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Panorama: Sem título

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 24 de outubro de 2026 às 12:45
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Panorama: Sem título
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Na semana em que o país decidirá se o próximo presidente será Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), é possível que muitos parentes, casais e amigos estejam bloqueados nas redes sociais e afastados na vida real por causa de divergências políticas.

É o caso da jornalista Amanda*, 40, que voltou à sua cidade em Goiás para passar férias mas, desta vez, não avisou os amigos de infância. "Eles são 'ultrabolsonaristas' e não quero perder a amizade. Já até silenciei as publicações deles nas redes sociais. Amo todos, mas não quero falar sobre isso. Estou com crise de ansiedade, e a política está tirando a minha paz."

Uma pesquisa do Datafolha baseada nas eleições de 2022 revela a dimensão do desgaste no país: 49% dos brasileiros deixaram de falar sobre política para evitar discussões. Além disso, 54% relataram ter sofrido constrangimentos por razões políticas.

Os números ajudam a dimensionar um problema que vai além das urnas.

Quando a polarização chega às relações pessoais, a discussão deixa de ser apenas sobre candidatos, partidos ou propostas e passa a envolver confiança, valores e a imagem que cada um tem das pessoas com quem convive.

Para alguns, discordar de alguém querido é perfeitamente possível; para outros, descobrir em quem essa pessoa vota muda a maneira de enxergar toda a relação.

A cientista política Lilian Sendretti, doutora pela USP, formulou o conceito de burnout cívico a partir de entrevistas com eleitores. Trata-se do esgotamento provocado pelos conflitos políticos cotidianos, que leva as pessoas a evitar conversas e a se autocensurar para preservar o próprio bem-estar.

Não é necessariamente apatia: o custo emocional de participar dessas discussões ficou alto demais.

Pesquisadora do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Sendretti explica que o esgotamento aparece em grupos de família, amizades, igrejas e ambientes de trabalho, porque os conflitos políticos não terminam necessariamente com a eleição.

O que a pesquisa permite compreender é que esse esgotamento político não se restringe ao período eleitoral. Ele aparece no cotidiano: grupos de família, amizades, igreja, trabalho. Os conflitos não terminam quando as eleições acabam Lilian Sendretti, cientista política

O desgaste pode ser ainda maior quando a política se mistura a conflitos que já existiam.

O professor e doutor em psicologia social João Gabriel Modesto vê um cenário delicado, mas não necessariamente o pior já vivido pelo país em termos de conflitos. É a continuação de uma polarização que se acentua desde 2013, alimentada por algoritmos e bolhas.

Para o psicanalista Christian Dunker, porém, se o ódio já foi mais intenso, o cansaço hoje é maior.

Estamos no pior cenário do ponto de vista do cansaço, de distanciamentos. Na medida em que a gente não consegue encontrar um tratamento mais viável, isso vai deixando as pessoas mais solitárias Christian Dunker

Dunker relata ter presenciado a expressão "cala a boca, professora" sendo usada como um verdadeiro "grito de guerra" autoritário, inclusive em espaços acadêmicos e de debate.

Segundo ele, essa atitude sintetiza a recusa em pensar historicamente e trabalhar com conceitos, revelando uma tentativa de suprimir a controvérsia e fugir do esforço exigido pelo diálogo e pelo pensamento crítico.

Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) em debate presidencial: cansaço político chegou a nível máximo Imagem: Nelson Almeida - 18.out.26/AFP Dá para separar as coisas? Mas nem toda divergência exige rompimento, assim como preservar uma relação não significa aceitar qualquer comportamento.

A questão é distinguir o que é desconforto de conviver com alguém que pensa diferente da discordância que vira desrespeito ou violação de valores fundamentais. É nesse limite que o conflito político passa a exigir uma decisão sobre a própria relação.

Para o psicanalista e pesquisador Lucas Lujan, o conflito é, em alguma medida, parte do que torna a democracia possível. O limite está na agressão: humilhações, ameaças, intimidações ou tentativas de silenciamento.

Também importa a reação da pessoa quando se pede que pare. Insistir numa conversa que você avisa não querer ter pode ser sinal de uma relação abusiva. E nem mesmo o vínculo familiar obriga alguém a tolerar abusos.

