Regenerar a Cidade é Defender a Dignidade Humana — Dia Mundial das Cidades
Este é o tema deste Dia Mundial das Cidades, estabelecido pela ONU para 2026.

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Consulte formatos e valores disponíveisMoradia adequada para todos, moradia digna para todos, direito à cidade para todos. Este é o tema deste Dia Mundial das Cidades, estabelecido pela ONU para 2026.
Celebramos no dia 31 de outubro de 2026 o Dia Mundial das Cidades. Não é uma data para comemoração vazia, para discursos oficiais e fotos de autoridades. É uma data para denúncia, para profecia, para conversão urbana.
O tema estabelecido pela ONU-Habitat para este ano é forte e desafiador: “Regenerar a Cidade: Habitação Adequada para Todos”. Regenerar. Não demolir. Não expulsar. Não gentrificar. Regenerar é curar. É cuidar da cidade doente a partir de quem nela vive ou sobrevive, de quem já construiu com as próprias mãos a cidade que o Estado não construiu.
E não é coincidência que, neste mesmo ano de 2026, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica no Brasil tenha como tema Moradia Popular Digna. A ONU fala em habitação adequada. A Igreja fala em moradia digna. São dois conceitos para a mesma urgência evangélica, constitucional e humana.
Moradia digna é muito mais do que um teto para famílias sem teto, sem casa. É casa mais entorno. É casa mais cidade. É casa mais dignidade. É sobre isso que quero refletir neste artigo.
O Dia Mundial das Cidades, 31 de outubro, encerra o Outubro Urbano, que começou em 5 de outubro com o Dia Mundial do Habitat. A sede global da comemoração em 2026 é Fuzhou, na China. O foco principal, segundo a ONU, é explorar como a renovação e a regeneração de bairros e áreas urbanas periféricas existentes podem melhorar as moradias, os espaços públicos e os serviços, sem empurrar as comunidades locais para a exclusão ou para o encarecimento excessivo do custo de vida.
Ou seja, sem gentrificação. Sem expulsar o pobre para fazer cidade bonita para rico.
No Brasil, o tema vem sendo mobilizado pelo Circuito Urbano, pela ONU-Habitat, por universidades, prefeituras, pela Confederação Nacional de Municípios e por movimentos sociais, como o MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia e a Pastoral da Moradia e Favela. Enfim, muita gente e muitas organizações que lutam pela implementação do ODS 11 da ONU – Cidades e Comunidades Sustentáveis. O debate urgente sobre resiliência climática também precisa entrar nesta luta: habitação adequada só pode acontecer quando defendemos a Casa Comum, nosso planeta Terra.
Mas precisamos perguntar com coragem profética: de que cidade estamos falando? Da cidade que existe no papel, nos planos diretores, nos discursos de políticos e governantes? Ou da cidade real, onde bilhões mundo afora e dezenas de milhões no Brasil vivem sem o mínimo que garanta dignidade e qualidade de vida?
Regenerar a cidade exige primeiro reconhecer que a cidade está doente, ferida. Ferida pela desigualdade, pela especulação imobiliária, pela grilagem, pelo racismo, pela exclusão.
Vivemos um processo acelerado de urbanização caótica no mundo e também no Brasil, gerando inúmeros problemas e desafios.
No Sul Global – América Latina, maior parte da África, da Ásia e do Oriente Médio – vivem cerca de 86% da população mundial, com uma fatia muito menor da renda global. São as megacidades: Mumbai, Lagos, Dhaka, São Paulo, Cidade do México, Belém, Manaus, Recife, Salvador, Cuiabá, crescimento este pela fuga, pelo êxodo rural, pela conurbação, pela metropolização.
No Norte Global – Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia –, as cidades viraram centros decisórios, financeiros, de poder regional ou mundial. Nova York, Londres, Paris e Tóquio mandam, ditam as regras ao resto do mundo.
As cidades do Sul, mesmo as chamadas “globais”, como São Paulo e Xangai, continuam subordinadas hierarquicamente. A globalização transformou as metrópoles: de centros industriais em centros de comando do capital. Surgiram as metrópoles, formações urbanas heterogêneas, descontínuas, sem limite preciso entre campo e cidade.
E, nesse processo, tudo virou mercadoria – inclusive o solo, a casa, a água, o ar. Resultado paradoxal: o mundo cada vez mais urbano e cada vez mais desigual dentro das cidades. Até nas cidades ricas há guetos, favelas, periferias.
