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Atualização: Sem título

Está enganado (e podemos provar)

Por Redatores da Empire Cidades 20 de outubro de 2026 às 16:20
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Durante muito tempo, nas telas de cinema, nas séries e até nas histórias em quadrinhos, o personagem que aparecia sempre com um livro na mão dificilmente era o mais popular da turma. Pelo contrário: era o intelectual, o estudioso, aquele que talvez preferisse ficar em casa lendo. Hoje, o cenário é outro [ confira no vídeo acima e, abaixo, mais exemplos desse fenômeno ].

Depois da pandemia e do boom do BookTok, em que influenciadores de livros tomaram o TikTok, ler ganhou status de cool. Livro virou assunto de conversa, conteúdo para as redes sociais, acessório e até inspiração para o mercado de luxo. Se antes ninguém queria parecer o "nerd da sala", agora tem muita gente fazendo questão de mostrar o que está lendo.

Grandes marcas perceberam. No começo deste ano, a Dior lançou bolsas inspiradas em capas de livros famosos, como "Orgulho e Preconceito" e "Drácula".

A atriz Florence Hunt, da série 'Bridgerton', estrela campanha da Dior de 'Orgulho e Preconceito' Imagem: Divulgação Já a Coach chamou atenção no desfile em fevereiro ao colocar nos looks dos convidados chaveiros em formato de livros pendurados nas bolsas. Na Semana de Moda de Paris, a Valentino desfilou dentro de uma biblioteca.

Clubes de leitura também viraram moda, e não só nas redes sociais. Celebridades têm seus próprios grupos, como a pop star Dua Lipa. Além do seu clube, o Service95 Book Club, ela inaugurou a Manifesto Library, um espaço de curadoria de livros na Livraria Lello, em Portugal, só com obras censuradas. Oprah Winfrey e Reese Witherspoon também tem seus clubes com milhões de seguidores.

Dua Lipa transformou os livros e a leitura em uma das suas várias bandeiras Imagem: Divulgação Esta repórter, que fala de livros desde 2018 na internet, também tem o seu próprio clube.

É o luxo e o pop flertando com o universo literário, dando um ar ainda mais descolado para a leitura. E as redes sociais ajudaram.

"Foi muito interessante ver livros e conteúdo de livros explodindo nas redes sociais", diz SenLinYu, autora de "Alchemised" (ed. Intrínseca), livro de fantasia dark que começou como uma fanfic publicada de forma independente na internet. A história chegou a ter 10 milhões de visualizações antes de ser comprada por uma editora.

Ler se tornou um elemento de personalidade. Vi isso em um artigo, e criou uma boa perspectiva para mim. Eventos e livros estão explodindo porque se tornaram esse marco de identidade SenLinYu

Os números ajudam a explicar por que o mercado está tão interessado nesse novo momento da leitura.

Livros estão em quinto lugar entre os produtos mais consumidos pelos brasileiros no último ano, com 18%. Ficam atrás de roupas, celulares, ingressos de cinema e brinquedos. O dado é da pesquisa "Panorama de Consumo de Livros", feita pela NielsenIQ em parceria com a Câmara Brasileira do Livro e divulgada em fevereiro de 2026.

Na comparação com o levantamento anterior, feito em 2024, isso representa 3 milhões de novos consumidores.

A literatura voltou a ser um lugar onde as grandes comunidades se reconhecem, onde se volta a ter um senso de pertencimento Anna Beatriz Almeida, diretora de assuntos corporativos da Skeelo

"Fizemos uma pesquisa que mostra que 49% da população brasileira lê de alguma forma, seja livro físico, digital, audiobook, mangás e quadrinhos. Todo esse universo que compõe a literatura e o lúdico."

Para entender a transformação, basta olhar para quem começou a produzir conteúdo sobre livros nas redes.

Durante a pandemia, o pernambucano Lucas Barros estava morando com os pais e decidiu gravar alguns vídeos sobre os livros que estava lendo. Não havia uma grande estratégia por trás. Os amigos não liam e ele simplesmente queria encontrar alguém com quem pudesse conversar sobre as histórias.

