Em destaque: Produtora por trás de “100 Dias”, Paula Cosenza Leva o Cinema Brasileiro para o Mundo
Às vésperas da estreia do filme sobre a travessia de Amyr Klink, sócia da Trema conta sua trajetória nos bastidores do cinema e defende mais mulheres em posiçõe

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Consulte formatos e valores disponíveisNa próxima quinta-feira (29), o filme “ 100 Dias ”, que adapta a travessia solitária do navegador Amyr Klink, chega aos cinemas brasileiros. Por trás do projeto, que exigiu quase dez anos de articulações envolvendo a Disney e até uma coprodução com a Finlândia, está a produtora Paula Cosenza. “100 Dias está na minha vida há dez anos. Quando adquirimos os direitos com a Marina Klink [fotógrafa e esposa de Amyr], sabíamos que tínhamos um filme épico em mãos”, diz em entrevista à Forbes Brasil.
Cosenza foi um dos primeiros nomes acionados para ajudar a levantar o longa, que, além da produção do Ventre Studio, ainda contou com coprodução da Buena Vista International, Boipeba Filmes, Trema Filmes, O2 Filmes e Total Post em associação com a Good Hand Film & TV. “Lá atrás, a questão era encontrar um diretor que soubesse contar uma história muito brasileira para o mundo todo. Depois de firmarmos parceria com o Carlos Saldanha, a Disney abraçou o projeto.”
As filmagens aconteceram em 2024, mas seu papel começou muito antes. “O set de filmagem dura semanas, mas o trabalho da produtora acontece intensamente muitos anos antes e alguns anos depois das filmagens.”
A função da produtora vai desde desenhar a engenharia financeira do filme, que costuma misturar fundos públicos e privados, até buscar os parceiros criativos e talentos para compor o longa e conduzir reuniões de negócios com distribuidores e possíveis coprodutores internacionais em mercados do mundo todo.
“Muitas vezes, as pessoas acham que o produtor é apenas um executor financeiro, mas é um trabalho imensamente criativo”, afirma. “Pense no produtor musical ou no editor de livros: o papel no cinema é parecido. É ser o alicerce e a ponte entre a ideia criativa e a realização concreta.”
“100 Dias” não é a primeira grande produção de Cosenza, cofundadora do Ventre Studio e da recém-lançada Trema, produtora sediada em Recife. Com mais de duas décadas nos bastidores do cinema, a executiva construiu sua carreira articulando coproduções internacionais e já firmou parcerias com Netflix, Disney, HBO, FOX, Warner Bros., Sony Pictures e Globo.
Apaixonada pelas artes desde cedo, chegou a estudar teatro no Célia Helena antes de migrar definitivamente para as funções por trás das câmeras. A decisão, no entanto, não soou animadora no início. Ela lembra, aos risos, de quando o pai lhe entregou um almanaque de profissões na época do vestibular. Na seção sobre cinema, a perspectiva da carreira, respondida por um veterano, era “morrer de fome”.
Ignorando o presságio, ela fez as malas e foi para Londres, onde morou por 10 anos e se especializou em produção de cinema na University of the Arts London. “Na faculdade de cinema, a maioria quer ser diretor. Mas, fazendo curta-metragens, eu entendi como a produção de fato é muito criativa”, diz. “O produtor está desde a primeira conversa até a última venda em um festival. É apaixonante passar por todas as etapas.”
Ao retornar definitivamente ao Brasil em 2006, Paula encontrou um terreno fértil com a estruturação da Ancine e o fortalecimento das produtoras independentes. Com a bagagem internacional, percebeu que o mercado externo não era apenas uma fonte de financiamento, mas um celeiro de “padrinhos e madrinhas” para os filmes.
“Sempre entendi o cinema brasileiro como uma potência. Você senta à mesa sempre com 220 milhões de pessoas. Que país tem esse público e essa força?”
Essa visão a levou a encabeçar e coproduzir projetos que ganharam espaço entre a crítica internacional, como o filme “Violeta Foi Para o Céu”, que chegou ao Festival de Sundance; “Ausência”, exibido em Berlim; e “Casa de Antiguidades”, único filme sul-americano na seleção oficial do Festival de Cannes em 2020.
Agora, à frente de sua nova produtora, a Trema — fundada em parceria com o diretor Gabriel Mascaro —, ela segue mirando em talentos latino-americanos e apostando em parcerias internacionais até mesmo para séries independentes, um movimento ainda raro no Brasil.
Outra de suas missões é deslocar o eixo geográfico das narrativas, indo além da ponte Rio-São Paulo. “Por que uma história, como uma comédia romântica em ‘cidade grande’, não pode ser no Recife, em Belo Horizonte ou em Salvador? Queremos trazer esses diferentes olhares e paisagens, e usar os talentos dessas indústrias locais.”
Ocupar a cadeira de quem decide o que — e como — será filmado traz um peso que Cosenza faz questão de carregar com intencionalidade. Integrante de coletivos femininos de produtoras ao redor do mundo, ela é uma defensora vocal da paridade de gênero, no set e fora dele. “Ser mulher nessa indústria é algo que vem com muita responsabilidade. Historicamente, não temos tantas diretoras ou diretoras de fotografia. Eu busco ativamente trabalhar com elas”, afirma, citando como exemplo sua produção da série “João Sem Deus”, com equipes femininas de roteiristas, direção e fotografia.
Para a nova geração de mulheres que hoje enchem as salas de cursos de audiovisual, Paula Cosenza deixa um conselho. “Seja parceira criativa das pessoas que estão contando a história junto contigo. O produtor é meio pai e mãe do projeto. Então, não aceite ser colocada num lugar apenas executor”, diz. “Seja uma força motora, proponha novas histórias e vá atrás das que você quer contar.”
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