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Fique por dentro: James Gray e Walter Salles debatem IA, risco e a alma do cinema na Mostra de São Paulo

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Exame 19 de outubro de 2026 às 19:51
Via Exame
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James Gray e Walter Salles debatem IA, risco e a alma do cinema na Mostra de São Paulo Diretores discutiram a diferença entre o pessoal e o autobiográfico, a armadilha do melodrama e o motivo pelo qual a automação jamais substituirá o olhar humano Debates da 50ª Mostra de Cinema de São Paulo: Walter Salles e James Gray debatem sobre IA, autoralidade e persistência da arte

Publicado em 19 de outubro de 2026 às 16h32 .

Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Mostra Internacional de Cinema de São Paulo Saiba mais RESUMO + O cineasta James Gray afirmou na quinta-feira, 15, que a inteligência artificial no cinema pode auxiliar tarefas técnicas, mas nunca substituirá a criação humana. Homenageado pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Gray debateu o tema com Walter Salles após a exibição de Tigre de Papel. O diretor também defendeu obras pessoais, risco artístico e filmagem em 35mm.

"A inteligência artificial nunca vai alcançar a paisagem infinita da alma humana." A frase é de James Gray , diretor de Ad Astra e do mais recente Tigre de Papel , aplaudido de pé na última quinta-feira, 15, após uma masterclass da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ela reflete um momento importante para o cinema global: a convivência com a tecnologia nos projetos audiovisuais, suas limitações e alcances.

Homenageado nesta 50ª edição do festival, Gray deu o tom de uma conversa franca e apaixonada sobre a sétima arte com o diretor brasileiro Walter Salles (Ainda Estou Aqui) , logo após a exibição do longa Tigre de Papel — filme de abertura da Mostra e disponível na programação do festival. Os dois são amigos de longa data, e acompanharam as transformações do cinema ao longo de mais de três décadas.

"No final das contas, tudo o que o artista deve fazer é a extensão da nossa compaixão e da nossa simpatia. Nada mais importa", disse Gray durante a conversa.

No palco, dentro do Solar Fábio Prado, na Faria Lima, os cineastas dialogaram sobre a resistência da criação autoral, a busca pelo risco e os detalhes das novas produções cinematográficas. Abaixo, separamos os melhores momentos da conversa . Confira:

Hal 9000: o computador superinteligente do filme '2001: Uma Odisséia no Espaço', citado por James Gray no debate

Provocado por Salles sobre os rumos do cinema em tempos de automação e inteligência artificial , James Gray foi categórico ao afastar os temores de que as novas tecnologias possam substituir a criação humana.

"Se você é um artista, não se preocupe com a inteligência artificial. A IA nunca vai alcançar a paisagem infinita da alma humana. Ela nunca vai chegar lá, nunca vai conseguir fazer isso", cravou o diretor norte-americano.

A reflexão do cineasta ganha um peso ainda maior quando colocada em perspectiva com as transformações pelas quais o mercado do entretenimento passa. A inteligência artificial já está presente na pré-produção e no roteiro, em que algoritmos otimizam decupagens de cenas, organizam cronogramas e geram storyboards. Nos efeitos visuais, a tecnologia já tem acelerado a modelagem 3D, a criação de cenários e a pré-visualização de sequências antes proibitivas para orçamentos modestos. Na atuação e na sonorização, o uso avança para retocar maquiagem digital, rejuvenescer atores e ajustar o tom de vozes e dublagens para diferentes mercados.

Longas indicados ao Oscar demonstram essa presença no cotidiano dos estúdios. Em Emilia Pérez , a ferramenta Respeecher combinou a voz da atriz Karla Sofía Gascón com a da cantora Camille nas cenas musicais. Em O Brutalista a mesma tecnologia refinou pontualmente a pronúncia em húngaro dos atores Adrien Brody e Felicity Jones. Recursos de aprendizado de máquina e maquiagem digital também rejuvenesceram Robert De Niro em O Irlandês e Harrison Ford em Indiana Jones e o Chamado do Destino , além de permitirem a substituição de rostos de dublês em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis ou a recriação digital de atores falecidos, como Ian Holm em Alien: Romulus .

Para Gray, a tecnologia pode até ajudar em partes mais técnicas, mas falta uma alma que ela nunca reproduzirá. "É como com aquelas "novas" músicas dos Beatles feitas com IA. Um cara juntou as vozes do Paul McCartney, John Lennon e George Harrison cantando, reproduziu o estilo de bateria do Ringo Starr, o som da guitarra, tudo. E ele fez novas músicas dos Beatles, que soam exatamente como os Beatles, exceto pelo fato de serem péssimas", comentou ele.

"Há algo inefável que a máquina não consegue capturar. E mesmo se conseguisse, você saberia que foi a IA que fez. É como ver um robô que se parece exatamente com uma pessoa nadando no oceano em uma Olimpíada: quem se importa?", acrescentou o cineasta. "No fim, e podem ter se passado tantos anos, eu ainda acredito que o debate sobre a IA volta muito no que propõe o filme 2001: Uma Odisséia no Espaço: o ser humano sempre vencerá aquele computador".

Amigos de longa data, a sintonia entre os dois ficou evidente desde os primeiros minutos. "Isso é trapaça porque o Walter e eu nos conhecemos há muitos anos e ele é um diretor muito melhor do que eu", brincou Gray no início do debate. A amizade entre os dois começou nos anos 1990. Walter conheceu o trabalho do diretor norte-americano após uma sessão de Little Odessa. De lá para cá, os cineastas construíram uma longeva relação.

