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Em destaque: O novo capítulo de Jay Boggo para a casa

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 21 de outubro de 2026 às 19:40
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Em destaque: O novo capítulo de Jay Boggo para a casa
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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O novo capítulo de Jay Boggo para a casa Com lançamentos previstos para 2027, o estilista e artista expande a atuação no design e aposta em séries limitadas Jay Boggo: do mercado de moda à empreitada no design de interiores (Will de Carvalho/Divulgação)

Publicado em 21 de outubro de 2026 às 15h57 .

Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Moda Saiba mais Durante a pandemia, enquanto jogava dados com o marido, Will de Carvalho, Jay Boggo tinha o hábito de fazer rabiscos nas folhas em que anotava os pontos das partidas. Os desenhos, feitos sem a intenção de se tornarem produtos, ganharão uma nova função em 2027: serão transformados em tapetes de uma coleção assinada pelo estilista e artista brasileiro para a Punto e Filo.

O lançamento, previsto para o primeiro semestre, terá dez modelos, cada um produzido em uma série numerada de até 100 unidades . O convite partiu da família de um dos principais nomes do modernismo brasileiro, que será homenageado na coleção.

O projeto é uma das duas novidades que ele prepara para o próximo ano. No segundo semestre, lançará uma coleção de mobiliário em parceria com o designer Sérgio Fahrer , com previsão de 10 a 15 modelos, entre poltronas, cadeiras e sofás. As peças terão como inspiração os últimos gigantes da Terra, da Namíbia.

Os lançamentos consolidam uma fase da carreira em que Boggo, aos 46 anos, divide seu trabalho entre moda, artes visuais e design. Para quem já comandou uma fábrica capaz de produzir 8 mil regatas iguais , a nova rotina tem pouco a ver com a produção industrial. Hoje, prefere criar apenas três peças idênticas para o mundo inteiro .

A exclusividade se tornou parte central de sua atuação. A loja não mantém estoque, e os produtos são desenvolvidos em quantidades limitadas. É uma lógica que ele também levou para o mobiliário, área na qual começou a trabalhar há poucos anos e que agora ganha espaço entre seus principais projetos. "Cada peça minha vai ter um dono no mundo", afirma.

A entrada no universo dos móveis não aconteceu por meio de um planejamento de carreira. Boggo costuma atribuir o início dessa trajetória ao acaso, elemento que considera importante em seu processo criativo.

Na virada de 2022 para 2023, durante uma viagem a Salvador, a proprietária de uma pousada lhe disse que precisava conhecer o Pará. Poucos dias depois, já de volta à sua loja em São Paulo, recebeu a visita de uma empresária paraense, que o convidou a desenvolver peças para sua fábrica de móveis, especializada no uso de madeira proveniente de manejo florestal.

O convite despertou seu interesse, e Boggo decidiu conhecer a produção. Durante a visita, encontrou o pé de um aparador que havia sido rejeitado e começou a entalhar a madeira. Uma mulher ribeirinha, ao observar o trabalho, comentou que a forma lembrava um cacau.

A observação deu origem ao banco Cacau , que passou a integrar o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. A peça também abriu caminho para novas experimentações. O desenho foi reinterpretado em pedra, transformou-se em bolsa e inspirou uma coleção de roupas.

A partir dali o trabalho ganhou projeção internacional, com participação na Paris Design Week, interesse da equipe de Karl Lagerfeld e presença na loja de departamentos parisiense Samaritaine.

A bolsa Cacau se tornou um exemplo de como Boggo passou a lidar com a produção de suas criações. Mesmo com fila de espera, as vendas foram encerradas perto de 100 unidades, respeitando a quantidade inicialmente estabelecida.

"Quem comprou, comprou com um discurso de que seriam tantas bolsas, e assim será", afirma.

A passagem de um banco para uma bolsa, ou de um desenho para uma coleção de roupas, ajuda a entender por que Boggo não enxerga a atuação em diferentes segmentos como uma mudança constante de profissão. Para ele, são maneiras de trabalhar uma mesma identidade artística, adaptada a materiais e superfícies distintos.

"Eu nunca vi diferença entre moda, arte e design", diz. "É um vestir: ou o corpo, ou o ambiente, ou a parede."

Essa liberdade para experimentar não começou com o mobiliário. Antes de transformar madeira em móveis e acessórios, Boggo já havia encontrado na pintura outra forma de expressão. Assim como aconteceria mais tarde no design, a descoberta não surgiu de um plano profissional, mas de uma experiência pessoal.

Durante uma sessão de terapia, lembrou-se de um episódio da infância em que havia sentido vergonha durante uma aula de artes. A lembrança o fez refletir sobre uma habilidade criativa que, segundo ele, havia deixado de explorar.

"Provavelmente naquela aula eu desaprendi quem eu era como artista."