No Sul Global, isso é regra, não exceção. No Brasil, o processo foi explosivo a partir da década de 1950: urbanização rápida, acelerada e sem planejamento estratégico, sem visão de futuro, sem reforma urbana, sem reforma fundiária.
Hoje, mais de 12 mil favelas abrigam mais de 16 milhões de habitantes. A ocupação de encostas de morros alagados e de margens de rios e córregos triplicou nas últimas quatro décadas. A cidade cresceu. Mas a dignidade não acompanhou o crescimento.
O planejamento urbano no Brasil em 2026 é marcado por esse drama. Discute-se um Sistema Nacional de Cidades, a urgência climática e a 6ª Conferência das Cidades em Brasília, que reuniu movimentos sociais para rediscutir o direito à moradia digna e a função social da propriedade urbana prevista no Estatuto da Cidade.
Enquanto isso, o povo continua esperando. Esperando água, esperando esgoto, esperando ônibus, esperando título de propriedade, esperando respeito.
Aqui está o coração deste artigo. Precisamos entender a diferença entre dois conceitos que se completam. Habitação adequada é um conceito técnico e jurídico, com critérios objetivos definidos pela ONU: segurança da posse, disponibilidade de serviços e infraestrutura, custo acessível, habitabilidade, acessibilidade e adequação cultural.
Para ser adequada, a moradia precisa ter garantia legal contra despejos arbitrários, acesso a água potável, saneamento básico, eletricidade, coleta de lixo, gasto que não comprometa a subsistência da família, espaço físico seguro, proteção contra frio, umidade, chuva e vento, além de respeito à identidade cultural da população.
Habitação digna é mais ampla, mais filosófica, mais humana. Está ligada ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana e ao pleno exercício da cidadania.
No Brasil, é direito social, Art. 6º da Constituição Federal. Moradia digna significa que a pessoa não apenas “mora em um teto”, mas pertence à sua comunidade, à sua cidade.
Significa acesso à rede urbana e social: proximidade ou transporte para escolas, postos de saúde, trabalho, lazer e cultura. Significa qualidade de vida, bem-estar, saúde mental, segurança pública, ausência de isolamento social.
Inserir habitação adequada e habitação digna no direito à cidade significa entender que a moradia não se resume a quatro paredes ou à posse de um imóvel isolado, mas à conexão indissociável entre a casa e o espaço urbano coletivo.
O direito à cidade, consagrado na Nova Agenda Urbana e no Estatuto da Cidade, defende que todos têm o direito de usufruir dos benefícios da vida urbana de forma justa, democrática e sustentável. Ou seja: não basta entregar uma casinha ou um lote urbano a 40 km do centro, sem ônibus, sem escola, sem posto, sem água, sem esgoto.
Isso não é moradia digna, é exílio urbano, é “gueto ou apartheid”. É empurrar o pobre para onde a cidade com dignidade não chega. A moradia digna só se concretiza se estiver conectada ao tecido urbano, com transporte público de qualidade, escolas, postos de saúde, áreas de lazer, cultura e postos de trabalho nas proximidades.
Para isso, precisamos aplicar na prática instrumentos e conceitos como função social da propriedade, IPTU progressivo no tempo e outros mais, utilizando o solo urbano ocioso ou especulativo para habitação de interesse social em áreas bem estruturadas e mais centralizadas; regularização fundiária sustentável, integrando assentamentos informais à cidade formal com melhorias urbanísticas, e não apenas entregando o título isolado; e garantindo que os moradores participem do planejamento dos bairros e dos planos diretores.
A cidade é construção coletiva. Não é mercadoria de poucos.
Sim, podemos afirmar com base em dados e com base na vida do povo: no Brasil de 2026 existem duas cidades. É um verdadeiro apartheid urbano, uma segregação socioespacial que divide o mesmo município em dois mundos. A cidade formal, dos ricos e da classe média, com infraestrutura completa, saneamento básico integral, fiação subterrânea, calçamento adequado, arborização, iluminação pública, forte policiamento, condomínios fechados, prédios com segurança privada e hipercentralidade. Perto dos principais polos de emprego, dos eixos de transporte de alta capacidade, dos hospitais privados, das escolas bilíngues. Concentra os investimentos públicos e privados.
