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Eleição não se conquista vitória sobre com insultos: o preconceito não substitui propostas

O texto aborda episódios relacionados ao Bolsa Família, às pessoas com deficiência, aos nordestinos e à comunidade LGBTQIA+.

Por Redatores da Empire Cidades 30 de outubro de 2026 às 14:47
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Eleição não se conquista vitória sobre com insultos: o preconceito não substitui propostas
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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A política brasileira parece atravessar um momento em que os ataques pessoais, os rótulos ideológicos e as manifestações de intolerância ocupam cada vez mais espaço, enquanto o debate sobre projetos, propostas e soluções concretas para os problemas da população fica em segundo plano. É preciso fazer uma reflexão sobre esse comportamento. Afinal, como conquistar a confiança de milhões de brasileiros desrespeitando justamente aqueles que se pretende representar?

O debate promovido pela Band trouxe à discussão uma questão que merece atenção: qual seria o cenário político e social de um eventual governo de Flávio Bolsonaro, considerando os discursos e posicionamentos públicos de figuras como Nikolas Ferreira, deputado federal, Pablo Marçal, coach e empresário, e Lucas Pavanato, além de outras manifestações que marcaram o ambiente eleitoral?

As declarações e os episódios envolvendo essas figuras públicas permitem questionar não apenas o conteúdo dos discursos, mas também a estratégia de comunicação das campanhas. Afinal, até que ponto as coordenações avaliam as consequências de manifestações que podem afastar segmentos expressivos da sociedade?

Não será chamando eleitores de “porcos” por receberem o Bolsa Família, apelidado pejorativamente de “Bolsa Farelo”, nem ameaçando demitir trabalhadores por suas escolhas nas urnas que se vencerá uma eleição. Tampouco será chamando Lula de “9 dedos”, em referência à amputação sofrida em um acidente de trabalho, que se conquistará o respeito da população. Além da agressividade política, esse tipo de manifestação reforça o preconceito contra pessoas com deficiência.

Uma pergunta precisa ser feita às coordenações de campanha: como não avaliar o impacto eleitoral de ataques a um programa social que, em setembro de 2026, atendia 19.295.378 famílias brasileiras? São milhões de núcleos familiares que fazem parte da realidade social e econômica do país. Desqualificar seus beneficiários significa desconsiderar uma parcela expressiva da população.

Outro questionamento diz respeito à estratégia de utilizar a deficiência física de um adversário como instrumento de provocação durante um debate eleitoral. O Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE. Esse dado representa milhões de brasileiros que enfrentam diariamente barreiras físicas, sociais e atitudinais.

Não se trata de afirmar que todas essas pessoas compartilham a mesma posição política ou preferência eleitoral. Trata-se de compreender que transformar uma deficiência em insulto contribui para normalizar o preconceito e atinge a dignidade de um grupo expressivo da sociedade.

O voto não retira do cidadão sua dignidade. Quem recebe um benefício social continua tendo os mesmos direitos, deveres e liberdade de escolha de qualquer outro brasileiro. O trabalhador não pode ser constrangido ou ameaçado por sua preferência política. E uma deficiência física jamais deveria ser transformada em instrumento de humilhação eleitoral.

O problema não está apenas na linguagem utilizada, mas na concepção de política que ela revela.

Quando Pablo Marçal classifica apoiadores de Renan Santos como “filhotes de Hitler”, desconsidera o respeito devido aos eleitores que se identificam com determinada candidatura. É possível discordar radicalmente de um candidato sem desqualificar indiscriminadamente seus apoiadores.

Os números também merecem atenção. Renan Santos recebeu 2.675.887 votos no primeiro turno de 2026, correspondentes a 2,24% dos votos válidos. É um contingente eleitoral que não pode ser ignorado em qualquer análise sobre a disputa presidencial.

A eventual migração desses eleitores para outras candidaturas é uma hipótese que precisa ser examinada com dados, pesquisas e comportamento eleitoral, não presumida a partir de declarações públicas. O episódio, entretanto, levanta uma questão relevante sobre os efeitos de ataques pessoais na relação entre candidaturas e seus respectivos eleitorados.

Na mesma direção, ataques aos nordestinos, como os atribuídos a Nikolas Ferreira, revelam uma preocupante dificuldade de compreender a diversidade brasileira.

A região Nordeste reúne 43.529.845 eleitores nas eleições de 2026, o equivalente a 27,42% do eleitorado nacional, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

Como uma coordenação de campanha avalia os riscos de permitir que manifestações ou conteúdos que desrespeitem uma região inteira ocupem espaço na comunicação eleitoral? Antes de divulgar vídeos e declarações de forte repercussão, não seria necessário verificar a veracidade das informações e avaliar suas consequências?

A dimensão eleitoral do Nordeste, por si só, demonstra que qualquer discurso dirigido à região exige responsabilidade. Além disso, milhões de nordestinos migraram para outras partes do país, contribuindo para o desenvolvimento econômico, social e cultural do Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Desrespeitar nordestinos é desrespeitar uma parte fundamental da própria história nacional. Nenhuma região tem o monopólio da inteligência, do trabalho, da capacidade ou da cidadania.

