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Por Redatores da Empire Cidades 6 de novembro de 2026 às 17:00
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6.nov.2026 às 10h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Diogo Bercito Jornalista, foi correspondente da Folha em Jerusalém e Madri; mestre em estudos árabes pela Universidade Autônoma de Madri e pela Universidade Georgetown (EUA), onde cursa doutorado em história

Preço R$ 81 (176 págs.) Autoria Ibrahim Al-Koni Editora Tabla Tradução Safa Jubran O jovem Ukhayyad tem um camelo. Não é qualquer camelo, porém. É um mahri, um bicho de linhagem nobre. Ainda por cima, malhado! É razão suficiente para ele se gabar no oásis onde vive.

Recém-publicado no Brasil, o romance "O Tibar" narra a extraordinária relação entre um homem e um camelo. É a obra-prima do escritor líbio Ibrahim al-Koni.

Al-Koni nasceu em 1948 no Saara. Cresceu entre os tuaregues —povo tradicionalmente nômade— falando a língua deles. Foi só por volta dos 12 anos que aprendeu árabe.

Sua obra é excepcional por, entre outras coisas, sorver de um substrato cultural norte-africano e saariano que muitas vezes desaparece sob o rótulo abrangente de " literatura árabe". Seus personagens parecem habitar um mundo próprio, pautado pelo ritmo dos desertos e dos oásis.

Do autor, a editora Tabla já havia publicado o romance "O Tumor", traduzido por Mamede Jarouche, uma parábola sobre a autocracia. Agora, lança mais dois de uma vez, "A Pedra que Sangra" e "O Tibar".

Desse catálogo, é "O Tibar" que ocupa lugar central na obra de al-Koni. O romance de 1990 tem uma qualidade peculiar, quase incômoda. É desses livros que raramente aparecem —como o mahri de Ukhayyad.

Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... A tradução de "O Tibar" é da professora Safa Jubran, de longa trajetória nesse mercado. Não foi um trabalho fácil, a começar pelo título.

O original usa a palavra árabe "tibr", que se refere a ouro em estado bruto. Jubran optou por mantê-lo como "O Tibar" porque a palavra existe em português, derivada do árabe, embora esteja em desuso. Em uma excelente aposta, a tradutora garimpou o dicionário e recuperou o termo.

Outro desafio foi verter todo o espectro de palavras que se referem ao deserto. Al-Koni usa um vocabulário rico para distinguir, por exemplo, um deserto vermelho de um deserto arenoso, sem vida, nuances que nem sempre encontram correspondência direta em português. O mesmo vale para os termos que descrevem os camelos em todas as suas variedades.

O romance acompanha a amizade entre Ukhayyad e seu mahri. Al-Koni consegue extrair toda uma filosofia desse laço, explorando temas como família, religião, sexo, amor e poder.

De tanto se gabar do seu bicho, o jovem deixa um flanco vulnerável à ambição alheia. Uma tribo o força a emprestar o camelo malhado para inseminar suas camelas, na esperança de obter uma prole parecida.

Do amor na areia, o bicho pega sarna. A passagem é divertida. Do jeito que está descrito, é fácil de visualizar. O camelo baixa as pálpebras, envergonhado, e confessa a Ukhayyad, em um lamento: "Aw... u... a... a...".

Desesperado, o jovem busca feiticeiros e deuses pré-islâmicos no deserto mais profundo, fazendo promessas que não pode cumprir. O livro se desenrola a partir disso, com Ukhayyad cada vez mais enredado.

Há algo de encantador —no sentido perigoso— nesse mundo que al-Koni revela ao leitor. São árvores lendárias, trufas raras, deuses representados em forma de triângulos e djinns que gargalham na areia. O tom do livro progride: é leve no início e termina em um drama sombrio.

O leitor só às vezes vislumbra o contexto de fundo, adivinhando em que época a história se passa. Há menções breves aos avanços italianos nos desertos do norte, o que sugere que se trata do início do século 20. A Itália invadiu a Líbia em 1911, às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Talvez nem tudo fique claro em uma primeira leitura, dada a densidade de imagens e referências. Não é um problema. O leitor interessado pode consultar as notas de rodapé e, quem sabe, fazer sua própria pesquisa.

Um dos temas que merecem atenção é o "barzakh". O termo denota uma barreira ou um espaço intermediário entre duas coisas: entre dois mares, por exemplo —ou, na tradição islâmica, entre a morte e a ressurreição.

"O Tibar" é um romance de espaços intermediários. Al-Koni borra as fronteiras entre o humano e o animal, o material e o espiritual, o visível e o invisível. É nesse território incerto que habitam Ukhayyad e seu mahri.

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