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Fique por dentro: Um poeta esquecido no Gavião

A morte de Nina Rodrigues pareceu ter mais impacto na Bahia, onde fez sua carreira acadêmica e profissional, e onde era amplamente reconhecido da comunidade cie

Por Redatores da Empire Cidades 2 de novembro de 2026 às 17:21
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Fique por dentro: Um poeta esquecido no Gavião
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Francisco Cavalcanti Mangabeira SÃO LUÍS – Em 17 de julho de 1906, faleceu na França o médico legista e antropólogo maranhense Raymundo Nina Rodrigues (Vargem Grande, 04/12/1862-Paris, 17/07/1906). A morte de Nina Rodrigues pareceu ter mais impacto na Bahia, onde fez sua carreira acadêmica e profissional, e onde era amplamente reconhecido da comunidade científica local. Do Maranhão, além de ter saído praticamente escorraçado com o apelido de “Dr Farinha Seca”, ainda teve outro opróbrio: o governador Benedito Leite não pôde ou não quis repatriar os restos mortais para o Maranhão. Sabendo disso, a comunidade científica da Bahia custeou todo o traslado para aquele estado e o enterro de Nina Rodrigues no cemitério do Campo Santo, em Salvador, capital baiana, em 11 de agosto de 1906, e naquela necrópole até hoje existe o túmulo.

O que aconteceu com Nina pareceu ter sido uma “troca de gentilezas ao avesso” entre Maranhão e Bahia, pois dois anos antes, em 1904, um médico e poeta baiano morreu por estas bandas, estando seu túmulo até hoje no cemitério do Gavião, relativamente bem conservado em comparação aos jazigos de alguns dos filhos desta terra. A sepultura não tem número definido e fica na sexta seção, do lado esquerdo da capela, se tomarmos como referência a entrada da necrópole. Vejamos o jazigo na edição do dia do jornal “A Pacotilha”, de 02/08/1929, e em foto nossa dos dias atuais:

A lápide de mármore colocada sobre o jazigo é a mesma de há mais de 120 anos. É o que confirma a edição de 03/05/1904, do jornal “A Pacotilha”.

Notemos os mesmos dizeres; a importância conferida ao homenageado é medida pelo símbolo abaixo das inscrições: uma versão preliminar do Brasão do Maranhão, símbolo estadual que só viria a ser oficialmente criado pelo Decreto n.º 58, de 30 de dezembro de 1905, baixado pelo 1º Vice-Governador em exercício Alexandre Colares Moreira Junior e mantido pela Lei n.º 416, de 27 de agosto de 1906, sancionada pelo Governador Benedito Pereira Leite. Assim, a peça de mármore, sendo objeto de exposição antes de sua colocação no túmulo, veiculava também a evolução iconográfica da própria história maranhense, além de homenagear o falecido.

Francisco Cavalcanti Mangabeira nasceu em Salvador a 8 de fevereiro de 1879, na rua do Sodré n 08, mesmo local onde falecera o imortal baiano Castro Alves; e morreu em um navio na costa maranhense, a 27 de janeiro de 1904.Filho de um farmacêutico de nome idêntico ao seu e da senhora Augusta Mangabeira, Francisco era médico e poeta simbolista, sendo o tio avô do conhecido filósofo e teórico social brasileiro Roberto Mangabeira Unger. O poeta Mangabeira é o autor da letra do hino do Estado do Acre, composto em 05 de outubro de 1903, em plena área de seringal, nos arredores de Rio Branco, capital acreana, durante a chamada “Revolução Acreana”, quando prestou seus serviços como medico (ingressou com quinze anos de idade na Faculdade de Medicina e de Pharmacia da Bahia). Antes já havia estado na “Guerra de Canudos”, na mesma Bahia, quando estava no terceiro ano de sua graduação e onde se apresentara como voluntário, em 27 de julho de 1897, com 18 anos, para servir no Corpo Médico do Exército, oferecendo seus préstimos de forma gratuita.

