SERVIDORES DA Poder Executivo DE TACURU CONFESSAM À PF QUE GRAVARAM ÁUDIOS COM AMEAÇAS DE ENVENENAR ÁGUA CONSUMIDA POR INDÍGENAS GUARANI-KAIOWÁ.
Ambos foram afastados das funções e respondem a processos administrativos, enquanto a Polícia Federal conduz a investigação.

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região
Consulte formatos e valores disponíveisFuncionários alegaram que estavam embriagados durante a gravação das mensagens e afirmaram não possuir meios para executar as ameaças. Ambos foram afastados das funções e respondem a processos administrativos, enquanto a Polícia Federal conduz a investigação.
Dois servidores da Prefeitura de Tacuru, no Mato Grosso do Sul, confessaram à Polícia Federal (PF) que gravaram áudios contendo ameaças de envenenar a água consumida pelos indígenas Guarani-Kaiowá da Aldeia Sassoró. Durante os depoimentos prestados aos investigadores, os funcionários admitiram participação na produção das gravações, mas tentaram justificar o episódio alegando que estavam embriagados no momento em que fizeram as declarações. Ambos também afirmaram que não teriam condições ou meios de colocar em prática as ameaças mencionadas nas mensagens.
As declarações representam um avanço importante nas apurações sobre o caso, que provocou indignação entre lideranças indígenas e reacendeu o debate sobre a violência, a discriminação e as ameaças direcionadas aos povos originários no Brasil. Com os depoimentos dos dois envolvidos, a investigação policial está praticamente concluída, embora os servidores continuem sob investigação da Polícia Federal e ainda possam responder a outras medidas decorrentes da apuração.
A repercussão do episódio também levou a Prefeitura de Tacuru a adotar providências administrativas. O primeiro funcionário foi afastado de suas atividades na quarta-feira (28/10), enquanto o segundo teve o afastamento determinado na sexta-feira (30/10). Além das medidas já tomadas pela administração municipal, os dois servidores passaram a responder a processos administrativos disciplinares, que deverão apurar a conduta funcional de cada um e as possíveis consequências no âmbito da prefeitura.
O prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), confirmou os afastamentos e declarou que nenhum dos funcionários envolvidos atua diretamente no sistema de abastecimento de água destinado à comunidade indígena. A informação foi apresentada pela administração municipal em meio à repercussão das ameaças e às preocupações provocadas pelo conteúdo das gravações.
Embora a prefeitura tenha ressaltado que os servidores não possuem atribuições relacionadas diretamente ao fornecimento de água da aldeia, o episódio levantou questionamentos sobre a segurança e a proteção de uma população que se tornou alvo de declarações extremamente graves. Afinal, as mensagens não tratavam de uma discussão isolada ou de uma ameaça direcionada a uma pessoa específica, mas mencionavam a possibilidade de contaminar a água utilizada por uma comunidade indígena inteira.
O caso veio à tona depois que gravações começaram a circular em um grupo de WhatsApp, no contexto da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições. Conforme reportagem publicada pelo portal Metrópoles, assinada pelo jornalista Álvaro Luiz, as mensagens continham declarações de violência direcionadas aos indígenas Guarani-Kaiowá da Aldeia Sassoró.
Em um dos trechos mais graves da gravação, um dos servidores afirma: “Tem que por veneno na água, tem que m4tar essas pragas na água”.
O conteúdo provocou forte reação o episódio e cobraram das autoridades uma investigação rigorosa, além da identificação e responsabilização dos envolvidos.
A gravidade das declarações está diretamente relacionada ao alcance da ameaça. A água é um recurso essencial à sobrevivência de qualquer população e sua eventual contaminação poderia representar um risco coletivo, atingindo crianças, idosos e famílias inteiras, independentemente de suas posições políticas ou escolhas eleitorais.
As ameaças também chamaram a atenção por terem sido associadas ao resultado de uma disputa eleitoral. A manifestação de hostilidade contra uma comunidade indígena em razão de seu posicionamento político atribuído demonstra como divergências eleitorais podem ultrapassar o debate democrático e se transformar em manifestações de intolerância e violência.
