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Panorama: Sem título

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 30 de outubro de 2026 às 15:40
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Panorama: Sem título
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Exame de sangue ajuda a detectar marcador da doença, mas não elimina a necessidade de outras avaliações Imagem: Getty Images/Westend61 Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Seria como detectar uma colherzinha de açúcar, dessas de café, diluída em uma piscina olímpica — esta é a comparação que escuto para entender a sensibilidade do exame de sangue para auxiliar no diagnóstico de Alzheimer que finalmente chega ao Brasil pelas portas do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O teste passou a ser oferecido no dia 15 de outubro, depois de a instituição ter realizado estudos que validaram sua acurácia.

O "açúcar" da analogia, que ouvi do neurologista Wyllians Borelli, seria a proteína p-tau217 em uma quantidade tão ínfima que, pouco tempo atrás, seria inimaginável detectá-la na circulação. "Ela é um marcador da placa beta-amiloide encontrada no cérebro de quem tem Alzheimer", diz o médico, pesquisador à frente do Centro de Memória do hospital gaúcho.

Para entender de onde surge a p-tau217, é preciso entrar na intimidade cerebral de alguém com essa doença neurodegenerativa. Ali, as placas de beta-amiloide não surgem da noite para o dia. "Elas vão se formando ao longo de muitos anos e, com o tempo, criam um processo inflamatório ao seu redor", conta Wyllians Borelli. "Então, passam a soltar o que chamamos de oligômeros, que são pequenas fibras."

Ah, esses fiapos de amiloide causam o caos! Eles vão se meter bem no meio da fenda sináptica, aquele espaço entre um neurônio e outro. O recado, ou sinal, de um neurônio precisa atravessá-lo para alcançar o outro. Mas, com a placa soltando fibrilas e elas se intrometendo no papo, a conversa fica difícil e as dificuldades se tornam evidentes no dia a dia.

Placas de beta-amiloide se formam ao longo de muitos anos e, com o tempo, criam um processo inflamatório ao seu redor Imagem: Getty Images/Science Photo Libra A história não termina aqui. Dentro dos neurônios, por sua vez, existem túbulos que funcionam como, digamos, vigas microscópicas, feitas de proteína tau. No Alzheimer, elas nem sempre param em pé, por assim dizer.

A presença das fibrilas vindas da placa leva, indiretamente, aquela viga dentro do neurônio a implodir, bem em uma região conhecida por 217. "Só o Alzheimer faz isso acontecer nesse pedaço da 'viga'", explica o doutor. "Então, a proteína que estava ali escapa da célula, vaza para o líquor, o líquido que banha o cérebro, e um pouco termina alcançando o sangue."

Só um pouco, um pouco mesmo, vai parar na corrente sanguínea. De acordo com o neurologista, apenas em 2018 começaram a surgir tecnologias ultrassensíveis capazes de detectar esse nadica de nada de proteína p-tau217. O teste que desembarcou no Brasil é a mais recente geração delas.

A tecnologia atual é de eletroquimioluminescência. Traduzindo: algo provoca uma alteração e isso emite pequeníssimos sinais luminosos. No caso, eles são tão sutis que só o equipamento do exame é capaz de captá-los.

"Depois de coletarmos a amostra de sangue, o laboratório separa o plasma, que é a parte líquida", descreve o doutor Borelli. "Mas ainda existe um monte de substâncias nadando ali. Daí que, para flagrar o bocadinho de proteína p-tau217 misturada ao resto, juntam-se ao plasma anticorpos criados em laboratório." Eles foram feitos para agarrar os pedaços das "vigas" destruídas que encontrarem pela frente e não largarem mais. Quando grudam em um deles, faz-se a luz. E o equipamento registra todo o pisca-pisca, dosando a substância ali.

O melhor do novo exame não é apenas o fato de ser menos invasivo, exigindo uma picadinha no braço no lugar de uma punção lombar para retirar uma amostra do líquor e escarafunchar se existe a p-tau217. Ora, quem não preferiria tirar apenas um pouco de sangue?

