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Panorama: Campanha de Lula decide pedir cassação de chapa de Flávio por 'manipulação algorítmica' da Meta

Leia mais (10/19/2026 - 19h06)

Por Folha 19 de outubro de 2026 às 22:06
Via Folha
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19.out.2026 às 19h06 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Patrícia Campos Mello São Paulo A campanha do presidente Lula decidiu entrar com uma ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) acusando a Meta de "manipulação algorítmica" em favor de Flávio Bolsonaro e pedindo a cassação presidencial da chapa do candidato do PL.

Na ação de investigação judicial eleitoral (Aije), que será formalizada nas próximas horas, os advogados afirmam que os sistemas de recomendação, as ferramentas de inteligência artificial generativa e os mecanismos de revisão de anúncios das plataformas da Meta (Instagram, Facebook e WhatsApp) passaram a operar em benefício da candidatura de Flávio, prejudicando Lula.

A ação aponta ainda os incidentes envolvendo ferramentas de IA da Meta do X (o Grok), que geravam propaganda ligada a Flávio e se negavam a gerar para Lula, semelhante ao que ocorreu com a MetaAI.

A Aije alega uso indevido dos meios de comunicação social e abuso do poder econômico e cita reportagem da Folha que revelou mensagens internas em que funcionários da Meta admitiam que Lula foi prejudicado por restrições a anúncios da campanha na plataforma e que o canal de Flávio no WhatsApp e seu perfil no Instagram foram recomendados algoritmicamente, prática vedada pelas regras do TSE.

Além disso, a ação aponta o que vê como amplificação algorítmica "atípica" do perfil de Instagram do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais cabos eleitorais de Flávio.

A peça jurídica refere-se a levantamento apontando que Nikolas obtém dezenas de milhões de visualizações em seus vídeos, acima do que obtêm perfis com muito mais seguidores, como os de Kylie Jenner, Kim Kardashian, Neymar, Virginia Fonseca e Beyoncé. Também indica teste em que o mesmo vídeo publicado por Nikolas em duas plataformas teve engajamento muito distinto —alcançou 396,4 mil visualizações no TikTok e 56,1 milhões no Instagram.

Ainda segundo a Aije, os perfis dos dois candidatos no Instagram estariam exibindo engajamento desproporcional.

"Embora o perfil (de Flávio) tenha 17,2% menos seguidores (13.606.146 contra 16.436.220), sua média de curtidas e comentários por publicação é 2,96 vezes maior; nos Reels, as visualizações médias chegam a 15,64 milhões, contra 5,91 milhões; e, normalizada pela base de seguidores, a taxa de interação é de 10,23% contra 2,86% — 3,58 vezes maior."

Em relação a sua ferramenta de IA, a Meta respondeu que, "em cumprimento com as regras eleitorais do Brasil", proibiu temporariamente a geração de imagens de candidatos e adotou "medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens"

A Aije menciona ainda que, em 13 de outubro, uma publicação do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, contra Lula foi impulsionada com recursos da entidade e alcançou mais de 1 milhão de usuários do Facebook e do Instagram. Apenas os partidos, coligações e candidatos podem pagar para fazer impulsionamento de propaganda eleitoral, que não pode ser negativa.

A campanha de Lula já tinha acionado o TSE na semana passada, pedindo ações corretivas para a Meta. O jurídico do candidato afirmou que as redes sociais da Meta estariam falhando de forma "reiterada e sistemática" na entrega de postagens de Lula e aliados.

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Na noite de domingo (18), Bellizze expediu outra decisão liminar em que afirmou que, caso a Meta não cumpra as exigências em 24 horas, terá sua multa diária aumentada para R$ 1 milhão.

"O alinhamento das big techs com a campanha de Flavio Bolsonaro já estava posto desde que tiveram papel ativo nos fóruns de comunicação do PL; o que estamos vendo não é só uma tentativa de interferir em favor de uma campanha, mas um ataque direto a umas das maiores democracias do mundo", diz o advogado Luiz Eduardo Peccinin, que assina a ação.

"Uma empresa privada não pode decidir, pela opacidade de seus algoritmos, quem será ouvido e quem será silenciado numa eleição. Os indícios de interferência da Meta exigem apuração urgente, transparência e responsabilização. Se a plataforma reduz indevidamente o alcance de uma candidatura, compromete a igualdade da disputa e o direito do eleitor à informação", afirma outra autora da Aije, Maíra Recchia.

Reportagem da Folha apontou que, em 9 de outubro, o perfil oficial de Lula ficou impossibilitado de impulsionar postagens feitas no feed do Instagram. Em uma justificativa inicial, a Meta disse que se tratava de uma falha técnica a nível global. No entanto, como mostram as mensagens obtidas pela Folha , o problema mundial no impulsionamento havia ocorrido em 7 de outubro e durou cinco horas. O caso de Lula foi registrado no dia 9 e durou quase 24 horas.

Nos diálogos, os funcionários admitiam que a conta de Lula estava "limitada" em comparação à de Flávio.

Outro episódio foi a recomendação do canal "Tropa do Flávio" nas buscas de canais de apoio a Lula no WhatsApp. Conforme determinação do TSE, perfis e canais de candidatos não podem ser recomendados e só podem aparecer nas buscas caso o usuário tenha procurado o exato nome da conta.

Contudo, de acordo com as conversas internas, os funcionários estavam cientes de que, ao buscar pelo termo "Exército de Lula", nome do canal do presidente no WhatsApp, os usuários também recebiam recomendações do canal de apoio a Flávio.

Além disso, o perfil de Flávio também aparecia nas recomendações em busca no Instagram, enquanto outros candidatos, não.

Nas mensagens, os funcionários também admitiam que o perfil do senador estava aparecendo e que não deveria. As conversas mostram também que eles sabiam que a conta de Lula não aparecia nem se fosse procurado o nome exato do perfil do presidente, como deveria acontecer.

Procurada, a Meta disse, na sexta (16), que as alegações de que atua para interferir no processo eleitoral ou favorecer a candidatura de Flávio são falsas. Segundo a empresa, os problemas relatados tiveram "causas distintas".

"Alguns desses episódios tiveram alcance amplo e afetaram diferentes contas e anunciantes em diferentes países. Não damos tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política, e nossos sistemas não são projetados ou operados para fazê-lo", disse.

Em sua ação, a campanha de Lula pede uma série de informações sobre o funcionamento dos algoritmos da Meta e acesso às mensagens internas da empresa como forma de demonstrar sua tese de que houve abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.

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