Entenda: O próximo ciclo de crescimento global exige novas escolhas do Brasil
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Consulte formatos e valores disponíveisO próximo ciclo de crescimento global exige novas escolhas do Brasil O avanço da IA exige que o Brasil faça escolhas para elevar a produtividade, atrair investimentos e ganhar espaço na economia global Acelerador de partículas Sirius, em Campinas (SP): O país permanece como a única economia latino-americana com desempenho em inovação acima do esperado para seu nível de desenvolvimento (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM)/Divulgação)
Colunistas EXAME Publicado em 27 de outubro de 2026 às 17h17.
Última atualização em 27 de outubro de 2026 às 17h25.
Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Inovação Saiba mais Por Gianna Sagazio* A economia mundial está entrando em uma fase na qual a capacidade de crescimento dos países dependerá cada vez mais da qualidade de seus investimentos, da incorporação de tecnologias e da velocidade com que empresas conseguem transformar conhecimento em resultados. A inteligência artificial está no centro desse movimento, mas seria um erro interpretá-lo como uma transformação restrita ao setor tecnológico. O que está em curso é uma reorganização mais ampla das condições de competitividade, com consequências para a indústria, os serviços, a infraestrutura, o comércio internacional e a distribuição de valor entre as economias.
As projeções divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional em outubro ajudam a compreender a dimensão dessa mudança. O crescimento mundial deverá alcançar 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027, enquanto as estimativas para o Brasil são de 2,2% e 1,9%, respectivamente. Mais importante do que a diferença entre essas taxas é o que está por trás delas. O FMI identifica nos investimentos associados à inteligência artificial uma das forças que sustentam a atividade econômica global, ao mesmo tempo em que alerta para riscos fiscais, tensões comerciais e uma recuperação desigual entre países.
A expansão dos investimentos em centros de dados, semicondutores, infraestrutura energética e capacidade computacional demonstra que a nova economia digital exige uma base física e financeira de grandes proporções. Entretanto, construir infraestrutura tecnológica não assegura, por si só, ganhos sustentados de produtividade. O valor econômico dependerá da capacidade de utilizar essas tecnologias para reorganizar processos, desenvolver novos produtos, melhorar decisões e criar mercados.
É justamente nessa transição que se estabelecerá uma parte importante da diferença entre as economias que liderarão o próximo ciclo de crescimento e aquelas que permanecerão como consumidoras de tecnologias desenvolvidas em outros países.
O Brasil dispõe de ativos que não deveriam ser subestimados. Temos um mercado interno de grande escala, uma base industrial diversificada, instituições científicas reconhecidas internacionalmente e empresas competitivas em setores como agronegócio, energia, mineração, saúde e indústria aeroespacial. Nossa matriz elétrica, com elevada participação de fontes renováveis, também representam uma vantagem em um momento em que a disponibilidade de energia se torna decisiva para a expansão da infraestrutura digital.
Mas possuir vantagens não significa necessariamente convertê-las em competitividade.
O Global Innovation Index 2026, divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, posiciona o Brasil em 53º lugar entre 139 economias. O país permanece como a única economia latino-americana com desempenho em inovação acima do esperado para seu nível de desenvolvimento, condição que mantém pelo sexto ano consecutivo. O resultado reconhece capacidades importantes, mas também revela limitações estruturais.
O Brasil ocupa a oitava posição em dimensão do mercado doméstico e apresenta indicadores relevantes de atividade empresarial e propriedade intelectual. Em contrapartida, aparece em 94º lugar no indicador de crescimento da produtividade do trabalho, em 101º na formação de graduados em ciência e engenharia e em 129º em ambiente de negócios.
Essa combinação merece atenção. Ela sugere que a questão brasileira não se resume à ausência de conhecimento, de oportunidades ou de iniciativas inovadoras. Envolve, sobretudo, a dificuldade de conectar essas capacidades em escala suficiente para produzir ganhos consistentes de produtividade e competitividade.
O problema se torna ainda mais relevante diante da transformação tecnológica em curso. Países que conseguirem incorporar inteligência artificial, automação e análise avançada de dados à sua estrutura produtiva terão condições de melhorar a eficiência, reduzir custos, elevar a qualidade de produtos e serviços e competir em segmentos de maior valor agregado. Aqueles que não conseguirem fazê-lo poderão enfrentar uma distância crescente em relação aos concorrentes internacionais.