Já na cidade informal, dos pobres, falta tudo. Déficit de infraestrutura, falta de saneamento básico universal, pavimentação precária, iluminação deficiente, coleta de lixo irregular. Moradias autoconstruídas em áreas de risco, encostas, margens de rios, sem título de propriedade legalizado. Transporte público caro, demorado e superlotado, sem segurança física, isolando os moradores dos centros de emprego.
Escassez de equipamentos culturais, inexistência de hospitais, de áreas de lazer planejadas. E, enquanto o poder público não chega, chegam as milícias, as facções e os grileiros, que passam a cobrar taxas por serviços básicos como água, luz e internet, aprofundando a vulnerabilidade dos moradores.
Essa divisão tem cor, tem raça, tem renda. Não é metáfora, é estatística, é vida. É Brasil.
Nas favelas brasileiras, 72,9% dos moradores se declaram pretos (16,1%) ou pardos (56,8%), enquanto brancos são 26,6%. Outras pesquisas em comunidades apontam até 82% de pretos e pardos, cerca de 60% vivendo com renda familiar de até um salário mínimo. Mais de 70% dos brasileiros abaixo da linha da pobreza são negros e moram em favelas e nas periferias urbanas.
É racismo estrutural e racismo ambiental: famílias de baixa renda e majoritariamente negras são as principais vítimas de deslizamentos, enchentes e desastres ambientais urbanos, porque o Estado brasileiro (União, Estados Federados e Municípios) negligenciou o planejamento e a contenção de áreas de risco.
Zonas industriais poluentes, lixões e aterros sanitários costumam ser instalados mais próximos de comunidades periféricas, longe da cidade dos ricos e da classe média. As cidades discriminam os pobres por mecanismos estruturais, urbanísticos e sociais, mantendo a segregação socioespacial: famílias de baixa renda empurradas para periferias distantes ou áreas de risco, onde a terra é mais barata.
O mercado imobiliário e a falta de políticas habitacionais reservam as áreas centrais e as mais valorizadas para quem tem poder aquisitivo, contribuindo para o agravamento da crise de mobilidade e do pedágio urbano: com transporte público precário e caro em relação à renda mínima, os trabalhadores e moradores da periferia gastam horas em deslocamentos, limitando o acesso a emprego formal, cultura, lazer e saúde.
Não podemos deixar de mencionar, também, a questão do déficit de saneamento e infraestrutura: enquanto bairros nobres recebem paisagismo, segurança e fiação subterrânea, comunidades enfrentam falta de saneamento, coleta irregular e ausência de pavimentação. A gentrificação: intervenções urbanas e revitalizações valorizam áreas, inflam o custo de vida e os aluguéis e expulsam moradores tradicionais de baixa renda para regiões ainda mais distantes.
Criminalização e vigilância: espaços privados de consumo e políticas de segurança por vezes adotam postura de suspeição e filtragem social em relação a jovens e famílias de baixa renda, principalmente negros e pardos.
Arquitetura hostil – bancos com divisórias – e policiamento ostensivo para coibir a presença de pobres em áreas ricas. Filtragem racial, reconhecimento facial com viés e letalidade policial que atinge sobretudo a juventude negra e periférica.
Por região, o padrão se repete com nuances: Norte, com maior proporção vivendo em favelas, população parda e indígena; Nordeste, com concentração massiva de pretos e pardos nas periferias, Salvador como símbolo; Sudeste, com o contraste mais explícito – São Paulo e Rio com maior número absoluto de favelas, bairros ricos majoritariamente brancos e periferias majoritariamente negras; Centro-Oeste, com jovens pretos e pardos predominantes nos bairros satélites; Sul, como única exceção, onde brancos são 55,9% nas favelas, mas negros continuam super-representados em relação à população total. É o apartheid que não está na lei, mas está no mapa, no CEP, na cor da pele, no tempo do ônibus.
Os dados mais recentes confirmam a gravidade da questão habitacional no mundo e, especialmente, no Brasil.
O Brasil alcançou 79,3 milhões de domicílios. As residências alugadas saltaram para 23% do total, gerando forte pressão financeira sobre famílias das periferias. O déficit habitacional total, segundo a Fundação João Pinheiro (2026), é de 5.773.983 moradias, cerca de 7,4% dos domicílios, queda de 3,4% em relação ao levantamento anterior.
