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Panorama: O narcisista

Antes delas, nada prestava, ninguém fazia coisa alguma, nenhuma conquista merecia reconhecimento.

Por Redatores da Empire Cidades 22 de outubro de 2026 às 03:02
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Panorama: O narcisista
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Há pessoas que se consideram tão importantes que parecem acreditar que o mundo só passou a existir depois da sua chegada. Antes delas, nada prestava, ninguém fazia coisa alguma, nenhuma conquista merecia reconhecimento. São os narcisistas, personagens movidos por uma necessidade permanente de admiração, reconhecimento e protagonismo. Quando esse comportamento invade a política, ganha uma dimensão ainda mais preocupante: o interesse coletivo corre o risco de ser substituído pelo culto à própria personalidade.

O político narcisista não se contenta em governar, representar ou exercer uma função pública. Precisa ser celebrado. Não basta realizar uma obra; é necessário convencer a população de que ninguém jamais seria capaz de fazê-la. Não basta administrar uma cidade, um estado ou um país; é preciso vender a imagem de que tudo começou com ele e de que nada sobreviverá sem sua presença.

Nesse universo particular, o passado é tratado como um deserto de realizações, e o futuro, como uma ameaça caso ele deixe o poder. Os antecessores são diminuídos, os colaboradores perdem importância e até as conquistas coletivas passam a ter um único dono. O pronome preferido é sempre o mesmo: eu. Eu fiz, eu consegui, eu transformei, eu construí. O nós, tão necessário à vida pública, desaparece diante de um ego que ocupa todos os espaços.

Outra característica desse comportamento é a dificuldade de conviver com críticas. O contraditório, indispensável à democracia, passa a ser interpretado como afronta pessoal. Quem discorda vira adversário; quem questiona é tratado como inimigo; quem deixa de aplaudir torna-se suspeito. A lealdade à pessoa acaba sendo mais valorizada do que a competência, a independência ou o compromisso com o interesse público.

O narcisista político também costuma confundir popularidade com infalibilidade. Acredita que o apoio recebido nas urnas lhe concede uma espécie de superioridade sobre os demais. Esquece que o voto é uma autorização temporária para exercer responsabilidades, não um certificado de grandeza pessoal nem uma licença para transformar instituições em extensões da própria vontade.

Há ainda uma contradição reveladora: embora se apresente como forte e indispensável, depende continuamente da aprovação alheia. Precisa de aplausos, fotografias, homenagens, seguidores e demonstrações públicas de fidelidade. Sua imagem torna-se uma preocupação permanente, às vezes maior do que os próprios resultados da administração.

O problema não está na autoestima, na ambição ou no desejo legítimo de reconhecimento. A política exige liderança, confiança e capacidade de comunicação. O perigo começa quando essas qualidades cedem lugar à vaidade desmedida, à intolerância e à incapacidade de reconhecer que nenhuma realização pública é obra de uma única pessoa.

Governar é construir com muitos, inclusive com aqueles que pensam diferente. É reconhecer o trabalho de servidores, técnicos, colaboradores, antecessores e da própria sociedade. É compreender que as instituições são maiores do que seus ocupantes e que o poder pertence ao povo, não a quem temporariamente o exerce.

A história está cheia de personagens que confundiram a importância do cargo com a própria importância. Alguns chegaram a acreditar que eram insubstituíveis. Mas o tempo, esse juiz silencioso e implacável, costuma ensinar uma lição que a vaidade insiste em ignorar: ninguém é maior do que a sociedade que representa.

O verdadeiro estadista trabalha para deixar um legado. O narcisista político trabalha para deixar um monumento a si mesmo.

E há uma diferença enorme entre servir à história e querer ser o dono dela.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

#Internacional#Política
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