Outro exemplo é a insistência de Pavanato em colocar a questão dos banheiros para pessoas trans no centro do debate político. A discussão sobre direitos, segurança, convivência e políticas públicas merece ser tratada com responsabilidade, conhecimento e respeito.

A população LGBTQIA+ também merece representação e respeito. Embora existam pesquisas que estimem sua dimensão demográfica, o Brasil ainda não dispõe de uma contagem censitária oficial consolidada de todas as pessoas LGBTQIA+. Portanto, não se deve apresentar estimativas como se fossem números oficiais.

Transformar questões relacionadas a essa comunidade em instrumento permanente de confronto político não resolve os problemas da sociedade nem constrói políticas públicas equilibradas.

Mais uma vez, cabe perguntar às coordenações de campanha: qual é o objetivo de colocar grupos sociais inteiros na posição de adversários? A disputa eleitoral deve apresentar projetos para a sociedade, não estimular a hostilidade contra cidadãos por sua identidade ou condição pessoal.

Da mesma forma, atacar adversários pela idade não demonstra preparo, capacidade administrativa ou competência para governar. A experiência não é, por si só, garantia de qualidade, assim como a juventude não representa automaticamente renovação ou eficiência. O que deve ser avaliado é a capacidade de apresentar soluções e administrar os interesses coletivos.

O eleitor não precisa de um candidato que o ensine a odiar. Precisa de representantes capazes de melhorar sua vida.

É justamente nesse ponto que o debate político precisa recuperar sua essência.

Onde estão as propostas para melhorar a saúde pública? Quais são os projetos para ampliar a qualidade da educação? Como enfrentar a violência, reduzir o desemprego, melhorar a infraestrutura, garantir moradia e fortalecer a economia? Quais são as soluções para o custo de vida e para os problemas que atingem diariamente as famílias brasileiras?

Essas são as perguntas que deveriam ocupar o centro das campanhas eleitorais.

A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Pelo contrário, ela pressupõe divergência, pluralidade e liberdade de manifestação. O adversário político não é necessariamente um inimigo, e o eleitor que escolhe outro candidato não se torna menos brasileiro, menos inteligente ou menos digno de respeito.

A liberdade de escolha é um dos fundamentos da democracia. O artigo 5º da Constituição Federal assegura a igualdade perante a lei, a liberdade de manifestação do pensamento e a proteção contra discriminações. Esses princípios não podem ser tratados como meros discursos institucionais: precisam orientar também o comportamento daqueles que disputam o poder público.

É legítimo criticar governos, questionar candidatos, confrontar ideias e cobrar responsabilidades. A crítica política é indispensável à democracia. O que não se pode normalizar é a substituição dos argumentos por humilhações, preconceitos e tentativas de intimidação.

Há uma diferença fundamental entre firmeza política e agressividade. Entre combater uma ideia e desrespeitar uma pessoa. Entre apresentar uma posição ideológica e transformar diferenças sociais, regionais, físicas ou culturais em motivos de hostilidade.

Uma candidatura que pretende governar um país precisa demonstrar capacidade de representar também aqueles que não concordam com ela. Governar não é administrar apenas os interesses dos próprios apoiadores, mas trabalhar para toda a sociedade.

O Brasil não precisa de uma política que divida cidadãos entre merecedores e desprezíveis, inteligentes e ignorantes, vencedores e inimigos. Precisa de uma política que reconheça a dignidade de cada brasileiro.

A pergunta que fica é simples: como conquistar o voto de milhões de pessoas quando o discurso de campanha é marcado pelo desprezo a trabalhadores, beneficiários de programas sociais, nordestinos, pessoas com deficiência e minorias?

A política precisa amadurecer. O eleitor também precisa exigir mais. Não basta escolher quem fala mais alto, quem provoca mais ou quem produz o ataque mais compartilhado nas redes sociais. É necessário avaliar trajetória, preparo, coerência, propostas e compromisso com o interesse público.

As coordenações de campanha também precisam compreender que estratégia eleitoral não se resume a produzir vídeos virais, provocar adversários ou mobilizar grupos nas redes sociais. É necessário avaliar consequências, conhecer a realidade social brasileira e entender que cada manifestação pública pode ampliar ou comprometer o diálogo com diferentes segmentos da população.

Afinal, campanhas eleitorais terminam, os mandatos passam, mas as consequências das escolhas políticas permanecem na vida das pessoas.

Eleição não se vence com insultos. Vence-se com propostas, coerência, competência e respeito. Porque quem não respeita o eleitor durante a campanha precisa explicar como pretende representá-lo depois de conquistar o poder.

Por José Santana – jornalista, MTB 3982/SC | graduado em Gestão Pública Administrativa | pós-graduado em Direito Constitucional e editor-chefe da Folha do Estado SC.

#Economia#Cidades#Colunas
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