Lula deve adiar aval a embaixador dos EUA e manter distância da Argentina — Fuga de Flávio
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Consulte formatos e valores disponíveisFuga de Flávio: Lula deve adiar aval a embaixador dos EUA e manter distância da Argentina Participação dos dois países na saída do senador derrotado nas eleições incomoda Planalto, mas prioridade é estabelecer negociação comercial com Washington Os presidentes Donald Trump e Lula durante encontro na Casa Branca, em maio de 2026 (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
Priorizar nos meus resultados Google O governo brasileiro ainda avalia se e como responder às suspeitas de que os governos da Argentina e dos Estados Unidos ajudaram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência, a fugir do Brasil para Miami. Duas coisas, porém, são tidas como certas. O governo deverá protelar uma decisão sobre a concessão do agrément (aval) do Brasil a Daniel Pérez, indicado por Donald Trump para ser embaixador dos EUA aqui, e também descarta voltar a ter embaixador em Buenos Aires até que o caso seja esclarecido.
Apesar disso, a interpretação predominante no Palácio do Planalto é que a fuga de Flávio é vergonhosa para a oposição, e não para o governo Lula, especialmente após a repercussão negativa da carta golpista divulgada pelo senador na quarta-feira. A ordem no governo brasileiro, até o momento, portanto, segue sendo a de pautar as relações com a Argentina e com os Estados Unidos pelo pragmatismo e evitar cair no que um integrante do governo chama de provocações de Milei ou do Departamento de Estado americano para iniciar novas crises diplomáticas.
Um exemplo dessa postura é o fato de que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já está em Atlanta, nos Estados Unidos, onde vai participar de um encontro de chanceleres de países do G20. Lá, ele vai encontrar pessoalmente o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, tido pelo governo brasileiro como o principal promotor, na gestão de Trump, do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras. Também deve ir ao encontro o chanceler argentino, Pablo Quirno. O Brasil não pediu, porém, reuniões bilaterais com nenhum dos dois.
Quanto ao governo americano, incomodou o governo Lula a notícia de que o funcionário de comunicação da Casa Branca Jason Miller teria auxiliado na logística da fuga de Flávio Bolsonaro a Miami. A suposta participação foi revelada nesta quinta-feira pelo jornal The New York Times. Ainda assim, um integrante do governo brasileiro afirma que, embora absurda, a participação não chega a surpreender, pois Miller é próximo da família Bolsonaro e tido como radical de extrema direita.
Apesar do incômodo, a ordem ainda é manter espaço para a negociação de pautas econômicas concretas, como as tratativas com o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) para um acordo comercial que coloque fim ao tarifaço imposto a exportações brasileiras. Como a EXAME noticiou, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) aguarda, até a próxima semana, um documento do USTR com diretrizes tarifárias e não tarifárias para a retomada das negociações comerciais.
Um membro do governo Lula a par das tratativas afirma reservadamente que qualquer avanço em relação a tarifaço, por exemplo, só é esperado após o resultado das eleições parlamentares norte-americanas, as chamadas midterms. O governo brasileiro aguarda o resultado para avaliar a nova correlação de forças no Congresso dos EUA antes de qualquer movimento diplomático mais amplo.
Até o momento, o prognóstico é que os Republicanos, partido de Trump, sofram uma derrota e percam a maioria na Câmara dos Representantes. Se isso se confirmar, pautas que o Brasil defende, como a agenda de combate à mudança climática ou a regulamentação de big techs, devem encontrar mais espaço no Legislativo dos EUA.
As declarações do presidente americano sobre as eleições brasileiras nos últimos dias são vistas como uma "coreografia". Por um lado, Trump acena para a ala mais ideológica e próxima do bolsonarismo, ao chamar as eleições brasileiras de "terríveis" e "manipuladas". Por outro lado, nesta quinta-feira, o líder americano disse que não quer intervir em assuntos do Brasil e que quer falar com Lula. As declarações são interpretadas como gestos para agradar à sua base eleitoral sem romper os canais diplomáticos.
À EXAME, dois integrantes do governo afirmam que não há reuniões ou ligações telefônicas agendadas entre Lula e Trump, tampouco há pedidos de contato de nenhuma das partes. Há, porém, a disposição, por parte do lado brasileiro, de aceitar um eventual pedido de conversas.
O mais provável é que os dois presidentes se encontrem na Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do G20 nos Estados Unidos, que será realizada nos dias 14 e 15 de dezembro e à qual Lula confirmou presença. Ainda não há, porém, negociações para uma reunião bilateral entre Lula e Trump.
A relação com a Argentina já passa por uma crise diplomática desde julho, quando o governo Lula chamou de volta para consultas o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, em resposta às declarações do presidente Javier Milei na convenção do Partido Liberal em São Paulo. Na ocasião, o líder argentino proferiu ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de "ladrão" e "presidiário", ao lado de Flávio Bolsonaro.
A decisão do Itamaraty foi um sinal de forte protesto diplomático: o Brasil convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos. Em agosto, a relação diplomática entre os dois países teve seu nível rebaixado, conduzida por meio dos encarregados de negócios de cada país. Do lado argentino, a representação tem sido feita por María Emilia Cortés.
O retorno dos embaixadores entre Brasília e Buenos Aires está completamente descartado no momento, segundo integrantes do governo Lula.
Ainda assim, não está descartado que o Itamaraty chame a encarregada de negócios da Embaixada da Argentina para pedir explicações sobre a participação do governo Milei no plano de fuga de Flávio Bolsonaro. Na terça-feira, o portal argentino Infobae noticiou que o senador estava em solo argentino para embarcar em um jato executivo em Puerto Iguazú, na fronteira com Foz do Iguaçu (PR) rumo a Miami. Na ocasião, o governo argentino negou que Flávio houvesse ingressado no país. O governo Milei só confirmou a entrada durante a madrugada, dizendo que Flávio entrou pela ponte Tancredo Neves, na fronteira, e já havia deixado o país.
A avaliação é de que Milei age de maneira ideológica, e não alinhada aos interesses da própria Argentina, que tem no Brasil seu principal parceiro comercial. Uma resposta mais contundente, porém, mudaria o entendimento atual. O Itamaraty tem preferido ignorar as declarações mais recentes do líder argentino. Após o último debate do segundo turno das eleições brasileiras, na semana passada, Milei fez uma postagem na qual chamava Lula de "ladrão e mentiroso", acusando a equipe de campanha do petista de criar notícias falsas sobre dados de consumo de carne na Argentina.
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