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Como Nova Geração Está Transformando a Filantropia? — US$ 83 Trilhões Mudarão de Mãos

Em entrevista exclusiva à Forbes, Maximilian Martin explica como jovens milionários estão mudando a forma de financiar causas sociais O post US$ 83 Trilhões Mud

Por Redatores da Empire Cidades 29 de outubro de 2026 às 08:00
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Como Nova Geração Está Transformando a Filantropia? — US$ 83 Trilhões Mudarão de Mãos
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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A maior transferência de riqueza da história está prestes a colocar trilhões de dólares sob o comando de uma nova geração. Segundo o Global Wealth Report 2025, da UBS, mais de US$ 83 trilhões (R$ 445 trilhões) devem mudar de mãos globalmente nos próximos 20 a 25 anos.

Desse montante, mais de US$ 74 trilhões (R$ 396 trilhões) correspondem a transferências entre gerações e em torno de US$ 9 trilhões (R$ 48 trilhões) a transferências intrageracionais, principalmente entre cônjuges.

E a mudança promete alterar a forma como grandes fortunas financiam causas sociais e ambientais. Isso é o que aponta a pesquisa “ Global Philanthropy Survey ” do banco suíço Lombard Odier, realizada em parceria com a CoreData. O estudo mostra que os novos detentores de grandes patrimônios não estão abandonando a filantropia das gerações anteriores, mas querendo torná-las mais estratégica, mensurável e integrada à gestão de suas fortunas.

O levantamento ouviu 260 indivíduos com ativos superiores a 1 milhão de francos suíços, na Suíça, em Singapura, nos Emirados Árabes Unidos e no Reino Unido. A pesquisa revela que 80% dos entrevistados enxergam um alinhamento entre as gerações nas principais motivações para doar. A vontade de retribuir à comunidade e à sociedade permanece como a principal força em todos os mercados, citada por 42% dos participantes. Em entrevista exclusiva à Forbes, o Head Global de Filantropia do Grupo Lombard Odier, Dr. Maximilian Martin, afirma que a mudança não representa uma ruptura com os valores dos antecessores. Para ele, a nova geração aborda a generosidade com a mesma disciplina analítica aplicada ao mundo dos negócios.

Na prática, a transformação não está no motivo pelo qual se doa, mas na maneira como o capital é estruturado, administrado e cobrado em relação aos resultados práticos. Entre os integrantes da nova geração, 27% apontam a inovação como prioridade, ante 13% da geração anterior, enquanto o interesse por medição e métricas de impacto é três vezes maior.

O movimento também ocorre em um momento em que os fluxos filantrópicos transfronteiriços de 47 países — 83% do PIB mundial — já atingem cerca de US$ 82 bilhões anuais (R$ 439 bilhões). Ao mesmo tempo, em mercados maduros, a base tradicional de doadores de classe média vem encolhendo em ritmo acelerado, concentrando a responsabilidade pelas causas sociais e ambientais em um número cada vez mais restrito de famílias de grandes fortunas.

Hoje, os jovens milionários estão abandonando o aquele modelo baseado apenas no envio esporádico de cheques para adotar uma lógica de resolução sistêmica de problemas.

“A proposta da filantropia, as causas e a ideia de devolver à sociedade continuam as mesmas, mas a maneira como se executa está se tornando muito mais sofisticada”, diz Martin. Segundo o especialista, a nova geração passa a enxergar a filantropia como parte de uma arquitetura financeira e familiar mais ampla, que pode combinar diferentes formas de direcionar capital para gerar impacto social.

“Pensar a filantropia hoje não é apenas realizar doações; é também compreender toda essa lógica do capital stack, ou seja, utilizar outros instrumentos como investimentos de impacto. Queremos criar valor público e, às vezes, a doação é a forma perfeita para isso, mas, em outras situações, é necessário investir”, afirma Martin.

A mudança ocorre em paralelo à redução da base tradicional de doadores em alguns dos principais mercados filantrópicos, ampliando o peso das grandes fortunas nas doações. No Reino Unido, por exemplo, o volume total de doações beneficentes sofreu uma queda, passando de £ 15,4 bilhões em 2024 para £ 14 bilhões em 2025. Esse é o primeiro declínio financeiro registrado desde 2021.