Essa discussão precisa ocupar um espaço mais importante na estratégia econômica brasileira. Durante muito tempo, tratamos inovação predominantemente como uma agenda de ciência e tecnologia, frequentemente separada das decisões de investimento, financiamento, produtividade e desenvolvimento empresarial. Essa divisão já não corresponde à realidade. A inovação tornou-se um componente essencial da estratégia econômica e deve ser tratada como tal, tanto pelo governo quanto pelo setor privado.
Isso não significa atribuir à tecnologia a capacidade de resolver problemas macroeconômicos. Juros elevados, restrições fiscais, insegurança jurídica e custos de financiamento continuam condicionando as decisões empresariais. A estabilidade econômica é indispensável. Entretanto, ela não substitui uma estratégia capaz de elevar a produtividade e ampliar a capacidade de crescimento do país no longo prazo.
Uma economia não se torna mais competitiva apenas porque consegue financiar suas atividades em condições melhores. Precisa também produzir mais valor com os recursos disponíveis, desenvolver competências, modernizar sua estrutura produtiva e participar de mercados nos quais conhecimento e tecnologia têm peso crescente.
Para os CEOs, essa transformação exige uma revisão das prioridades de investimento.
A inteligência artificial não deveria ser tratada apenas como uma nova frente de experimentação tecnológica. Seu potencial econômico precisa ser incorporado às decisões sobre eficiência operacional, estratégia comercial, desenvolvimento de produtos, gestão de riscos e posicionamento competitivo.
A questão relevante para um conselho de administração não é quantas iniciativas de inteligência artificial estão em andamento, mas quais delas têm capacidade de alterar os resultados do negócio. É necessário compreender onde a tecnologia pode ampliar margens, reduzir custos estruturais, aumentar receitas, melhorar a experiência dos clientes ou criar vantagens competitivas difíceis de reproduzir.
Esse raciocínio também vale para a inovação aberta. A aproximação entre grandes empresas, startups, universidades e centros de pesquisa representa um instrumento importante, mas seu valor não está no número de conexões realizadas. Está na capacidade de transformar essas relações em soluções implementadas, novos negócios, contratos, ganhos de produtividade e acesso a competências que não seriam desenvolvidas com a mesma velocidade dentro das organizações.
O desafio, portanto, não é simplesmente inovar mais. É melhorar a qualidade das decisões sobre onde inovar, como financiar, com quem desenvolver e de que maneira transformar projetos em resultados econômicos.
Essa mudança de perspectiva é especialmente relevante para a indústria brasileira. A incorporação de tecnologias digitais à manufatura, à logística, à manutenção de equipamentos, ao planejamento da produção e à gestão de cadeias de suprimentos oferece oportunidades concretas de aumento de produtividade. Em muitos casos, os resultados podem surgir antes mesmo do desenvolvimento de tecnologias inteiramente novas.
O mesmo ocorre em setores nos quais o Brasil já possui competências consolidadas. No agronegócio, a integração entre dados, biotecnologia e inteligência artificial pode ampliar a precisão das decisões produtivas. Na saúde, novas ferramentas podem contribuir para diagnósticos, gestão hospitalar e eficiência dos sistemas de atendimento. Na mineração e na energia, tecnologias avançadas podem melhorar segurança, eficiência operacional e aproveitamento de recursos. Nos serviços, a automação inteligente pode transformar processos e abrir novas possibilidades de oferta.
Esses avanços dependem de investimentos, mas também de competências organizacionais. A adoção de tecnologia exige revisão de processos, qualificação profissional, capacidade de gestão e clareza sobre os problemas econômicos que se pretende resolver.
Não basta adquirir soluções digitais e esperar que a produtividade aumente. A tecnologia precisa estar associada a mudanças efetivas na maneira como as empresas operam.
Há, entretanto, uma segunda dimensão dessa transformação que merece igual atenção: a capacidade de desenvolver tecnologias próprias e participar dos mercados emergentes.
O Global Innovation Index 2026 chama a atenção para a expansão das empresas baseadas em ciência avançada, as chamadas deep techs. Segundo a OMPI, mais de 30 mil startups dessa natureza foram criadas no mundo desde 2000, alcançando, em conjunto, valor estimado de US$ 7,6 trilhões.
Esse movimento mostra que a fronteira da inovação não está limitada ao desenvolvimento de softwares e aplicações digitais. Ela avança em áreas como biotecnologia, novos materiais, computação quântica, semicondutores, tecnologias energéticas, saúde e sistemas industriais avançados.
Para o Brasil, essa tendência abre oportunidades relevantes, especialmente pela combinação entre recursos naturais, competências científicas e setores produtivos com demanda tecnológica crescente.