Durante os depoimentos à Polícia Federal, os dois funcionários afirmaram que estavam embriagados quando gravaram os áudios. Também sustentaram que não dispunham de condições para executar aquilo que foi mencionado nas mensagens.
As justificativas, entretanto, não encerram a apuração sobre as circunstâncias em que as declarações foram produzidas, compartilhadas e recebidas pela comunidade.
A investigação busca esclarecer a participação individual dos envolvidos e as circunstâncias relacionadas à divulgação das gravações. A conclusão dos depoimentos representa uma etapa importante, mas não significa, por si só, que todas as responsabilidades tenham sido definitivamente estabelecidas.
No âmbito administrativo, os processos disciplinares deverão avaliar a conduta dos servidores e verificar eventuais violações aos deveres funcionais. Na esfera criminal, caberá às autoridades competentes analisar os elementos reunidos pela Polícia Federal e definir os possíveis desdobramentos jurídicos.
É importante destacar que os funcionários ainda são investigados e que a responsabilização criminal depende da conclusão dos procedimentos legais e da análise das provas pelas autoridades competentes.
O episódio registrado em Tacuru não ocorreu em um contexto isolado. Levantamento mencionado em outra reportagem do Metrópoles, assinada por Thays Martins e Evellyn Paola, aponta que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) contabilizou mais de 30 denúncias de violência durante o período eleitoral.
Os registros evidenciaram a preocupação de organizações indígenas com situações de intimidação, hostilidade e ameaças em diferentes localidades do país. Para as entidades representativas dos povos originários, episódios dessa natureza exigem atenção permanente das autoridades, especialmente quando atingem comunidades que já enfrentam desafios relacionados à proteção territorial, à segurança e à garantia de direitos fundamentais.
Diante do cenário de denúncias, o governo federal organizou uma força-tarefa e enviou uma comitiva de ministros ao Mato Grosso do Sul. A iniciativa teve como objetivo acompanhar a situação e reforçar a atuação institucional diante das ocorrências envolvendo populações indígenas no estado.
A presença de representantes do governo federal também evidenciou a dimensão da preocupação com a segurança dessas comunidades, que precisam ter assegurado o direito de viver sem intimidação, independentemente de suas manifestações culturais, sociais ou políticas.
A Aldeia Sassoró, onde vivem indígenas Guarani-Kaiowá, tornou-se o centro de um episódio que ultrapassa os limites de uma controvérsia eleitoral. As declarações gravadas pelos servidores colocaram em evidência a vulnerabilidade de comunidades que dependem de serviços essenciais, como o abastecimento de água, e que precisam contar com a proteção efetiva das instituições públicas.
Para as lideranças indígenas, a investigação não deve se limitar à identificação dos autores das gravações. A cobrança envolve também a adoção de medidas que garantam a segurança dos moradores e impeçam que manifestações de hostilidade se transformem em ameaças concretas.
O caso ainda levanta uma discussão importante sobre a responsabilidade de agentes públicos e o comportamento esperado daqueles que exercem funções na administração municipal. Mesmo quando não ocupam cargos diretamente relacionados à segurança ou ao abastecimento de água, servidores públicos estão sujeitos a deveres funcionais e às normas que disciplinam sua atuação.
A alegação de embriaguez apresentada pelos envolvidos deverá ser considerada pelas autoridades dentro dos limites legais, mas não elimina a necessidade de investigar a gravidade das declarações, o contexto em que foram feitas e seus possíveis impactos sobre a comunidade ameaçada.
A investigação da Polícia Federal e os processos administrativos instaurados pela prefeitura serão determinantes para esclarecer os fatos e definir os encaminhamentos cabíveis.
Enquanto isso, permanece a preocupação com a segurança dos indígenas Guarani-Kaiowá da Aldeia Sassoró. O episódio deixa uma questão central para as autoridades: garantir que nenhuma comunidade seja submetida a ameaças ou intimidações por suas escolhas políticas, e que declarações envolvendo a possibilidade de envenenar a água e colocar vidas em risco sejam devidamente apuradas, com transparência, rigor e respeito ao devido processo legal.
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