De acordo com levantamento da Charities Aid Foundation, a sociedade britânica perdeu cerca de seis milhões de doadores individuais na última década. Isso acumulou uma perda estimada de £ 12,4 bilhões em receitas que deixaram de ser destinadas a causas sociais.

Nos Estados Unidos, segundo o relatório Giving USA 2026, grandes doadores destinaram, juntos, US$ 22 bilhões (R$ 117 bilhões) em um único ano, enquanto o país registrou queda na capacidade de manter doadores de renda média.

Na Suíça, reconhecida como uma das praças filantrópicas mais sofisticadas do planeta, a transição geracional ocorre dentro de uma cultura de estabilidade. O país tem mais de 13.700 fundações de utilidade pública ativas — com uma concentração de 4.253 fundações nos cantões de língua alemã e mais de 1.300 no cantão de Genebra —, acumulando uma base de ativos superior a CHF 100 bilhões e distribuindo em torno de CHF 6 bilhões por ano ao financiamento de projetos e organizações sociais.

A pesquisa revela que 82% dos doadores suíços relatam total alinhamento intergeracional sobre os valores da doação. Além disso, 100% dos entrevistados no mercado suíço consideram a sustentabilidade de longo prazo dos projetos como um fator essencial, enquanto 98% exigem resultados mensuráveis.

“Na Suíça, temos um contexto de muita estrutura filantrópica, com fundações que possuem quase mil anos de história. A próxima geração reconhece a existência de um sistema que funciona e busca construir sobre essa base existente, modernizando o modelo por dentro sem perder a disciplina institucional”, analisa Maximilian Martin.

Já Singapura consolida sua posição como o centro da filantropia de tecnologia avançada e de alcance transfronteiriço na Ásia. Com mais de 2.400 entidades beneficentes registradas e 2.000 family offices estabelecidos até o final de 2024 — um crescimento de dez vezes em relação aos cinco anos anteriores —, a cidade-estado apresenta a maior taxa de adoção de soluções digitais do estudo.

Cerca de 35% dos doadores em Singapura utilizam portais de Donor-Advised Funds (DAFs), 43% acompanham seus investimentos por meio de painéis digitais de impacto e 28% empregam softwares especializados em filantropia.

A pesquisa mostra ainda que 28% dos entrevistados no mercado de Singapura citam o planejamento financeiro e a eficiência fiscal como motivações para doar — o índice mais elevado entre todos os países analisados.

O cenário nos Emirados Árabes Unidos reflete a transição de tradições religiosas para estruturas corporativas modernas de governança. O país se destaca no World Giving Report como a sétima nação mais generosa do mundo, ancorada nos preceitos do Zakat e da instituição do waqf (o modelo tradicional de doação perpétua de bens).

Somente em Dubai, a autoridade Awqaf Dubai supervisiona 1.294 fundos patrimoniais que somam AED 13,5 bilhões em ativos, incluindo 251 fundos familiares avaliados em AED 4,8 bilhões.

Porém, a região apresenta o maior nível de informalidade nas discussões familiares. “Nos Emirados Árabes, observamos que 22% afirmam que a filantropia não é discutida formalmente nos conselhos de família, mas 57% da nova geração deixam claro que desejam uma atuação mais estratégica, exigindo um trabalho de aconselhamento para estruturar essa governança”, explica Martin.

No Reino Unido, as doações são apoiadas por um ecossistema de 185 mil organizações beneficentes registradas e mais de 12,7 mil fundações que gastam anualmente £ 99 bilhões. Em torno de 86% dos doadores britânicos priorizam o impacto local e comunitário.

Apesar dos dados positivos, há um gargalo no mercado do Reino Unido. Embora 80% dos doadores manifestem o desejo explícito de colaborar com outros filantropos, ONGs ou governos, apenas 8% conseguem efetivamente concretizar os projetos. Não por acaso, 72% dos entrevistados britânicos afirmam necessitar de auxílio especializado para facilitar processos de colaboração e estruturação institucional.