O maior componente não é falta de tijolo, é ônus excessivo com aluguel: cerca de 61% do total, famílias urbanas de baixa renda que gastam mais de 30% da renda só com moradia. Depois vêm a coabitação familiar forçada e a habitação precária, com imóveis rústicos, improvisados, sem condições mínimas de dignidade.
Cerca de 75,7% do déficit habitacional está concentrado em famílias que ganham até dois salários mínimos, afetando desproporcionalmente pessoas negras e pardas. A inadequação habitacional é o verdadeiro gargalo: enquanto o déficit de novas moradias caiu levemente, cerca de 26 milhões de moradias são inadequadas. Casas que existem, mas carecem de saneamento, água encanada contínua, banheiro exclusivo, revestimento e ventilação, além de adensamento excessivo. É a casa que adoece quem mora dentro.
E o saneamento básico, como está? Aproximadamente 102,7 milhões de pessoas no Brasil sofrem alguma privação de saneamento. A água por rede geral atende 93,4% da população urbana, mas cerca de 9 milhões de moradias não têm ligação direta. No esgotamento sanitário, apenas 62,5% contam com coleta de esgoto. A coleta de lixo atinge 86,9%, o serviço mais capilarizado, mas ainda longe da universalização.
Por macrorregiões: Sudeste, com 2,35 milhões de déficit, maior volume absoluto, pressão do aluguel e especulação; Nordeste, com 1,46 milhão, aluguel em centros urbanos e habitações precárias no interior; Sul, com 743.170, leve alta por custo de moradia; Norte, com 673.554, precariedade das construções e grave deficiência de saneamento e água; Centro-Oeste, com 537.492, custos de locação e desafios de regularização nas periferias.
Na regularização fundiária – Lei 13.465/2017, Reurb-S e Reurb-E –, o Sudeste apresenta o maior volume absoluto, com foco nas regiões metropolitanas e parcerias entre prefeitura e cartório. O Nordeste concentra o maior contingente em moradias com privações e ausência de banheiros, com regularização lenta por falta de recursos técnicos para georreferenciamento. O Norte tem o cenário mais crítico, com conflitos socioambientais, sobreposição de terras e Manaus e Belém com mais de um terço da área urbana informal. O Centro-Oeste registra o maior crescimento em ocupações de alta declividade e expansão horizontal, com Brasília apresentando os informais que mais cresceram. O Sul tem os melhores índices de infraestrutura, mas enfrenta entraves em encostas e APPs.
Aqui o drama fica ainda mais perto de nós. O déficit habitacional estimado é de mais de 110 mil famílias sem habitação adequada: cerca de 44 mil moradias em Cuiabá e cerca de 67 mil famílias na fila em Várzea Grande. Paradoxo escandaloso: enquanto mais de 110 mil famílias demandam abrigo, Cuiabá e Várzea Grande registram quase 70 mil domicílios desocupados.
A especulação imobiliária mantém prédios e terrenos vazios nas áreas centrais, com infraestrutura, empurrando os mais pobres para periferias sem infraestrutura. A pujança do agronegócio gera liquidez que inflaciona o mercado: em Cuiabá, o preço médio dos imóveis disparou mais de 37%, encarecendo aluguéis.
Famílias de 0 a 3 salários mínimos gastam mais de 30% da renda só para não serem despejadas. Em Várzea Grande, milhares vivem sob risco de desabamentos e inundações, como nos bairros Mapim e Cristo Rei. Chuvas severas expõem a falta de saneamento, pavimentação e escoamento. Em Mato Grosso, pessoas negras representam 81,4% dos moradores de favelas e comunidades urbanas, e brancos, apenas 18,2%. Dos cerca de 82 mil moradores de comunidades no estado, 72.224 vivem em Cuiabá, cerca de 88%. Várzea Grande aparece em seguida, com 8.233. Bairros como Santa Laura, Passaredo, Jardim Vitória e Pedra 90 concentram a maior parte dessa população vulnerável.
O crescimento econômico do agro não eliminou as disparidades históricas de renda e moradia nas franjas da capital. É a prova de que o crescimento econômico sem justiça urbana é apartheid. Há ações em andamento – acordo entre Estado e Prefeitura de Cuiabá para 10 mil unidades pelo Ser Família Habitação, projetos em Várzea Grande, entregas do Minha Casa Minha Vida –, mas o volume ainda é insuficiente diante do crescimento populacional acelerado.
