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Panorama: Sem título

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Por Redatores da Empire Cidades 21 de outubro de 2026 às 23:15
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Imagem: Divulgação Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Uma pesquisa conduzida por cientistas ligados à Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e publicada na revista científica The BMJ, encontrou uma proporção menor de mortes atribuídas à doença de Alzheimer entre profissionais de transporte.

Após analisar quase 9 milhões de registros de óbitos, os pesquisadores descobriram que taxistas e motoristas de ambulância apresentavam as menores proporções de mortes atribuídas ao Alzheimer entre 443 profissões.

Uma das hipóteses é de que o exercício constante de memorizar ruas, planejar trajetos e encontrar alternativas durante o percurso estimule regiões do cérebro relacionadas à memória. A neurologista Mariana Lino explica que aplicativos de navegação podem fazer com que o motorista transfira parte do trabalho de orientação para o dispositivo.

"Existe uma diferença entre simplesmente seguir instruções e tentar memorizar referências, compreender o ambiente e planejar um caminho", explica.

Isso não significa que utilizar o GPS prejudique o cérebro ou aumente o risco de Alzheimer, ressalta a médica.O que os pesquisadores descobriram?

O levantamento considerou mortes registradas nos Estados Unidos entre 2020 e 2022. Após ajustes estatísticos, os motoristas de ambulância tiveram uma proporção de mortes atribuídas ao Alzheimer de 0,91%, enquanto entre os taxistas o índice foi de 1,03%. No conjunto da população estudada, o percentual ajustado ficou em 1,69%.

Entre outras profissões ligadas ao transporte, os resultados foram diferentes: motoristas de ônibus registraram 1,65%; capitães de embarcações, 2,12%; e pilotos de avião, 2,34%. Estes últimos ficaram na quarta posição entre as maiores proporções de mortes por Alzheimer das 443 ocupações analisadas.

Embora todas essas atividades estejam ligadas ao transporte, os pesquisadores consideraram uma diferença importante: taxistas e motoristas de ambulância precisam tomar decisões frequentes sobre os caminhos, enquanto os demais profissionais costumam seguir rotas predefinidas.

A principal hipótese está relacionada ao hipocampo, região cerebral envolvida na memória e na orientação espacial, além de ser uma das primeiras afetadas pelo Alzheimer.

"Quando pensamos em um caminho, recuperamos lembranças, reconhecemos pontos de referência e relacionamos a nossa posição com o lugar aonde queremos chegar. Construímos uma espécie de mapa mental da cidade", explica o psiquiatra e psicogeriatra Gustavo Omena.

A necessidade de mudar de percurso diante de congestionamentos, interdições ou destinos desconhecidos exige um esforço diferente daquele de repetir diariamente o mesmo trajeto.

"A hipótese dos autores é que existe uma diferença entre repetir uma rota conhecida e precisar construir caminhos variados em tempo real. Uma mudança de destino, uma rua interditada ou um trajeto pouco familiar exigem reorganizar o mapa mental", afirma Omena.

O psiquiatra Raphael Boechat, professor do curso de Medicina do Centro Universitário UNICEPLAC, acrescenta que a concentração constante também pode ter relação com os resultados.

"Essas profissões exigem concentração constante, especialmente no caso dos motoristas de ambulância, que precisam tomar decisões rápidas e lidar com situações inesperadas", afirma.

Segundo ele, situações como uma freada repentina ou um pedestre atravessando a rua obrigam o motorista a redirecionar rapidamente a atenção, mobilizando diferentes funções cerebrais.

A relação entre a profissão e a memória espacial já havia sido investigada em Londres. Em 2011, pesquisadoras da University College London acompanharam candidatos a taxistas durante a preparação para obter a licença profissional.

Para dirigir os tradicionais táxis pretos da cidade, é preciso memorizar milhares de ruas e pontos de interesse. O treinamento, conhecido como The Knowledge, pode levar de três a quatro anos.

Ao comparar exames realizados antes e depois da formação, as pesquisadoras identificaram aumento de substância cinzenta em uma região do hipocampo entre os candidatos aprovados. A mesma alteração não foi observada entre os que não conseguiram a licença nem no grupo de controle.

"Isso mostra a neuroplasticidade, que é a capacidade de o cérebro se modificar com a experiência e a aprendizagem. Mas uma mudança de volume em uma região cerebral não significa, por si só, proteção contra Alzheimer", ressalta Omena.

O especialista também pede cautela na interpretação da pesquisa americana. Como foram analisados registros de óbitos, o estudo identificou menor proporção de mortes pela doença, mas não comprovou que taxistas tenham menor chance de desenvolver Alzheimer.

Outros fatores, como condições de saúde, diferenças na expectativa de vida e até a possibilidade de pessoas com melhor orientação espacial permanecerem nessas profissões, podem influenciar os resultados.

Taxista desde a década de 1980, Francisco Moreno se acostumou a guardar na cabeça ruas, caminhos e atalhos. Durante boa parte da carreira, encontrar o melhor percurso dependia da própria memória. Até que os aplicativos de navegação passaram a fazer parte da rotina.

Moreno conta que, depois de um período usando o Waze com frequência, percebeu que ficou mais difícil percorrer alguns trajetos que antes fazia sem esforço. Para ele, a facilidade de seguir as instruções do aplicativo acabou reduzindo o hábito de pensar nos caminhos por conta própria.

Desde então, quando conhece o destino e não há risco de congestionamento, prefere dirigir sem a ajuda do GPS.

A memória, aliás, virou motivo de brincadeira na família. "Costumo ser consultado pelos parentes quando alguém precisa lembrar de algum acontecimento ou informação. Me perguntam até sobre coisas que os mais jovens já esqueceram", se orgulha.O taxista nunca havia pensado que a profissão pudesse ter alguma relação com essa facilidade para lembrar das coisas.

Para Boechat, a descoberta reforça a importância de manter o cérebro ativo ao longo da vida, mesmo fora do ambiente profissional.

"Assim como fazemos musculação para fortalecer o corpo, podemos desenvolver atividades que desafiem diferentes funções cognitivas. O ideal é incorporar esses estímulos à rotina desde cedo, mantendo o cérebro ativo ao longo da vida", afirma.

Mariana Lino acrescenta que mais importante do que simplesmente dirigir é proporcionar ao cérebro experiências variadas. Aprender caminhos diferentes, por exemplo, exige mais esforço cognitivo do que repetir sempre o mesmo percurso.

"Aprender um idioma, dançar, tocar um instrumento, jogar xadrez, explorar novos ambientes e adquirir novas habilidades são formas interessantes de estimular o cérebro", afirma.

A neurologista lembra, porém, que a prevenção da demência envolve outros cuidados, como praticar atividade física, controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol, evitar o tabagismo e cuidar da qualidade do sono.

Omena ressalta que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que exercitar especificamente a memória espacial reduza o risco de Alzheimer.

"Aprender a se orientar em um lugar envolve atenção, memória e experiência. A ciência já mostra que esse aprendizado pode modificar o cérebro; ainda precisamos entender se essas mudanças se traduzem em proteção contra a doença", conclui.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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