Mangabeira era descrito pelos contemporâneos como um homem de espírito aventureiro e com valores humanitários, tendo visitado regiões então inóspitas, como Acre e Amazonas, ao mesmo tempo em que desenvolvia seu amor pela poesia. Além do Hino Acreano, seu poema mais conhecido e idealizado durante a guerra que o então território do Acre travava para libertar-se da Bolívia, Francisco Mangabeira escreveu Hostiário, sua estreia em 1898; Tragédia Épica, em 1900, sobre a Guerra de Canudos; Últimas Poesias, em 1906 e As Visões de Santa Teresa, também em 1906. Na época, o poeta, por ainda estar preso a certos cânones do Romantismo, não teve tanta acolhida, sendo redescoberto, revisitado e reabilitado décadas mais tarde, após o Modernismo. Escreveu, ainda, “Cartas do Amazonas”, neste Estado, como correspondente para o “Diário de Notícias”, de Salvador.

Segundo informações prestadas pelo jornal “Diário do Maranhão” de 12/11/1904, Francisco Mangabeira chegou a São Luís em 24/03/1901, tendo partido de Salvador em 16 de maço do mesmo ano. Chegou acompanhado dos colegas de profissão Joaquim Moreira Sampaio e Nicanor José Ferreira para prestarem serviços em uma empresa chamada Companhia Maranhense de Navegação, localizada na Rua da Estrela, Praia Grande. Passaram os três a primeira noite no atual n. 199 da Rua Portugal, na Praia Grande, sobrado azulejado de quatro andares onde funcionava a “Pensão do Comércio”; no dia seguinte alugaram a casa de meia morada 12B, que não existe mais e ficava na rua Rio Branco, quase na esquina com a rua Coelho Neto; quando aí moravam, dirigiam-se ao Hotel Central (atual Palácio do Comércio), na Praça D. Pedro II, para suas refeições. Depois de um mês, mudam-se para a rua do Giz n.42, esquina com a rua Direita, a “Pensão da Chiquinha”, casa que também não mais existe.

Não se sabe ao certo quanto tempo o poeta passou aqui, mas as informações de jornais da época dão conta de que foram apenas alguns meses. Nesse interim, visitava bibliotecas em nossa capital e todos os dias ia ao Largo dos Amores contemplar o monumento a Gonçalves Dias, a quem chamava de “mestre”. Pareceu Mangabeira ter se afeiçoado a uma jovem da capital e ter-lhe dedicado alguns poemas, mas não resultou em nada muito consistente em termos de relacionamento amoroso. Durante sua estada, foi reconhecido por aqui como um dos filhos mais ilustres da Bahia.

Alguns meses depois, partiu para o Amazonas, de onde regressou em 1904, gravemente acometido por malária, com destino à sua terra natal. No trecho entre Belém e São Luís, a malária progrediu para "polineurite palustre”, com Mangabeira falecendo a bordo do vapor São Salvador, na costa maranhense, em Janeiro de 1904, sendo sepultado em São Luís. Nos anos seguintes, os círculos políticos e intelectuais da capital renderam grandes homenagens ao ilustre baiano, com romarias cívicas ao túmulo dele, especialmente no Dia de Finados. Uma jovem maranhense chamada Bebê Vasconcellos Reis, após alguns anos da morte do poeta, fez uma declamação para ele à beira do seu jazigo, como mostrou a publicação baiana “Revista do Brazil”, da década de 1900:

Nas décadas seguintes, principalmente nas de 1910 e 1920, houve acenos do Governo da Bahia para a construção de um mausoléu na capital baiana que acomodasse os restos mortais de Mangabeira. Além disso não ter acontecido, o poeta ainda quase foi “despejado” do seu sepulcro no Gavião, na década de 1950, quando seu nome foi incluído pela Prefeitura de São Luís como um dos sepultados cujo túmulo estava com pagamentos em atraso, como mostra abaixo a relação do jornal “Pacotilha o Globo”, de 1952 (nome com traço verde):

Não conseguimos junto ao Cemitério do Gavião informações tais como número do sepulcro, livros antigos com registro de sepultamento ou sobre se há algum parente distante que mantenha o jazigo. A própria localização da sepultura foi um acaso, pois depois da demolição de alguns túmulos históricos de 2020 para cá, a necrópole tem dificultado sobremaneira o trabalho de pesquisadores, fazendo-os andar ao acaso numa área de 57.000 metros quadrados Em e-mail enviado ao senhor Roberto Mangabeira Unger, tivemos como resposta dele o não saber o local exato de descanso final do antepassado. Neste Dia de Finados, não se sabe se o jazigo receberá alguma visita, mas se continuar relativamente bem conservado como está, o patrimônio material e imaterial do campo santo de São Pantaleão ainda viverá.

*Autor deste artigo, Régio Andrade é jornalista, pesquisador e bancário.

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