É aqui que precisamos ser proféticos e práticos ao mesmo tempo. Moradia digna não é só entregar unidade habitacional. É regenerar o entorno, a vida.
1. Regularização fundiária: garantia jurídica contra despejos, título mais urbanização integrada. Não basta o papel isolado. Regularizar é trazer a comunidade para dentro da cidade formal, com dignidade.
2. Segurança física das casas – ATHIS: Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social. Esta é a grande virada da próxima década. Em vez de só construir o novo, reformar as 26 milhões de casas precárias. ATHIS significa arquiteto, engenheiro e técnico ajudando a família pobre a melhorar telhado, piso, parede, ventilação, banheiro e estrutura contra chuva, umidade e deslizamento. É política pública prevista na Lei 11.888/2008, barata, digna, que salva vidas. Precisa sair do papel e virar prioridade nacional, estadual e municipal.
3. Saneamento e água potável: sem esgoto tratado, a casa vira foco de doença. Sem água contínua, a mãe carrega balde, a criança falta à escola, a dignidade vai pelo ralo.
4. Pavimentação, drenagem e arborização urbana: rua sem asfalto e sem árvore vira lama na chuva e forno no calor. Arborização é saúde, é sombra, é combate à ilha de calor, é beleza, é vida.
5. Escolas públicas de qualidade e unidades de saúde perto: moradia digna é poder levar o filho a pé para uma escola boa, ter posto que atende, não viajar duas horas para uma consulta.
6. Transporte e mobilidade urbana: tarifa social, integração metropolitana, ônibus de qualidade, ciclovia, calçada acessível. Mobilidade é direito à cidade. A Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana, a Pemob, precisa servir para planejar para o povo, não para o lucro das empresas.
7. Segurança que protege, não que mata: iluminação, espaços vivos, policiamento comunitário, não arquitetura hostil.
Projeções até 2036 são claras: mudanças climáticas vão exigir reassentamento de populações em área de risco; o envelhecimento da população vai exigir acessibilidade total nas novas moradias; e o emaranhado regulatório encarece o imóvel em até 30%. O foco das políticas públicas vai se deslocar da mera construção para a reforma, para a ATHIS, para a regeneração. Regenerar é também enfrentar a vulnerabilidade climática: enchentes, deslizamentos e ondas de calor atingem com mais força quem vive sem suporte estrutural. Não há justiça climática sem justiça urbana.
As cidades brasileiras foram e estão sendo construídas para o capital, não para o povo. O solo virou mercadoria, a casa virou negócio, a periferia virou depósito de pobres negros. Regenerar a cidade é inverter essa lógica. É colocar a vida acima do lucro. É cumprir o Estatuto da Cidade, a Constituição, o Evangelho. A Campanha da Fraternidade 2026 nos lembra: moradia digna é casa mais entorno mais cidade.
É direito à cidade para todas as camadas sociais e demográficas – negros, brancos, indígenas, mulheres chefes de família, idosos, pessoas com deficiência, jovens periféricos, povos originários. Enquanto houver duas cidades – uma com tudo e outra sem nada –, não haverá paz, não haverá democracia plena, não haverá sustentabilidade. Regenerar é reconciliar. É trazer a cidade informal para dentro da cidade formal, com dignidade, sem expulsar ninguém. É fazer da cidade casa comum.
Que neste Dia Mundial das Cidades, 31 de outubro, não fiquemos apenas nos discursos. Que prefeitos, governadores, presidente, vereadores, deputados, empresários, igrejas, universidades e movimentos sociais assumam um compromisso: nenhuma família sem moradia digna, nenhuma cidade partida em duas. A cidade é de todos. A cidade é para todos. A cidade precisa ser regenerada pela justiça, pela solidariedade e pela esperança. Que Deus nos dê coragem profética para não nos acostumarmos com o apartheid urbano. Que nos dê sabedoria para regenerar nossas cidades, nossas casas, nossas vidas.
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected] | WhatsApp: 65 9 9272 0052 | Instagram: @profjuacy
Existe um comportamento que ainda observo com frequência na prática médica: muitos homens só procuram atendimento quando sentem dor, apresentam algum desconforto ou percebem que algo não está funcionando como deveria. Enquanto não há sintomas, acreditam que está tudo bem. O problema é que algumas doenças, entre elas o câncer de próstata, podem se desenvolver silenciosamente.
