Panorama: Recife, capital mundial do uísque? A história por trás do mito
Mas não há dados factuais que comprovem isso
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Consulte formatos e valores disponíveisRecife, capital mundial do uísque? A história por trás do mito Até pode ser que Recife seja a cidade que mais consome uísque por cabeça da Terra. Mas não há dados factuais que comprovem isso Em 2011, o pernambucano da capital consumia, em média, 0,51 litros de uísque por ano (ChatGPT Image /Reprodução)
Publicado em 17 de outubro de 2026 às 08h26 .
Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Uísque Saiba mais Desde que comecei a trabalhar com uísque, ouço, vez ou outra, uma afirmação curiosa. De que Recife é a cidade com maior consumo per capita de uísque do mundo. Já, inclusive, disseminei tal informação. Porém, sempre a tomei como verdade, e nunca investiguei. Provavelmente porque almejava a veracidade daquilo, como uma criança que se nega a assumir que os presentes foram deixados pelos pais, embaixo daquele pinheiro decepado, e não por um velhinho de vermelho, num trenó.
Mas, não mais. Num arroubo de coragem, decidi pesquisar a origem e coerência da afirmação. E o que descobri é ainda mais interessante do que o mito, que agora vou desmontar.
Primeiro, não há qualquer dado factual que comprove que os queridos recifenses consumam mais uísque por cabeça do que em qualquer outra cidade do mundo. Veja bem, não estou dizendo que não, mas nem que sim. Até pode ser que Recife seja a cidade que mais consome uísque por cabeça da Terra. Mas não há dados factuais que comprovem isso. Nenhuma pesquisa, nada que efetivamente bata o martelo.
A afirmação, inclusive, nasceu de uma matéria da Whisky Magazine, de 2009, que postulava algo como “ Recife (...) is said to have the highest per capita consumption rate ” ou, em uma tradução meio porca, “ Diz-se que Recife tem o maior consumo per capita ”. Quer dizer, o boato nasceu de um boato.
Há, porém, um fundo factual curioso. Lá por 2011, a Nielsen fez uma pesquisa, e descobriu que o pernambucano da capital consumia, em média, 0,51 litros de uísque por ano. Quase cinco vezes mais do que a média brasileira , que é de apenas cento e quarenta mililitros por cabeça. O que demonstra que Recife era realmente um lugar fora da mediana brasileira. E olha que eu e o Caledonia estamos no Sudeste, então, tem gente por lá realmente se dedicando a puxar a média para cima.
Para mim, porém, a parte mais interessante não é essa. É a de entender a origem desse consumo. Uma das razões mais aceitas é a presença britânica. Desde o século XIX, especialmente depois da abertura dos portos. Ingleses estavam ligados a ferrovias, bondes, telégrafo, bancos, comércio e navegação, e formaram uma comunidade relevante na cidade. Fontes históricas pernambucanas listam inclusive o uísque entre os hábitos e produtos associados aos ingleses do Recife.
A razão maior, entretanto, foi a Segunda Guerra Mundial. Recife fora um ponto estratégico dos Estados Unidos, com forte presença militar. E o soldado americano andava de jipe, pagava em dólares e bebia uísque. A imagem foi lentamente se cristalizando, e passou a ser reproduzida pela elite social da época. Esta é, inclusive, uma das conclusões de Frederico Toscano, historiador que estudou a influência dos norte-americanos na mesa do Pernambucano.
Ocorre, entretanto, que o hábito parece meio deslocado. Beber uísque puro a trinta graus na praia não é lá uma atividade muito prazerosa. Eu sei, porque eu já fiz. O Recifense, então, adaptou o hábito. Passou a beber uísque em copo alto, com muito gelo, ou água de coco. Às vezes, até com gelo de água de coco, para cortar caminho. E há, também, uma questão econômica. Por muito tempo, uma dose de algum uísque podia custar relativamente menos em comparação a cerveja. Então, havia aí um fundo de custo-benefício etílico.
O resultado foi um círculo virtuoso, ou alcoólico, dependendo da perspectiva. Quanto mais Recife bebia uísque, mais as marcas investiam em Recife; quanto mais ativação, distribuição e oferta existiam, mais o consumo se consolidava. A Teacher’s chegou ao ponto de fazer o lançamento mundial de seu 12 anos “Golden Thistle” em Recife, por ser uma das marcas mais consumidas por lá.
O mais engraçado é que, no fim das contas, pouco importa se Recife foi, em algum momento, efetivamente a cidade que mais bebeu uísque por habitante no planeta. Porque, ainda que a coroa estatística jamais tenha existido, todo o resto existiu. Talvez seja por isso que a história tenha sobrevivido tanto tempo. Ela era boa demais para ser questionada e plausível demais para parecer mentira.
Os escoceses criaram o uísque. Os ingleses ajudaram a levá-lo para Pernambuco. Os americanos deram uma forcinha. E o recifense, diante de trinta graus à sombra, fez o que qualquer povo sensato faria com uma tradição importada: jogou gelo, água de coco e transformou aquilo em algo seu.
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