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Entenda: Sem título

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Por Redatores da Empire Cidades 26 de outubro de 2026 às 21:10
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Em uma cirurgia de olhos, a luz reage com os corantes, o que pode ser prejudicial à retina Imagem: Getty Images Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Leia a seguinte palavra: "retina". Seus olhos fotografam letra por letra — o "r", o "e", o "t" e assim por diante —, criando uma espécie de negativo. Em fração de segundo, a imagem completa é revelada em áreas cerebrais distintas, que depois juntam tudo. E, se você conhece esse termo, retina, já lhe atribuiu um significado bem antes de chegar ao ponto final da primeira frase.

Talvez seu cérebro resgate da memória a comparação da retina com um tapete de células nervosas, forrando o fundo do globo ocular e conectando-o diretamente ao nervo óptico. Eu mesma apelei para essa figura de linguagem quando escrevi sobre o assunto em outras ocasiões. Mas, desta vez, entendendo melhor a complexidade das cirurgias de retina e por que um novo corante desenvolvido na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) promete torná-las bem mais seguras, resolvi trocar de analogia: por que não dizer que a retina lembra uma massa de mil-folhas? Bem, não propriamente mil: são dez camadas tão, mas tão delicadas e transparentes que, reunidas, têm em média 0,2 milímetro de espessura apenas. Consegue imaginar essa finura?

"Tente pensar na dificuldade que é tirar uma única dessas camadas evitando cutucar, sem querer, outra", provoca o oftalmologista Eduardo Dib, professor voluntário da Unifesp e médico do Banco de Olhos de Sorocaba, no interior paulista. Ele é um dos envolvidos em 15 anos de pesquisa com pigmentos naturais até a ciência chegar a um novo corante.

Retina tem dez camadas delicadas e transparentes que, reunidas, têm em média 0,2 milímetro de espessura Imagem: Getty Images "Tentamos, primeiro, o açaí", conta o doutor. Esse corante, ainda experimental, é capaz de tingir de roxo determinadas estruturas dos olhos. "Tentamos também desenvolver algo a partir de uvas", relembra. "No entanto, o resultado foi um corante menos estável." Essa ideia empacou. Até que — bingo! — resolveram investigar a luteína, um pigmento amarelo encontrado em vegetais, mas que também é muito presente na mácula, a região central da retina, responsável por captar os detalhes de cada imagem que você vê por aí.

A questão é que, na paleta dos oftalmologistas, o tom amarelo não combina com nada muito bem. É que, durante uma operação, quando eles fazem três pequenos furos na "parte branca" do olho para alcançar a retina — "um para injetar soro, outro para passar o instrumental e um terceiro para a luz", descreve o doutor —, essa estrutura salta aos olhos. Parece gigantesca através das lentes do cirurgião, apesar de seus 5 milímetros de diâmetro, e lembra um sol radiante e alaranjado. Desse modo, tudo ficaria muito monocromático. "Na verdade, precisamos de corantes que criem contrastes, destacando apenas a camada que desejamos manipular", explica.

Por isso, os pesquisadores da Unifesp combinaram a amarelada luteína com outras substâncias, conseguindo que o corante à base dela fosse capaz de esverdear a membrana limitante interna, uma daquelas dez camadas da retina. Esta, no caso, faz o limite com o gel que "recheia" as bolas dos nossos olhos, o chamado humor vítreo.

"Isso torna possível visualizar essa membrana com bastante clareza, o que é importante porque existem situações em que precisamos removê-la", explica o doutor. Isso acontece quando há um buraco na mácula, isto é, na parte central da retina, provocado por traumas ou até por doenças oculares. Ao arrancar a camada limitante interna com uma pinça, força-se a cicatrização e há uma boa chance de o rombo se fechar.

"Sem usar um corante, seria muito difícil fazer isso sem arrastar outras camadas com o instrumento, já que elas são completamente transparentes por natureza", explica o oftalmologista.

Os estudos com o corante à base de luteína, incluindo a fase 3 com milhares de pacientes de diversos centros, serão apresentados no 11º Congresso da Sociedade Pan-Americana de Retina e Vítreo, que acontecerá em São Paulo, no início de novembro. Nesses ensaios, o novo corante foi comparado com outro, o azul brilhante, aprovado desde 2009 no país.

A contribuição brasileira no universo dos corantes usados em cirurgias oftalmológicas é reconhecida no mundo inteiro e foi justamente da Unifesp que saiu a maioria das investigações científicas nessa seara. Aliás, seus cientistas cunharam um termo que é usado hoje por médicos de todos os cantos: cromovitrectomia, como batizaram a técnica de tingir as estruturas internas do olho para identificá-las.

Não existe apenas o tal do azul brilhante. Há vários outros corantes, cada um com afinidade para pintar uma estrutura e só ela, diferenciando-a do que estiver por perto. O azul tripan é mais um exemplo. Eduardo Dib esclarece a origem do nome: "Vem de Trypanossoma cruzi, porque esse corante era usado para identificar o protozoário causador da doença de Chagas em amostras de laboratório." Nos olhos, seu papel é diferente: pintar de azul a membrana epirretiniana. Sei que o nome não ajuda, mas pense que ela é feito uma casquinha de machucado que se forma sobre a superfície interna da retina.

Pode ser que, com o envelhecimento, aquele gel transparente que recheia os olhos se separe aos poucos da retina, encolhendo-se e, às vezes, levando pedacinhos dela colados. Pedacinhos que ficam flutuando no campo de visão e que as pessoas chamam de moscas volantes. Mas também podem ocorrer inflamações, sequelas de cirurgias e outros problemas deflagrando o crescimento da casquinha fina e fibrosa por cima da retina, que distorce um bocado a visão. Tingi-la ajuda o médico a pinçá-la sem, de novo, lesionar a vizinhança. É sempre essa a proposta de qualquer corante.

Se há tantos corantes, por que a novidade chama a atenção? "Porque a fórmula com luteína faz mais do que colorir", diz Eduardo Dib. "Durante a cirurgia, você joga iluminação dentro do olho operado para enxergar o que está fazendo. Só que a luz reage com os corantes e, quando isso acontece, eles liberam moléculas de radicais livres que, por ironia, são tóxicas para a própria retina."

No passado, um corante verde que era o queridinho dos cirurgiões foi abandonado porque o tempo mostrou que, se a cirurgia curava de um lado, ele acabava com a camada mais interna da retina por outro. Era extremamente tóxico para ela. "Assim, estamos sempre buscando substâncias mais seguras, e a luteína, nesse sentido, faz duas coisas: o corante reage menos à luz e ainda neutraliza os eventuais radicais livres."

No procedimento, ele é colocando por uma cânula de metal com ponta de silicone flexível que passa por um furinho no branco dos olhos, justamente para evitar danos se houver algum toque acidental na retina. Ora, ninguém quer espetá-la!

"Então, desligamos a luz, o que aliás fazemos em qualquer oportunidade para diminuir o risco de danos. Daí, cronometramos um minuto, que é o tempo para a estrutura que desejamos identificar ficar corada. E pronto!", descreve Eduardo Dib. A partir desse instante, a cirurgia dura uns 10 ou 15 minutos, tempo que diminuiu com a ajuda desses pigmentos.

Além de ser empregado para azular a camada limitante interna da retina, o novo corante já tem uma variante usada em cirurgias de corpo vítreo. E, segundo o doutor, as perspectivas são as melhores: no futuro, se tudo der certo, ele deve ser aplicado em outros procedimentos. Por exemplo, pintando a lente do cristalino em cirurgias de catarata. Olhe bem, a retina talvez seja só o começo.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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