Também não tem como tratar racismo, misoginia, homofobia como simples diferenças de opinião. São posicionamentos que atingem diretamente a dignidade e os direitos de outras pessoas Lucas Lujan, psicanalista e pesquisador

Reconhecer que uma relação chegou a um limite, porém, não significa que a única saída seja o afastamento. Quando ainda existe vontade de preservar o vínculo, vale avaliar se há espaço para uma conversa e, principalmente, se as duas pessoas estão dispostas a participar dela.

Antes de entrar numa conversa difícil, se pergunte: o objetivo é compreender o outro ou apenas derrotá-lo? No segundo caso, o diálogo tem mais chances de terminar em briga e afastamento.

Divergências políticas e polarização aumentam com a ação dos algoritmos das redes sociais Imagem: Arte UOL Para criar espaço para a conversa, o psicanalista e professor da USP Christian Dunker orienta usar "atenuadores" de fala, como "não quis dizer dessa maneira" e "vou me expressar melhor"; e "indicadores de dúvida", como "não sei o que pensar agora" e "vou precisar ler mais".

"A gente tem que respeitar um ao outro e suspender o enquadre", diz. Mas isso não significa se prejudicar para manter o diálogo.

Encontre uma distância para garantir que aquilo não vai ferir o outro e nem te ferir Christian Dunker, psicanalista

Mas, mesmo quando há respeito mútuo, tentar manter uma conversa pode ser desgastante. Há quem passe horas explicando, apresentando argumentos e tentando fazer o outro mudar de ideia, até perceber que o esforço não produz aproximação e ainda compromete a própria tranquilidade.

Nesse cenário, afastar-se do debate pode deixar de ser uma reação pontual e se tornar uma estratégia para preservar o bem-estar.

Uma discussão sobre eleições pode reabrir ressentimentos familiares, expor diferenças antigas ou dar nome a desconfortos que antes ficavam escondidos. Nesses casos, o candidato em quem alguém vota pode ser apenas a parte mais visível de um problema maior.

Quando ressentimentos antigos se misturam à política, talvez seja melhor não insistir no tema até que seja possível separar as questões.

"Pode ser importante não perder o elo comum de possibilidade de diálogo, dentro e fora da política, sobre o que temos em comum", diz Dunker.

O psicanalista, porém, chama a atenção para outra armadilha: a ideia de que a família deve ser necessariamente um porto seguro, um lugar de harmonia e equilíbrio. Essa expectativa, diz, pode ser bastante opressiva.

Dunker também adverte que recorrer ao "silêncio obsequioso" para evitar conflitos familiares pode estar associado a velhos segredos e traumas não elaborados, tornando o ambiente potencialmente mais explosivo ao longo do tempo.

O professor da Universidade Estadual de Goiás João Gabriel Modesto, doutor em psicologia social, distingue a polarização ideológica —a divergência de ideias, que considera saudável— da polarização afetiva, que "envolve não gostar do outro por causa de processos identitários".

Quando duas pessoas conseguem conversar e compreender o ponto de vista uma da outra, mesmo sem concordar, há uma divergência de ideias.

Mas, quando a rejeição impede até mesmo a aproximação ou o início de um diálogo, a divergência assume uma dimensão afetiva. Isso isola as pessoas em grupos distintos e realimenta a polarização.

Quando o posicionamento do outro fere algo central, como a defesa dos direitos de grupos vulnerabilizados, o diálogo fica "muito mais complexo e desafiador", afirma Modesto.

O afastamento pode começar como uma forma de proteção, mas, quando se prolonga, também reduz as oportunidades de reconstruir algum tipo de convivência.

No fim, lidar com alguém que se ama e vota diferente não significa necessariamente convencer, concordar ou romper. Em algumas relações, será possível estabelecer limites e encontrar formas de conversar; em outras, a distância pode ser necessária.

Preservar um vínculo não exige tolerar agressões, assim como discordar de alguém não torna automaticamente impossível a convivência.

A questão é reconhecer o que está em jogo naquela relação, avaliar se existe disposição mútua para o diálogo e entender até onde é possível ir sem abrir mão dos próprios limites.

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