Em destaque: Por que as checagens do último debate presidencial divergem?
Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

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Consulte formatos e valores disponíveisNo debate da Globo, Flávio Bolsonaro disse que o pai dele não debochou de quem morria sem ar na pandemia e que o vídeo da imitação foi tirado de contexto. Nove checadores de fatos disseram que é falso. Três disseram que é verdadeiro. E agora?
Para compreender o impasse, coloquei as checagens lado a lado. Criei um painel online que consolida todas as checagens de fatos relativas ao debate de 23 de outubro. Selecionei 19 iniciativas de checagem:
Há diferenças significativas e isso já dá uma pista: o que foi checado (o denominador) não foi o mesmo para todas. As redações tradicionais verificaram entre 19 e 56 falas cada uma, quase sempre as mesmas, as mais polêmicas. Alguns projetos independentes, com auxílio de IA, examinaram de 103 a 166 falas. O Brasil Paralelo fez apenas 7 checagens.
Comecemos pelo consenso. Quando Flávio disse que o governo Bolsonaro garantiu o Bolsa Família de no mínimo R$ 600, 16 checadores analisaram a frase: quinze a classificaram como parcialmente verdadeira; outro, como correta, com ressalvas.
A consistência entre as agências tradicionais é notável: em todas as falas que checaram em comum, nenhuma classificou como “verdadeiro” o que outra classificou como “falso”. Em alguns casos, houve divergências leves (como “verdadeiro” e “parcialmente verdadeiro”).
Há também o extremo oposto: em 35 das 158 falas avaliadas por pelo menos três checadores, um disse “verdadeiro” e outro “falso”.
Diferente do que muitos pensam, quase nunca é porque um checador distorceu um fato. É porque cada um usou um contexto diferente para julgar a mesma frase: uma data, uma lei, uma intenção. Ou checou só um pedaço dela.
Veja o caso do Tigrinho. Flávio chamou Lula de “pai do Tigrinho”. Sete checadores deram “falso”, porque a lei que liberou as apostas é de 2018, do governo Temer. Dois deram “verdadeiro”, porque uma lei de 2023, já no governo Lula, incluiu os jogos on-line. Os outros cinco ficaram no “parcial”. É a mesma frase, julgada a partir de leis diferentes.
E há casos em que cada checador respondeu a uma pergunta diferente sobre a mesma frase. Flávio juntou o Marco Legal do Saneamento, o voto do PT e o número de brasileiros sem água numa frase. A Lupa checou só o Marco e deu “verdadeiro”. O Estadão e o grupo da USP checaram os números e deram “impreciso”. Frases compostas viram vereditos diferentes conforme o pedaço escolhido.
E a imitação que mencionei na introdução deste texto? Quem deu “falso” considerou o gesto em si: ele ocorreu. Quem deu “verdadeiro” olhou para o contexto: no vídeo, Bolsonaro criticava a orientação de só procurar o hospital quando faltasse o ar. Ou seja: o selo de “falso” ou “verdadeiro” diz muito sobre a pergunta que o checador decidiu fazer.
Chegamos a uma pergunta polêmica: será que algum checador acaba favorecendo um candidato em detrimento de outro?
Não é justo comparar a porcentagem de falsos de cada um, porque cada checador escolheu falas diferentes, como mostrei acima. Por isso criei outro indicador. Usei só as falas que vários checadores (pelo menos 3) avaliaram e calculei se, para cada declaração, este checador foi mais duro ou mais brando que a média dos outros (a linha do consenso).
As agências tradicionais ficam perto da linha de consenso: Fato ou Fake e Lupa praticamente coincidem com a média nos dois candidatos, enquanto o Estadão é um pouco mais rigoroso, mas aplica o mesmo critério aos dois.
Alguns checadores se afastam do consenso: o checagemaovivo.org, o ICL Notícias, o Verifique os Fatos e, com menos intensidade, o grupo de checagem da ECA-USP foram mais duros com Flávio e mais brandos com Lula do que os colegas ao avaliar as mesmas frases. Os casos mais extremos são o do ICL Notícias, que deu “falso” ou “fake news” a 13 das 14 falas de Flávio que checou e nenhum “falso” a Lula, e o do checagemaovivo.org, onde 52% das falas de Flávio são falsas e nenhuma de Lula.
Quatro checadores foram mais brandos com Flávio do que a média: o Verifique a Verdade, o Ranking dos Políticos, o Debatômetro e, principalmente, o Brasil Paralelo (todas de Bolsonaro consideradas verdadeiras).
Mas existe outra forma de ser mais duro. É mais sutil, e não aparece nesse gráfico: o viés de seleção. O checador seleciona as falas que mais favorecem ou mais prejudicam um candidato.
Das 35 falas mais checadas do debate (por nove ou mais checadores), o ICL Notícias e o checagemaovivo.org checaram só 8. Mas ambos analisaram muitas declarações que ninguém mais examinou, e sem outra checagem para comparar, elas ficaram fora do gráfico comparativo. As exclusivas do ICL são quase todas de Flávio, e todas têm veredito negativo. A Revista Fórum deu “verdadeiro” a 11 das 12 falas de Lula que verificou. Parece OK. Mas escolheu justo as falas que praticamente todos os outros checadores também classificaram como verdadeiras. E deixou de fora as que os outros consideraram falsas.
Uma agência de fact-checking pode ser impecável em cada veredito e ainda gerar um placar enviesado, só pela escolha das declarações. Como eu já falei na minha coluna da semana passada sobre omissão de contexto: escolher apenas uma parte da verdade acaba desinformando também.
Nota: todas as falas analisadas, os respectivos vereditos de cada checador e as fontes estão no meu painel, em desvendados.com/checadores. Lá você pode procurar a frase que mais te incomodou no debate e como ela foi avaliada.
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