uma razão legítima para abandonar o caminho escolhido. O futebol continuará oferecendo resultados que não conseguimos prever e julgamentos que nem sempre conseguiremos compreender. Isso, entretanto, não nos dispensa de prestar contas, reconhecer nossos erros e assumir as consequências das escolhas que fazemos.
A verdadeira coerência está justamente aí: na capacidade de mudar de opinião sem abandonar princípios, de reconhecer um fracasso sem negar tudo o que foi construído e de celebrar uma conquista sem transformar qualquer decisão passada em verdade absoluta.
No fim, recusar-se a seguir a manada não nos torna melhores nem mais preparados. Significa aceitar o fardo de responder pelas próprias escolhas e, se necessário, caminhar sozinho.
Ao longo da vida, procurei não seguir a maioria apenas por conveniência. Nem sempre acertei. Algumas dessas escolhas foram dolorosas e outras me proporcionaram uma satisfação difícil de explicar. Talvez porque exista uma liberdade particular em assumir as próprias decisões, mesmo quando suas consequências nos são desfavoráveis.
O resultado define onde chegamos. Mas não pode ser o único critério para julgar quem fomos durante o caminho.
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