À medida que ia postando, os vídeos eram entregues para mais pessoas e o diálogo começou a acontecer. Tudo bem que não era em tempo real. Mesmo assim, era muito interessante postar o vídeo e ver os comentários. Me senti parte dessa comunidade Lucas Barros

O pernambucano Lucas Barros: das indicações nas redes ao livro próprio Imagem: Reprodução Instagram O conteúdo acabou levando Lucas para outro lado do mercado editorial: hoje, ele é escritor. Lançou "Amanhã Eu Morri Sozinho" (ed. Intrínseca), sobre um menino que entende sobre morte e solidão depois do abandono do pai.

A experiência dele ajuda a explicar uma das principais mudanças provocadas pelas redes: ler deixou de ser necessariamente uma atividade silenciosa e solitária e ocupa um espaço importante que era só das redes sociais. Agora, também é assunto para o transporte público, o café, o aeroporto, a fila, a viagem. E, claro, para o feed.

E, entre um like e outro, a leitura foi ocupando um espaço e aparecendo no feed de mais pessoas, incentivando a leitura ou, pelo menos, despertando a curiosidade.

As pessoas começaram a ver nos livros um momento de lazer, de descanso. Além de ter despertado o senso coletivo e de pertencimento Nana Vaz de Castro, diretora de aquisições da Sextante

Para ela, as conversas nas redes ajudam a criar pontes entre leitores e títulos. BookTok e influenciadores aproximam o público de obras que antes, talvez, só seriam percebidas se alguém entrasse em uma livraria.

Mas existe um gênero que parece se beneficiar especialmente dessa dinâmica.

Livros de ficção e entretenimento são os mais impulsionados. As pessoas estão lendo muito mais obras de ficção atualmente Nana Vaz de Castro

As plataformas concordam, sem falsa modéstia, que estão entre as responsáveis por esse novo movimento. Gustavo Rodrigues, que trabalha como líder de políticas de conteúdo e integridade do TikTok, conta que o interesse por clássicos também cresceu na plataforma.

"Essas discussões fazem com que tanto livros novos sejam objeto de discussão quanto obras clássicas sejam redescobertas pelas novas gerações. Tivemos, por exemplo, um crescimento do interesse por 'Noites Brancas' de Dostoiévski no segundo semestre de 2025", conta.

As buscas pelo livro no TikTok cresceram 15% em comparação com o primeiro semestre. As buscas pelo autor aumentaram 82% no mesmo período.

A literatura nunca foi tão democrática como agora. Os jovens estão lendo mais. Há muito trabalho a se fazer ainda, mas acredito que esse hábito de leitura vai se espalhar para mais pessoas Rodrigo Manhita, editor e diretor da Penguin Random House (PRH) Portugal.

Se as redes sociais conseguem transformar um livro antigo em assunto do momento, isso não significa que basta viralizar para uma editora colocar a obra no catálogo.

O "está bombando no TikTok" pode até chamar atenção, mas não é suficiente para decidir se um livro será publicado.

O mercado editorial, assim como o esporte, tem seus próprios olheiros. Eles acompanham tendências, conversam com leitores, observam as redes, leem comentários e tentam identificar quais histórias têm potencial para ir além de um viral passageiro.

O histórico de vendas, de performance dos livros que nós já publicamos e conhecemos e a história são ingredientes que indicam se aquele livro pode agradar aos leitores e como nós queremos vendê-lo. Acho que é uma conjunção desses fatores que me leva a saber Rodrigo Manhita, editor e diretor da Penguin Random House (PRH) Portugal

Nana Vaz de Castro, da editora Sextante, também vê limites para a influência das redes sociais na escolha dos livros.

"Temos que saber identificar o que é ruído das redes e o que de fato é uma informação importante sobre um livro que viralizou. Nada substitui a curadoria, nossa experiência e leitura. Não dá para comprar um livro apenas pelo buzz", diz Castro.

Mas claro que as redes mudaram a maneira de encontrar livros e pessoas para falar sobre eles. Um vídeo de 90 segundos faz muita gente descobrir um novo autor. Uma bolsa com capa de livro pode despertar a curiosidade para uma obra. Mas o movimento mais interessante ainda acontece quando se abre um livro: é quando a curiosidade vira leitura, e a leitura vai virar conversa.

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