Ao sair da sessão, passou em uma loja e comprou 11 telas. Durante dois meses, dedicou-se à pintura, mas não mostrou o resultado a ninguém. Os quadros ficaram escondidos atrás de um armário.

A produção só ganharia visibilidade durante a pandemia. Boggo, que se mudou para São Paulo há nove anos, conta que o marido encontrou as telas guardadas e insistiu para que ele compartilhasse os trabalhos nas redes sociais.

A publicação abriu portas que ele não havia imaginado quando começou a pintar. Depois de mostrar os quadros, afirma que vieram "duas Art Basel, várias galerias, várias exposições".

A experiência com a pintura ampliou sua atuação artística, mas também reforçou uma transformação que havia começado anos antes, quando decidiu deixar de produzir roupas para outras marcas e passou a assinar as próprias criações.

Foi uma mudança que nasceu de um dos períodos mais difíceis de sua vida profissional.

Antes de construir uma carreira autoral, Boggo era um empresário da indústria de confecção em Blumenau, Santa Catarina, cidade onde cresceu nos anos 1980.

Aos 20 anos, montou uma fábrica de roupas que se tornou fornecedora da Zara, então recém-chegada ao Brasil. A empresa cresceu rapidamente e, antes de completar 30 anos, ele já comandava uma operação com 150 funcionários .

O sucesso nos negócios, porém, convivia com conflitos pessoais. Boggo conta que passou boa parte da juventude tentando corresponder a padrões de comportamento que não refletiam sua identidade. Em uma cidade e em um ambiente nos quais sentia que precisava se adaptar para ser aceito, construiu uma versão de si que também levou para a vida empresarial.

"Eu me transformei no mais masculino que pudesse ser para ser aceito", lembra.

A estrutura que havia construído começou a ruir depois da crise financeira de 2008. Com o crédito restrito e a inadimplência de grandes marcas para as quais produzia no modelo private label , a confecção não resistiu.

Aos 34 anos, Boggo precisou encerrar as atividades . Pagou as verbas rescisórias dos funcionários e fechou a empresa. Na mesma época, assumiu sua homossexualidade e começou a questionar a identidade que havia sustentado até então.

"Eu entendi que a crise não era financeira, a crise era existencial", afirma.

O encerramento da fábrica poderia ter representado também sua saída da moda. Mas, apesar das perdas, Boggo ainda tinha o conhecimento acumulado na indústria e o desejo de continuar criando. Da antiga estrutura empresarial, restou uma mala de roupas e duas ou três máquinas de costura .

Foi com esses recursos que começou a reconstruir a carreira, agora distante da lógica de produzir grandes quantidades para outras empresas.

"Eu não precisei sair da moda, eu só precisei canalizar a moda. Eu não era o empresário, eu era o artista."

A mudança apareceu primeiro nas próprias roupas. Boggo passou a desenvolver peças masculinas com tecidos tradicionalmente associados ao vestuário feminino. Eram materiais que despertavam seu interesse durante viagens de pesquisa, mas que costumava encontrar apenas nas coleções para mulheres.

Também começou a divulgar as criações no Instagram. Aos poucos, o trabalho deixou de estar associado à capacidade industrial da antiga confecção e passou a ganhar reconhecimento por sua linguagem própria.

Um dos momentos decisivos dessa transição aconteceu em uma viagem a Nova York. Boggo levou uma mala com suas peças e ficou hospedado na casa de um conhecido. Quando abriu a bagagem para mostrar as roupas, o anfitrião se surpreendeu.

Naquela mesma noite, a modelo brasileira Shirley Mallmann apareceu em um baile usando um wrap dress criado por ele. "E voltei para o Brasil como um estilista", recorda.

A experiência marcou a passagem de empresário da confecção a criador de uma marca autoral. A partir dessa mudança, Boggo encontrou espaço para experimentar outras linguagens, primeiro na pintura e depois no mobiliário, sem abandonar a moda.

O percurso também explica sua relação atual com a exclusividade. Depois de trabalhar com milhares de peças idênticas e depender de grandes clientes, passou a valorizar a possibilidade de controlar o que cria e quanto produz. É essa filosofia que orienta tanto a decisão de limitar a venda de uma bolsa a cerca de 100 unidades quanto os novos projetos de design previstos para 2027.

As coleções de tapetes e móveis representam uma continuidade do caminho iniciado quando deixou a indústria de confecção. O artista que hoje desenha uma poltrona ou transforma rabiscos em tapetes é o mesmo que decidiu reconstruir a carreira com uma mala de roupas e algumas máquinas de costura.

A mudança também se refletiu fora do trabalho. Aos 46 anos, Boggo diz ter simplificado a própria vida. Não tem carro nem computador e afirma que, após tantas transformações, aprendeu a distinguir o que considera essencial daquilo que pode deixar para trás. "O que eu sou ficou. Só sobrou eu. O resto é resto."

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