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por que grandes cientistas erram — A ‘Doença do Nobel’ e o risco da falácia de autoridade

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 8 de novembro de 2026 às 09:30
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por que grandes cientistas erram — A ‘Doença do Nobel’ e o risco da falácia de autoridade
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Eu tenho diploma de engenheiro. Fiz pós-graduação, mas não tenho mestrado, doutorado nem artigo em revista de alto impacto. Meu currículo, comparado ao de quem vou citar aqui, cabe numa nota de rodapé. Em abril de 2021, eu apontei um erro básico numa análise feita por Michael Levitt: ele é graduado em física pelo King’s College de Londres, PhD em biofísica por Cambridge, professor de biologia estrutural em Stanford, publicou mais de 500 estudos e foi vencedor do Prêmio Nobel de Química de 2013.

Conto isso não para me gabar, mas para ilustrar uma armadilha muito comum: a falácia de autoridade. Ela consiste na ideia de que uma afirmação é verdadeira pelos títulos de quem a emitiu. Por analogia, funciona no sentido oposto também: descartar o acerto de quem não tem nenhum título vistoso. Neste artigo, mostro como o erro foi identificado e apresentarei alguns outros grandes cientistas que embarcaram em ideias sem embasamento científico.

Em 11 de abril de 2021, Levitt publicou no Twitter uma análise feita, segundo ele, em uma hora de Excel. Usando os óbitos anuais do Portal da Transparência do Registro Civil entre 2015 e 2019, ajustou uma reta e projetou o “esperado” para 2020: 1,36 milhão de mortes no Brasil. Como o Registro Civil mostrava 1,45 milhão, ele calculou que o excesso seria de apenas 93 mil — metade dos quase 200 mil óbitos atribuídos à Covid naquele ano. A mensagem estava clara para Levitt: haveria sobrenotificação de mortes por Covid no Brasil.

De 2015 a 2019, esta série cresceu em média 9% ao ano. Mas faltou fazer o chamado teste de sanidade. Se as mortes no Brasil realmente crescessem 9% ao ano:

Mas isto não estava acontecendo no mundo real. Havia um problema nos dados: o Portal da Transparência do Registro Civil era um sistema digital relativamente novo. A cobertura era baixa e foi melhorando com o tempo. O “crescimento” de 9% ao ano mediu, em grande parte, a expansão da cobertura. Por outro lado, existe uma fonte histórica com dados consolidados e com ampla cobertura: o Sistema de Informações sobre Mortalidade do DataSUS. Foi esse gráfico que mostrei a Levitt:

Nele, os óbitos cresceram a uma taxa média de 1,7% ao ano entre 1996 e 2019, compatível com o que se vê em outros países. Note que no início da série do Registro Civil o número absoluto de óbitos é distante do DataSUS e só se aproxima dele perto de 2019.

Se considerássemos a continuidade deste crescimento, teríamos um excesso de óbitos (além do esperado) na ordem de 190 mil — mais que o dobro do estimado por Levitt e compatível com as mortes notificadas como Covid.

Após meu alerta, Levitt agradeceu e respondeu que era a primeira vez que via dados de uma base oficial que não mereciam confiança. Teve a elegância de reconhecer a falha — o que é notável. Mas também revela o problema: um cientista do seu calibre tomou como confiável uma base de dados que não conhecia e sobre a qual não aplicou nenhum teste estatístico. E aqui um importante contexto: Levitt já era defensor da tese que a pandemia seria menos grave do que se dizia. O viés de confirmação fez ele defender um ponto sem o mesmo rigor que ele dedicaria a sua área acadêmica.

Levitt está longe de ser um caso isolado. A história da ciência tem uma lista de mentes brilhantes que acabariam defenderam ideias descabidas. Existe até um apelido para isto: a “doença do Nobel”.

Linus Pauling é a única pessoa a ganhar dois Nobel não compartilhados: Química em 1954, pela natureza das ligações químicas, e da Paz em 1962, pela campanha contra os testes nucleares. A partir de 1970, passou a defender que megadoses de vitamina C preveniam e curavam resfriados — e, mais tarde, que ajudavam até mesmo a tratar câncer. Ensaios controlados não confirmaram isto, mas até hoje, muitos ainda tomam vitamina C contra gripe porque “um Nobel disse”.

Kary Mullis ganhou o Nobel de Química de 1993 pela reação em cadeia da polimerase (PCR) — a mesma técnica dos testes de Covid. Na autobiografia publicada em 1999 negou que o HIV causasse a AIDS, contestou o aquecimento global causado pelo homem e relatou um encontro noturno com um guaxinim fluorescente falante que talvez fosse um alienígena.

Luc Montagnier dividiu o Nobel de Medicina de 2008 pela descoberta do vírus HIV. Um ano depois, publicou que o DNA de bactérias emitiria ondas eletromagnéticas capazes de “imprimir” sua assinatura na água, mesmo em diluições extremas — algo recebido com festa pelos homeopatas. Na pandemia, afirmou que o SARS-CoV-2 teria sido fabricado com trechos do HIV e que as vacinas estariam gerando novas variantes. Nenhuma das alegações se sustentou.

Mas há alguns pesquisadores premiados que reconhecem o risco. Paul Nurse, Nobel de Medicina de 2001, alertou para a “nobelite”: que a distinção faria com que todos passariam a tratá-los como especialistas em tudo.

Uma interpretação simplista e errônea seria que títulos não valeriam nada. Preciso reforçar: confiar em especialistas é racional, sim. Precisamos deles. A falácia está em considerar a opinião como prova dispensando o exame do argumento. E, claro, o fato de um engenheiro ter acertado contra um Nobel não torna os engenheiros mais confiáveis que os laureados.

A ciência funciona por verificação: um argumento se sustenta pela qualidade dos dados que usa e pela capacidade de resistir a testes. A falácia de autoridade é tratar a credencial de quem fala como prova do que é dito. Para escapar dela, na próxima vez que alguém encerrar uma discussão com “mas ele é PhD” sugiro uma resposta simples: “ótimo, então vamos examinar o argumento que ele apresentou”.

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