Essa é uma das principais reflexões que precisamos fazer neste Novembro Azul. Mais do que uma campanha de conscientização sobre o câncer de próstata, o mês representa uma oportunidade de discutir por que tantos homens ainda resistem a cuidar da própria saúde.
O câncer de próstata é o tumor maligno mais frequente entre os homens, excluindo os cânceres de pele. Estima-se que um em cada seis homens desenvolverá a doença ao longo da vida. A idade, o histórico familiar, especialmente entre parentes de primeiro grau, a ancestralidade negra e a obesidade estão entre os fatores associados ao aumento do risco.
Entretanto, um dos aspectos mais preocupantes é justamente a ausência de sintomas nas fases iniciais. Quando surgem manifestações como dificuldade para urinar, sangue na urina ou dores ósseas, a doença pode já estar em estágio avançado. Portanto, esperar que o organismo dê algum sinal não é uma estratégia segura.
Outro obstáculo importante é o medo. Ainda existe constrangimento em relação ao exame de toque retal, receio de receber um diagnóstico e muita desinformação sobre os procedimentos utilizados na avaliação da próstata. Esses fatores acabam afastando homens dos consultórios e adiando conversas que deveriam acontecer naturalmente.
Precisamos compreender que o cuidado urológico vai muito além do câncer de próstata. O urologista acompanha diferentes condições relacionadas ao aparelho urinário e à saúde genital masculina, incluindo infecções, cálculos renais, alterações urinárias e disfunções sexuais. Não existe uma idade específica para procurar esse especialista pela primeira vez.
Quando falamos especificamente do rastreamento do câncer de próstata, a decisão deve considerar a idade, os fatores de risco, as condições clínicas e as características individuais de cada paciente. Não se trata de realizar exames indiscriminadamente, mas de discutir com o médico os possíveis benefícios e limitações dessa investigação.
O PSA, realizado por meio de uma amostra de sangue, é uma importante ferramenta de avaliação, mas não deve ser interpretado isoladamente. Um resultado elevado não significa necessariamente câncer, assim como valores dentro da normalidade não excluem completamente a doença. O exame físico e, em situações específicas, a ressonância magnética e a biópsia contribuem para esclarecer suspeitas.
Também é importante combater a ideia de que um diagnóstico de câncer de próstata significa, obrigatoriamente, cirurgia ou perda da qualidade de vida. Atualmente, dispomos de diferentes possibilidades terapêuticas, como vigilância ativa, cirurgia, radioterapia e tratamentos medicamentosos. A escolha depende das características do tumor e das condições de cada paciente.
Nos casos em que a cirurgia é indicada, os avanços tecnológicos, incluindo a cirurgia robótica, proporcionaram maior precisão aos procedimentos e ampliaram as possibilidades de preservação de estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual. Ainda assim, todo tratamento envolve riscos e benefícios que precisam ser discutidos individualmente.
A medicina avançou significativamente no diagnóstico e no tratamento do câncer de próstata. Mas nenhuma tecnologia substitui a decisão pessoal de procurar orientação médica, esclarecer dúvidas e participar ativamente dos cuidados com a própria saúde.
A adoção de hábitos saudáveis, como praticar atividades físicas regularmente, manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso e preservar a qualidade do sono, também integra esse compromisso. Cuidar da saúde não deve ser uma atitude motivada exclusivamente pelo medo de adoecer, mas uma escolha permanente de qualidade de vida.
O Novembro Azul cumpre um papel fundamental ao trazer essas questões para o debate público. Entretanto, seu verdadeiro resultado não pode ser medido apenas pela quantidade de campanhas realizadas ou de homens que procuram atendimento durante o mês de novembro.
Precisamos avançar na construção de uma cultura em que os homens se sintam à vontade para falar sobre suas dúvidas, reconhecer suas vulnerabilidades e procurar assistência antes que surjam problemas.
Afinal, o maior desafio não é apenas diagnosticar precocemente o câncer de próstata. É fazer com que os homens compreendam que cuidar da própria saúde não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmos e com aqueles que fazem parte de suas vidas.
Que o Novembro Azul seja o início dessa mudança de comportamento, e não apenas mais uma campanha que termina quando o calendário chega a dezembro.
Dr. Daniel Pires Vaz é médico urologista e andrologista, CRM-MT 15337 | RQE 7529.
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