Voltar para a página inicial

Fique por dentro: Quem está lucrando com a Internet Morta?

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Exame 16 de outubro de 2026 às 19:13
Via Exame
Compartilhar:WhatsAppX / TwitterFacebook
Espaço Publicitário · topo

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região

Consulte formatos e valores disponíveis

Publicado em 16 de outubro de 2026 às 16h08 .

Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Inteligência artificial Saiba mais Talvez você não reconheça os nomes Brigitte Macaron, Bill Smith ou Jean Philanthrope. Mas, se mora na Terra e acompanha redes sociais , deve ter, em algum momento, encontrado esses personagens na sua timeline. E, apesar da aparência improvável, hesitado por alguns segundos: essa pessoa existe?

São personagens criados com Inteligência Artificial . Alguns perfis desse universo acumulam milhões de visualizações e abrem diferentes caminhos de receita para seus criadores.

A Higgsfield oferece ferramentas para produzir personagens desse tipo. Na plataforma, o usuário pode escolher entre três níveis: Average, Bold e Extreme. Ajusta rosto, cabelo, proporções e acessórios. Depois, transfere os movimentos de uma gravação para o personagem. O que antes exigia recursos sofisticados de produção agora pode começar num menu.

São figuras com cabelos geométricos, pescoços alongados e uma aparência curiosa: a imagem parece uma filmagem, mas a pessoa parece impossível.

A estranheza é o hype e parte da proposta do produto.

Esse é o detalhe que, para mim, merece atenção. Costumamos discutir vídeos de IA a partir de sua capacidade de enganar. Aqui, o artificial também pode ser o motivo para assistir. Você percebe que há algo estranho, volta alguns segundos, manda para alguém. Até a dúvida pode render mais uma reprodução.

Popularizada em fóruns em 2021, a chamada Teoria da Internet Morta sustenta que boa parte da atividade online teria sido substituída por bots e conteúdo automatizado. Sua versão original inclui alegações conspiratórias sobre controle e manipulação da rede; não se trata de uma descrição comprovada da internet.

Não acredito que esses vídeos, sozinhos, autorizem tal conclusão. Um personagem inventado pode divertir pessoas reais, perfeitamente conscientes da invenção. Sempre consumimos ficção.

O que me interessa é entender o negócio que surge quando fabricar personagens, testar sua aceitação e substituir os que fracassam se torna tão acessível.

A própria Higgsfield mantém um programa que remunera criadores conforme visualizações e desempenho. A empresa oferece as ferramentas de produção e incentiva a circulação do que é produzido com elas. Isso não significa que todo vídeo feito na plataforma seja patrocinado. Mostra, porém, que parte desse movimento tem financiamento e objetivos comerciais explícitos.

Há uma lógica econômica por trás da aparente bagunça.

Uma pesquisa publicada em AI & Society , baseada em trabalho de campo na China entre 2023 e 2025, descreve produtores de conteúdo com IA que administram várias contas, experimentam formatos e abandonam rapidamente os que não funcionam.

Segundo o centro responsável pelo estudo, um criador podia produzir mais de 50 vídeos por semana. Alguns entrevistados relataram rendimentos mensais entre 2.700 e 7.000 dólares australianos. São relatos daquele grupo, não uma promessa de renda para quem abrir uma conta.

Minha leitura é que, nesse modelo, a relação com a audiência muda. Um criador pode passar anos desenvolvendo uma maneira de observar o mundo que faça as pessoas voltarem. Uma operação de personagens pode testar dezenas de aparências e movimentos até encontrar algo que faça as pessoas pararem.

As duas coisas podem gerar visualizações. O trabalho, o investimento e o vínculo construído são diferentes.

Quando um personagem perde força, há outro no menu. O negócio pode continuar mesmo que ninguém se lembre do anterior.

Paulo Aguiar, criativo e educador conhecido nas redes como @paulo.ia, acrescentou uma questão importante a essa discussão. Em um post crítico no LinkedIn, chamou atenção para vídeos nos quais a IA substitui a aparência de alguém, mas, atenção: preserva uma performance que outra pessoa concebeu, executou e gravou.

Ou seja: o vídeo e o personagem são novos, movimentos, cenários e feitos, não.

Sua observação ajuda a enxergar o trabalho humano que pode permanecer por trás de um rosto artificial. A troca de aparência não esclarece, por si só, a origem da gravação nem as condições de seu uso.

Paulo também aponta um caminho criativo: “Dá pra explorar essa técnica de forma criativa usando seus próprios vídeos ou material autorizado”. Sua análise distingue esse uso da apropriação do trabalho alheio e questiona a origem das receitas apresentadas como prova de sucesso.

O caso de Jean Philanthrope, o loiro do pescoço enorme e cabelo de Poodle, ajuda a entender essa diferença. Em reportagem publicada em 1º de outubro, a revista francesa L’ADN informou que o criador do token associado ao personagem havia recebido mais de US$ 100 mil em comissões sobre transações. Segundo a publicação, aquele valor vinha da movimentação da criptomoeda, e não de pagamentos por visualizações.

Receita de conteúdo, remuneração por campanha, comissões de uma criptomoeda e venda de cursos são negócios diferentes. Colocar tudo sob a expressão “ganhar dinheiro com IA” esconde justamente o que alguém precisaria entender antes de investir.

Para quem trabalha com comunicação, seria um erro olhar para tudo isso com desprezo. Existe humor, experimentação e possibilidade criativa. Ferramentas desse tipo também ampliam o que equipes pequenas conseguem produzir. Em relato publicado pela OpenAI, o CEO da Higgsfield, Alex Mashrabov, descreve essa possibilidade de realizar projetos mais ambiciosos com equipes menores.

A questão aparece quando o sucesso desses vídeos vira referência automática para qualquer negócio.

Uma marca vê milhões de reproduções e pede algo parecido. Antes de aprovar, precisa conhecer a origem do material, verificar as autorizações necessárias e esclarecer o que pretende obter: divertir, apresentar um produto, ensinar seu uso, construir reconhecimento? E por que aquele personagem ajudaria nisso?

Quem administra uma operação de conteúdo descartável pode lucrar com uma curiosidade que dura segundos. Uma empresa que precisa ser reconhecida, escolhida e procurada novamente tem outras exigências.

O público pode lembrar perfeitamente do sujeito de pescoço impossível e não fazer ideia de quem pagou pelo vídeo. Nesse caso, a campanha financiou uma lembrança da qual a marca ficou de fora.

Alcance exige interpretação. Assistir não informa, sozinho, o que a pessoa entendeu, em quem passou a confiar ou o que consideraria comprar.

Enquanto discutimos a Internet Morta, alguém está fazendo a conta de quanto vale prender você nela.

Gal Barradas, Diretora Executiva da Copa do Mundo Feminina Fifa 2027, representará o tema em um encontro que reunirá entidades, marcas, atletas e agências

Com meta de vender 98 mil veículos, montadora chinesa aposta em cultura pop, comunidades digitais e novos canais de venda para ampliar o desejo pela marca

Filme usa humor para retratar mudanças na relação entre professores e alunos; empresa lança curso gratuito de IA para educadores brasileiros

Com a linha Meu Menu, marca da MBRF combina novos produtos e expansão no varejo para ampliar participação e aumentar a frequência de consumo.

Espaço Publicitário · meio texto

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região

Consulte formatos e valores disponíveis

Matérias Relacionadas