"Fiquei completamente deslumbrado por ele depois de assistir ao filme — e continuo deslumbrado. A direção nos permite mergulhar em uma família de imigrantes que, de alguma forma, representa algo maior: a própria identidade americana em movimento. Nunca me esqueci desse filme e continuei assistindo a todos os trabalhos dele", destacou o brasileiro.

Ambos os cineastas já tiveram seus filmes produzidos por Rodrigo Teixeira, presente também na sessão. O novo Tigre de Papel , estrelado por Scarlett Johansson , Adam Driver e Miles Teller, leva produção dele, via RT Filmes. Ainda Estou Aqui , vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, também.

O ponto central do debate foi a busca pelo caráter pessoal na construção de uma obra e como essa essência tem sido ameaçada pela indústria audiovisual contemporânea. Para Gray, a diferença entre um filme meramente autobiográfico e uma obra verdadeiramente pessoal está na capacidade do diretor de expor impressões mais íntimas e vulneráveis .

"Tento roubar da minha vida o máximo que posso. Se você quer fazer filmes, a melhor maneira é ser pessoal , porque só existe um de você neste mundo. Não deixe ninguém dizer que sua vida não é interessante", disse ele a Salles. "E que fique claro, autobiográfico e pessoal não são a mesma coisa. Autobiográficos são os fatos. Pessoal, significa que você está se conectando da maneira emocional mais direta com o material? Está revelando suas impressões mais íntimas, não importa qual seja o assunto?"

Gray aproveitou para fazer um alerta aos cineastas sobre a pressão do mercado corporativo. "Existe uma pressão enorme das corporações para remover esse aspecto pessoal, porque ele envolve risco — e o mundo dos negócios odeia o risco. O seu trabalho como cineasta é trazer o máximo de risco e de pessoalidade que você puder."

A análise da linguagem do novo filme também pautou a troca entre os dois cineastas. Walter Salles destacou a capacidade de Gray em construir uma tragédia clássica sem cair nas armadilhas do melodrama fácil em Tigre de Papel . "Uma coisa que me impressionou é que o drama está lá desde o primeiro abraço entre os dois irmãos, mas você nunca descamba para o melodrama ", pontuou Salles.

Respondendo ao elogio, Gray explicou como enxerga essa fronteira. "Para mim, melodrama significa que você está usando as emoções dos personagens para um efeito amplificado junto ao público, que já está quase pré-programado para aquele efeito. Enquanto numa tragédia, os eventos que são pré-determinados se desenrolam como um destino, sem serem destacados apenas para um efeito barato. Se você permanece honesto com a realidade do momento, nada mais importa. Tudo o que devo aos atores é sinceridade."

A conversa seguiu pelos detalhes técnicos da produção. Salles elogiou o uso do formato scope — uma proporção de tela larga usada no cinema para criar uma imagem mais horizontal e imersiva —, a textura orgânica da fotografia e o domínio de Gray em trabalhar a tensão por meio do espaço fora de quadro. "Há algo sobre a cena de abertura que antecipa um filme em que muito acontecerá no que você não vê, nas sombras. Uma das belezas é o quanto você sente sem compreender visualmente", analisou o diretor brasileiro.

Gray concordou. "Onde colocar a câmera? Qual é essa decisão? Essa decisão é a sua moldura. O que está dentro do enquadramento? O que está fora dele? Essa é realmente toda a batalha. Eu amo no cinema o espaço off-screen , o que está fora de quadro. Usamos isso com som, mas também com implicação visual. É a tentativa de pegar uma história pequena e torná-la grandiosa."

Ele revelou ainda que optou por rodar o filme em película de 35mm para resgatar uma sensação de tempo irrecuperável. "A ideia do grão, das lentes antigas, das fotografias subexpostas foi a minha maneira de tentar dizer: este foi um momento no tempo para aquela família que eles nunca mais vão recuperar, e essa felicidade é irrecuperável."

James Gray afirmou que a inteligência artificial pode ajudar em tarefas técnicas, mas nunca alcançará a complexidade da criação humana. Para o diretor, falta à tecnologia uma dimensão subjetiva que as máquinas não conseguem reproduzir.

A inteligência artificial já auxilia roteiros, cronogramas, storyboards, modelagem 3D, cenários e pré-visualizações. A tecnologia também pode retocar maquiagem, rejuvenescer atores, ajustar vozes e substituir digitalmente rostos de dublês.

Em Emilia Pérez, a ferramenta Respeecher combinou as vozes de Karla Sofía Gascón e Camille, enquanto O Brutalista usou a tecnologia para refinar a pronúncia em húngaro de Adrien Brody e Felicity Jones. Recursos digitais também rejuvenesceram Robert De Niro em O Irlandês e Harrison Ford em Indiana Jones e o Chamado do Destino.

James Gray afirma que cada cineasta deve aproveitar experiências e emoções próprias, pois essa perspectiva é única. Segundo o diretor, obras pessoais expõem impressões íntimas e enfrentam a pressão das corporações, que procuram reduzir riscos.

Para James Gray, o melodrama amplifica as emoções dos personagens para provocar um efeito previsível no público. Na tragédia, os acontecimentos se desenrolam como um destino, sem destaque artificial para produzir um efeito fácil.

James Gray escolheu a película de 35mm, lentes antigas e fotografias subexpostas para transmitir a sensação de um tempo que a família retratada nunca poderá recuperar. Segundo o diretor, o grão da imagem reforça a ideia de uma felicidade irrecuperável.

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