Minerais críticos e estratégicos são um exemplo. A importância de lítio, grafita, nióbio, níquel e terras raras para cadeias de baterias, equipamentos eletrônicos, energia e tecnologias avançadas cria uma oportunidade que ultrapassa a exploração mineral. O valor econômico mais significativo pode estar no domínio de processos de beneficiamento, materiais avançados, componentes, equipamentos e aplicações industriais.
O mesmo princípio se aplica à bioeconomia, à transição energética e à indústria da saúde. A capacidade de produzir matérias-primas ou reunir condições naturais favoráveis não garante participação nas etapas de maior valor das cadeias produtivas.
É preciso desenvolver tecnologia, atrair investimentos produtivos, formar talentos e criar condições para que empresas brasileiras avancem nessas cadeias.
Essa agenda também exige uma abordagem mais sofisticada do financiamento à inovação.
O Brasil já dispõe de instrumentos relevantes, como Finep, BNDES, Embrapii, incentivos fiscais à pesquisa e desenvolvimento e programas de cooperação entre empresas e instituições científicas. A questão não é apenas ampliar os recursos disponíveis, embora o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento precise crescer. É melhorar a articulação entre os instrumentos e sua capacidade de mobilizar investimentos privados.
Projetos de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, demonstração industrial e expansão comercial apresentam riscos, prazos e necessidades financeiras diferentes. Tratar essas etapas com mecanismos semelhantes reduz a eficiência do financiamento e pode dificultar a chegada de tecnologias promissoras ao mercado.
A Finep tem papel fundamental no apoio ao risco tecnológico e à inovação empresarial. O BNDES pode contribuir de maneira decisiva para a expansão produtiva, a infraestrutura e o financiamento de longo prazo. A Embrapii aproxima empresas de competências científicas e tecnológicas. O desafio é fazer com que essas instituições operem de maneira complementar, permitindo que projetos avancem entre diferentes estágios sem enfrentar descontinuidades excessivas.
Também é necessário desenvolver instrumentos que atraiam capital privado para tecnologias de maior risco e maturação prolongada. Fundos especializados, coinvestimento, garantias e mecanismos de compartilhamento de risco podem ampliar a capacidade de financiamento sem transformar o investimento público em substituto permanente do capital empresarial.
O princípio deveria ser claro: o recurso público precisa estimular investimentos adicionais, desenvolver capacidades e abrir mercados que dificilmente surgiriam na mesma escala sem sua participação.
Essa lógica deve orientar também os incentivos fiscais e as compras públicas para inovação. O Brasil precisa criar condições para que mais empresas invistam em pesquisa e desenvolvimento e para que soluções tecnológicas encontrem demanda efetiva. Em determinados setores, o primeiro contrato pode ser tão importante quanto o financiamento inicial para viabilizar uma nova tecnologia.
A experiência internacional demonstra que a inovação ganha escala quando conhecimento, financiamento, demanda e capacidade empresarial atuam de forma articulada.
O desafio brasileiro é construir essa articulação sem multiplicar estruturas, programas e procedimentos que aumentem a complexidade para quem pretende investir.
Há ainda uma dimensão internacional que não pode ser negligenciada.
A reorganização das cadeias produtivas, as tensões geopolíticas e a busca por segurança no fornecimento de energia, minerais, componentes e tecnologias estão modificando as decisões de localização dos investimentos. Nesse ambiente, os países competem não apenas por capital, mas também por centros de pesquisa, talentos, competências industriais e posições estratégicas nas cadeias globais.
O Brasil tem condições de disputar parte desses investimentos. Para isso, precisa oferecer previsibilidade, infraestrutura, capacidade tecnológica, fornecedores competitivos e uma estratégia clara de desenvolvimento produtivo.
Atrair um investimento internacional é importante. Conseguir que ele amplie a capacidade tecnológica das empresas nacionais, desenvolva fornecedores locais, forme profissionais e gere novas oportunidades de exportação é o que determina seu impacto duradouro.
Essa distinção deve estar presente nas políticas de atração de investimentos e nas estratégias de internacionalização das empresas brasileiras.
Também precisamos reconhecer que o país não dispõe de tempo ilimitado para realizar essa transformação. A velocidade dos avanços tecnológicos está reduzindo o intervalo entre o surgimento de novas soluções e sua incorporação aos modelos de negócios. Ao mesmo tempo, a concentração de investimentos e competências em determinados países pode tornar mais difícil a entrada tardia em segmentos estratégicos.
No setor público, significa estabelecer prioridades tecnológicas, melhorar a qualidade dos instrumentos existentes, reduzir a fragmentação institucional e avaliar resultados com maior rigor. Programas de apoio à inovação precisam demonstrar sua contribuição para o investimento privado, a produtividade, o desenvolvimento tecnológico e a competitividade.
