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Consulte formatos e valores disponíveisAs videiras de Xavier Vignon Imagem: Divulgação Esta é a newsletter Vamos de Vinho . Inscreva-se gratuitamente para receber dicas e informações sobre o mundo do vinho no seu email. Toda sexta
Existem certas experiências de que sentimos saudades. Nos velhos tempos, por exemplo, quando a banda R.E.M. anunciava o lançamento de um novo disco, meus olhos brilhavam. Sabia que a partir daquela informação estava para chegar aos meus ouvidos pelo menos uma canção que me emocionaria. Poderiam ser duas, três talvez. O fato é que a expectativa sempre se confirmava. Após a primeira audição do álbum, algo belo, profundo, provavelmente eterno, ganhava um espaço em minha biblioteca de prazeres. Com o tempo, essa sensação foi desaparecendo. Minhas bandas preferidas se dissolveram, músicos pelos quais eu tinha enorme apreço se aposentaram ou morreram. Sobrou pouco para dar um novo brilho aos meus olhos...
Não posso dizer o mesmo em relação aos vinhos. Quando o enólogo francês Xavier Vignon abriu uma garrafa do Arcane XV Le Diable, 100% Mourvèdre, produzido na região do Rhône, tive um susto, quase uma síncope. O brilho não estava nos olhos nem nos ouvidos, mas no paladar. Que vinho era aquele que corrompia as expectativas? Esperava por algo comum, quente, com toques terrosos, talvez exagerado em aromas de frutas negras e vermelhas maduras, robusto demais e orgulhoso de seu poderoso teor alcoólico.
O álcool estava lá, como se esperava, com imensos 15%, mas existia um inexplicável frescor, uma suavidade incomum para um vinho 100% Mourvèdre. Um vinho intenso, aromático, aliado a um equilíbrio perfeito entre acidez e estrutura. Uma obra do acaso, da teimosia, ou do incansável estudo empírico de Vignon.
"Veio inesperadamente. Surgiu aparentemente de algo que deu errado", disse Vignon. "Uma safra excepcional (2015), na qual a uva Mourvèdre não amadureceu como as outras variedades; pior ainda: mesmo no ponto de maturação, era impossível criar um corte que carregasse a minha assinatura. Nós tentamos usar em vários cortes, mas nunca ficava bom. No entanto, percebi que essa Mourvèdre revelava um potencial imenso quando vinificada isoladamente, algo inédito na região."
O Le Diable passou por três semanas de maceração e amadureceu em tanques de carvalho e de concreto, mas o mais importante foi sua inspiração. O experimento levou Vignon a criar a coleção Arcane:
"Ao degustar o vinho com um produtor local já nonagenário, que também nunca tinha visto nada igual, ele comentou que a vida é como um jogo de cartas: 'as cartas continuam as mesmas, mas o jogo em si está em constante evolução'. Essa reflexão me fez pensar no Tarô de Marselha, famoso na região; ao examinar o baralho, deparei-me com a carta do Diabo. Imediatamente fiz a associação com a Mourvèdre, variedade conhecida pela dificuldade de manejo e apelidada de "uva do Diabo". Estava decidido: a escolha estava feita! Este vinho é tão singular que não consegui produzi-lo novamente até 2025."
E neste jogo de cartas, vários vinhos ganharam seus arcanos. São pelo menos 19 exemplos, cada um representando uma safra ou um corte criado pela mente fervilhante de Vignon. Entre os destaques, além do já citado Le Diable, está o Châteauneuf-du-Pape La Papesse, 100% Grenache e, como o próprio nome diz, representado pela poderosa Papisa, um dos arcanos maiores do Tarô.
O La Papesse não causa surpresa, mas satisfação. Elaborado a partir de uma seleção específica de uvas cultivadas em vinhas muito antigas, o vinho tem potência, mas sem deixar de lado sua delicadeza. Taninos corretos e sedosos acompanham sua densa coloração púrpura. Refinado, aromático, entregue aos aromas de cereja e especiarias, tem ainda um bom potencial de guarda, caso você tenha paciência para isso.
"Felizmente, tive a oportunidade de trabalhar como consultor logo que me estabeleci na região, há 30 anos. Colaborei com mais de 500 viticultores, o que hoje me permite fazer escolhas que privilegiam a tradição e o respeito pela natureza, trabalhando, de fato, com total consideração pelo meio ambiente. Vale ressaltar que trabalho tanto com vinhas centenárias (com idades entre 80 e 130 anos) quanto com as chamadas "vinhas de coleção", utilizadas na composição dos cortes desses vinhos. Essa é uma característica singular da região, que oferece a possibilidade de selecionar uvas de centenas de parcelas diferentes, proporcionando, assim, um acesso mais amplo a uma gama diversificada de vinhos dentro de uma mesma denominação."
A audácia de Vignon não busca méritos artísticos. Em alguns casos, pelo menos para alguns críticos, vinhos são comparados a obras de arte. Vignon não prioriza a arte, mas a perfeição. E a arte, como se imagina, está bem distante do perfeito. Essa busca incansável pela perfeição levou o enólogo francês a criar o Vinarium, uma técnica revolucionária para o envelhecimento de seus vinhos.
"A ideia do Vinarium surgiu da minha experiência como especialista em sais minerais, adquirida ao integrar um comitê com grandes casas de Champagne e Bordeaux", disse Vignon. "Inicialmente, realizei testes no mar, mas as normas alfandegárias me obrigaram a retirar os recipientes da água. Foi essa restrição que inspirou a ideia de submergi-los em vinho. Desenvolvi protótipos e, após vários anos de experimentação, criamos o sistema Vinarium: cinco ou seis barris de 200 litros submersos em uma cuba de madeira especializada, em formato cônico e com capacidade para 7.000 litros. Descobri que o vinho era muito mais eficaz do que a água do mar, pois os recipientes submersos ficam expostos a um ambiente com ausência total de oxigênio. Isso possibilita a produção de vinho sem depender de aditivos químicos, como antioxidantes."
Boa parte dos vinhos da série "Os Pioneiros", por exemplo, passa pelo envelhecimento com a técnica Vinarium. Entre eles estão o Châteauneuf-du-Pape Intra Red, o Côtes du Rhône Extra White e o Châteauneuf-du-Pape branco chamado Intra White, este último com 40% de Clairette, 25% de Grenache Blanc, 15% de Picpoul, 10% de Roussanne, 5% Picardan e 5% Bourboulenc.
"Comecei em 1996 produzindo vinhos para amigos, guiado pela convicção de que grandes vinhos são aqueles que despertam o desejo de tomar mais uma taça. Algumas dessas garrafas acabaram chegando às mãos de jornalistas, e o resto é história. Mantenho-me fiel a essa filosofia até hoje, e atualmente exportamos para 35 países. Aqui, tenho o privilégio de elaborar vinhos que refletem a identidade da região e destacam a fruta. São vinhos acessíveis e elegantes, mas capazes de envelhecer por 20 ou 30 anos sem perder o seu caráter. Para minha grande satisfação, fui muito bem recebido no Brasil e constatei que meus vinhos se adaptam bem ao país, preservando, ao mesmo tempo, as suas qualidades essenciais."
Não posso afirmar que os vinhos de Xavier Vignon foram bem recebidos no Brasil. Talvez ele esteja certo, talvez não. O que posso garantir é que sua obstinada busca pela perfeição trouxe novamente brilho aos meus olhos.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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