"O ponto mais positivo, porém, é a chance de, um dia, levar esse exame a pessoas que não conseguem mais sair de casa por algum motivo, que vivem no meio de comunidades vulneráveis ou que precisariam viajar duas horas até um posto de saúde, como é o caso de populações ribeirinhas", opina Borelli. "Elas não precisariam se deslocar. Afinal, em qualquer lugar, é possível coletar sangue, algo bastante simples, refrigerar e mandar para o laboratório."

Saiba: mesmo que fosse possível examinar o líquor em tudo quanto é canto desse Brasil, ele é um material chiliquento. No transporte, qualquer sacolejo mais forte, por exemplo, é capaz de fazer a proteína p-tau217 aderir ao recipiente e, aí, o resultado poderia dar um falso negativo. Já o sangue não é assim, cheio de não-me-toques.

Hoje, o exame de sangue só está disponível na saúde privada. Mas o Moinhos de Vento está conduzindo estudos de custo-efetividade para apresentar à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde). "Se mais gente se submeter ao exame, o custo cairá, ficando talvez na faixa dos R$ 300", estima o médico.

Até o momento, não se sabe se o exame funcionaria para detectar o Alzheimer em quem ainda não apresenta nenhuma dificuldade de memória. Isso ainda está sendo investigado. "Hoje, só o pedimos quando existe uma queixa de esquecimento e isso é confirmado, de maneira muito objetiva, por testes de cognição", esclarece o doutor Borelli. "Ou seja, é uma indicação para quem tem um quadro de comprometimento cognitivo leve."

Fique claro: sozinho, o exame de sangue não fecha o diagnóstico de Alzheimer. O médico soma o seu resultado ao histórico de cada paciente, aos exames clínicos e de imagem. Estes fazem um mapeamento das placas no território cerebral. Talvez se pergunte: será que não bastaria enxergá-las? Não necessariamente. Uma pessoa pode apresentar placas de beta-amiloide e pouca inflamação nos neurônios. Sendo assim, talvez esteja evoluindo a passos tão lentos para o Alzheimer que ele nunca venha a se manifestar.

Isso sem contar que, muitas vezes, é preciso afastar outras explicações para os esquecimentos. Há algumas causas que até são reversíveis, como problemas renais e hepáticos e falta de vitamina B12.

"Se encontramos um comprometimento cognitivo leve, placas de beta-amiloide no cérebro e proteína p-tau217 no sangue, precisamos entrar de uma vez com todo o arsenal que conhecemos para proteger o cérebro, sem deixar nada de lado", afirma Wyllians Borelli.

Isso pode incluir, claro, os novíssimos remédios que tentam varrer as placas no cérebro. No entanto, controlar fatores de risco para frear o avanço do Alzheimer não é menos fundamental. O neurologista faz referência ao recente estudo LatAm-FIGERS, publicado há três meses, voltado à prevenção do declínio cognitivo na América Latina por meio de mudanças no estilo de vida.

Espantar o sedentarismo, quando há p-tau217 no sangue, não é opcional. E o mesmo vale para a adoção de uma dieta equilibrada. "Controlar a hipertensão, o colesterol e o diabetes também. Assim como perder o excesso de peso", acrescenta o doutor.

A pessoa deve minimizar eventuais perdas auditivas, se for o caso com o uso de aparelhos, e ir ao oftalmologista para cuidar ao máximo da visão. Porque, sim, ouvir mal e ter dificuldade para enxergar contribuem para o avanço do Alzheimer.

A depressão merece atenção e tratamento. Ela também acelera a progressão da doença. Também deve-se fazer de tudo para evitar quedas, porque batidas na cabeça não ajudam a cognição em nada, ainda mais em uma situação dessas.

Os brindes precisam ser sem álcool. Mas que eles existam, por favor! Aprendi com o neurologista: a ciência comprovou que a convivência com a família e com os amigos é um fator inestimável de proteção à cabeça.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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