No setor privado, significa tratar a transformação tecnológica como responsabilidade da alta administração, com investimentos orientados por resultados, desenvolvimento de competências e capacidade de execução.
Uma agenda nacional de produtividade poderia começar pela mobilização coordenada de instrumentos já existentes para acelerar a adoção de inteligência artificial, automação e tecnologias digitais por pequenas e médias empresas. Projetos vinculados a cadeias produtivas específicas, com metas de desempenho e acompanhamento em ciclos de seis a doze meses, permitiriam demonstrar resultados e ampliar iniciativas bem-sucedidas.
Outra prioridade seria fortalecer os mecanismos de financiamento destinados à validação e à expansão comercial de tecnologias desenvolvidas no país. Continuar investindo em pesquisa de longo prazo é indispensável, mas também é necessário enfrentar as dificuldades que impedem resultados científicos de chegar ao mercado.
Uma terceira frente envolve a formação de talentos. A transformação tecnológica exige profissionais capazes de combinar conhecimentos digitais, engenharia, gestão e compreensão dos processos produtivos. Empresas e instituições de ensino precisam atuar de maneira mais próxima para responder a essa demanda, sem comprometer a formação científica de excelência.
Essas iniciativas não eliminam a necessidade de reformas estruturais, mas demonstram que parte relevante da agenda de produtividade pode avançar por meio de melhores decisões de investimento, coordenação institucional e capacidade de execução.
O Brasil precisa superar uma característica recorrente de sua trajetória econômica: a dificuldade de transformar vantagens potenciais em resultados sustentados.
Temos recursos naturais, mercado, conhecimento científico, capacidade empresarial e instituições importantes. O que ainda não conseguimos fazer na escala necessária é combinar esses ativos em uma estratégia capaz de elevar continuamente a produtividade e ampliar nossa presença nos segmentos mais dinâmicos da economia mundial.
A inteligência artificial torna essa questão mais urgente, mas não altera sua essência. O crescimento sustentável depende da capacidade de investir, aprender, produzir melhor e competir.
Nos próximos anos, os países e as empresas mais bem posicionados não serão necessariamente aqueles que anunciarem mais projetos tecnológicos. Serão aqueles que conseguirem incorporar novas capacidades aos seus processos produtivos, desenvolver soluções relevantes e transformar investimentos em resultados.
O Brasil ainda tem espaço para fazer essa escolha. Mas ela exige reconhecer que produtividade, inovação e competitividade não são agendas paralelas. São dimensões de uma mesma estratégia de crescimento.
O próximo ciclo econômico não será definido apenas por quem tiver acesso às tecnologias mais avançadas, mas por quem souber utilizá-las para produzir mais valor. É nessa capacidade de execução que o Brasil precisa concentrar suas decisões.
*Gianna Sagazio é CEO da SOSA Brasil e copresidente do Portulans Institute.
A inteligência artificial pode melhorar processos, reduzir custos, apoiar decisões e contribuir para o desenvolvimento de produtos e mercados. Segundo Gianna Sagazio, CEO da SOSA Brasil, esses ganhos dependem de mudanças efetivas na operação das empresas, além da aquisição de soluções digitais.
O Brasil ocupa o 53º lugar entre 139 economias no Global Innovation Index 2026, divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Segundo o índice, o país é a única economia latino-americana com desempenho em inovação acima do esperado para seu nível de desenvolvimento pelo sexto ano consecutivo.
O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento de 2,2% para o Brasil em 2026 e de 1,9% em 2027. Para a economia mundial, as estimativas são de 3,1% e 3,4%, respectivamente.
Segundo o Global Innovation Index 2026, o Brasil está em 94º lugar no crescimento da produtividade do trabalho, em 101º na formação de graduados em ciência e engenharia e em 129º no ambiente de negócios. O país, porém, ocupa a oitava posição em dimensão do mercado doméstico.
A Finep apoia o risco tecnológico e a inovação empresarial, enquanto o BNDES atua na expansão produtiva, na infraestrutura e no financiamento de longo prazo. A Embrapii aproxima empresas de competências científicas e tecnológicas, e o texto defende uma atuação complementar entre as três instituições.
Indústria, agronegócio, saúde, mineração, energia e serviços podem aplicar inteligência artificial, automação e análise de dados. Segundo Gianna Sagazio, os possíveis resultados incluem maior eficiência operacional, decisões produtivas mais precisas, melhoria da segurança e novos serviços.
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