Para o Head de Filantropia do LO, há cinco obstáculos que travam a colaboração.

O primeiro é a construção da confiança interpessoal e de valores. O executivo explica que, mesmo que os doadores compreendam intelectualmente a necessidade de somar recursos para alcançar escala, eles exigem a certeza absoluta de que os parceiros compartilham do mesmo alinhamento.

Quando o doador atua dentro de seu círculo social imediato, a confiança já está dada, mas esse grupo restrito raramente compartilha do interesse pelas mesmas causas específicas. Martin explica que expandir esse círculo para além dos conhecidos tradicionais exige tempo e garantias que as estruturas atuais nem sempre oferecem.

O segundo pilar é o dilema do controle sobre os resultados. Isso porque a paixão da nova geração por enxergar a transformação gera um desejo de manter as rédeas do projeto. No momento em que outros fatores entram na equação financeira, o doador original sente que perde o controle direto sobre a execução e sobre a mensuração do impacto final.

O terceiro aspecto está no desalinhamento de expectativas. Segundo Martin, alinhar o papel da doação dentro das expectativas individuais do jovem filantropo com a cultura da sua própria família já representa um desafio. Quando se tenta harmonizar as expectativas de diferentes conselhos de gestão em um projeto conjunto, a complexidade operacional e psicológica se multiplica.

O quarto obstáculo envolve a busca por reconhecimento e o protagonismo da liderança. Em projetos que alcançam sucesso, é comum que todos os participantes queiram compartilhar o crédito público. Porém, nas fases iniciais de risco, quando o modelo ainda não foi comprovado e exige capital pioneiro, poucos se dispõem a dar o primeiro passo.

O quinto entrave é em relação à infraestrutura. A nova geração, alfabetizada no ambiente digital, exige novas plataformas, redes e ferramentas tecnológicas que permitam mapear quem está fazendo o quê, verificar a idoneidade dos projetos e compartilhar dados de desempenho em tempo real com total transparência.

Para solucionar isso, Martin defende a criação de pequenos ecossistemas de aprendizagem entre pares antes da alocação do capital. “Existe uma vontade genuína dos jovens em trabalhar uns com os outros. O surgimento de novas plataformas digitais e a criação de círculos restritos onde as pessoas aprofundam a confiança mútua permitirão dar o passo seguinte para construir iniciativas filantrópicas conjuntas de grande impacto”, ressalta o executivo.

A maior cobrança por dados e resultados também abre uma discussão sobre os limites da mensuração de impacto e o papel da inteligência artificial na filantropia. Ou seja, se a busca por indicadores cada vez mais precisos pode acabar deixando em segundo plano causas sociais cujos resultados são mais difíceis de medir.

Martin afirma que há diferentes visões no setor. De um lado está o chamado “altruísmo eficaz “, abordagem que prioriza intervenções com resultados mensuráveis, buscando direcionar recursos para onde eles possam produzir maior impacto. De outro, estão modelos de filantropia comunitária, nos quais fatores como conhecimento local, vínculos com as comunidades e necessidades específicas de cada território também influenciam a destinação dos recursos.

A discussão ganhou uma nova dimensão com o avanço da IA. Durante a conferência Impact Week, em Singapura, que reuniu oito mil participantes, e em encontros com lideranças do Vale do Silício, Martin afirma ter ouvido previsões de que novas tecnologias poderiam reduzir a necessidade de intermediação humana nas fundações.

Entre as possibilidades discutidas estão o uso de modelos de inteligência artificial para selecionar projetos, acompanhar resultados e analisar a aplicação dos recursos.

O especialista rejeita a visão de que a tecnologia possa substituir o discernimento humano. “O valor agregado do ser humano em relação à máquina é a empatia e a capacidade de se interessar pelo outro. Um modelo de inteligência artificial é puramente analítico. A filantropia é o casamento perfeito entre a paixão humana e a análise técnica para transformar a realidade”, conclui Martin.

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