brasileiros contam como é trabalhar em países onde o modelo já é ilegal — Fim da escala 6x1
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Consulte formatos e valores disponíveisFim da escala 6x1: brasileiros contam como é trabalhar em países onde o modelo já é ilegal Experiências de trabalhadores em países como Finlândia e Noruega mostram como a cultura local equilibra produtividade, descanso e qualidade de vida - o conhecido 'work-life balance' André Moreira Forni, publicitário brasileiro, com a família na Finlândia. Ele trocou São Paulo por Helsinque, capital finlandesa, em 2021 (André Forni/Divulgação)
Publicado em 17 de outubro de 2026 às 08h01 .
Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Escala 6x1 Saiba mais “Existe um real respeito pelo balanço entre trabalho e vida pessoal aqui na Finlândia”, diz André Moreira Forni, publicitário brasileiro que trocou São Paulo por Helsinque, capital finlandesa, em 2021 . Aos 39 anos, ele deixou o Brasil com a esposa e a primeira filha para assumir o cargo de diretor de arte em uma empresa de jogos digitais, em busca de melhores oportunidades profissionais e mais qualidade de vida.
A mudança trouxe uma nova perspectiva sobre a relação com o trabalho.
“No trabalho, se cobra produtividade e ação, mas, a partir das 16h30, todos começam a sair. Todos entendem a importância de se ter uma vida pessoal funcional”, afirma.
A experiência do brasileiro ganha relevância em um momento de mudanças no mercado de trabalho nacional. Nesta quarta-feira, 14 de outubro, o Senado Federal aprovou a proposta que prevê o fim da escala 6x1 no Brasil , modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de expediente para ter apenas um de descanso.
O texto prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas , com dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial. A aprovação, no entanto, não significa que as novas regras já estejam em vigor. A proposta ainda precisa concluir as etapas legislativas necessárias para sua implementação.
Enquanto o Brasil discute como reorganizar a jornada de milhões de trabalhadores, países europeus já adotam há décadas modelos com maior proteção ao descanso, jornadas mais curtas e políticas de conciliação entre vida pessoal e profissional.
Mas como é, na prática, trabalhar em um país onde ter dois dias de descanso por semana é parte da cultura profissional? E o que essas experiências podem ensinar ao Brasil?
Finlândia, Noruega, Suécia e Dinamarca são frequentemente citadas como referências em qualidade de vida e proteção aos trabalhadores. Nesses países, as jornadas convencionais geralmente variam entre 35 e 40 horas semanais, com regras de descanso e acordos coletivos que influenciam a organização do expediente.
A diferença, segundo Luciana Veloso Baruki, advogada, médica e auditora fiscal do trabalho há 17 anos , não está apenas no número de horas trabalhadas, mas na maneira como empresas e governos enxergam a relação entre produtividade e bem-estar.
“Minha experiência como auditora fiscal e médica reforça que o trabalho precisa ser visto como um elemento de realização, e não de adoecimento. Esse equilíbrio deve ser promovido por políticas públicas e pela conscientização das empresas sobre os riscos de insistir em jornadas desumanas”, afirma.
Na Noruega , por exemplo, a legislação prevê, como regra geral, pelo menos 35 horas consecutivas de descanso semanal. Por lá apenas 1% dos empregados trabalham jornadas muito longas, abaixo da média da OCDE.
Faz parte dos 99% Camilla Wirtti , de 41 anos, agente administrativa, e a mineira Raquel Fernandes Batista Araújo , de 46 anos, vice-presidente global de Comunicação, Marketing e Engajamento da Scatec.
Em momentos diferentes da vida, elas trocaram o Brasil pela Noruega e descobriram uma cultura de trabalho que coloca o tempo livre, a família e a qualidade de vida no mesmo patamar da produtividade.
"Na Noruega, o trabalho faz parte da vida. Ele não é a vida”, diz Camilla.
Recém-formada, Camilla chegou à cidade de Stavanger em 2007. O plano era permanecer apenas um ano.
Ela queria viver uma experiência internacional que fosse além do turismo. Queria aprender um novo idioma, conhecer outra cultura e entender como funcionava o cotidiano em outro país.
Dezenove anos depois, continua morando na Noruega, casou e teve filhos.
Um dos aspectos que mais mudou sua percepção sobre trabalho foi justamente a rotina dos escritórios.
"Não é incomum que quem trabalha em escritório termine o expediente entre 15h e 16h. Isso faz uma diferença enorme na rotina das famílias."
Segundo ela, o horário permite buscar os filhos na escola, levá-los às atividades extracurriculares e ainda participar dos chamados dugnads , mutirões voluntários organizados por escolas, clubes esportivos e associações locais.
"Na prática, muitas dessas atividades simplesmente não funcionariam sem a participação dos pais."
A diferença entre Brasil e Noruega também aparece na organização do dia.
Camilla Wirtti com a família na Noruega: família chegou à cidade de Stavanger em 2007. O plano era permanecer apenas um ano (Arquivo pessoal/Divulgação)
Enquanto no Brasil Raquel saía do escritório às 18h30 para conseguir buscar as filhas na creche antes do fechamento, na Noruega praticamente todas as famílias encerram o expediente muito mais cedo.
"As creches normalmente fecham às 16h30. Isso faz com que praticamente todo mundo saia do trabalho entre 15h30 e 16h."
Segundo ela, o próprio sistema foi desenhado para que as pessoas tenham tempo para cuidar da família e da casa.
Raquel Fernandes Batista Araújo, de 46 anos, vice-presidente global de Comunicação, Marketing e Engajamento da Scatec: "As creches normalmente fecham às 16h30" (Arquivo pessoal /Divulgação)
“Na Finlândia, você aprende que a vida não gira em torno do trabalho, e isso muda tudo.”
Foi com essa percepção que a designer brasileira Jane Vita , de 47 anos, passou a enxergar a própria carreira de outra forma. Após mais de duas décadas de experiência e idas e vindas entre Brasil, Canadá e Europa, ela voltou a Helsinque pela terceira vez, agora com três filhos e uma nova leitura sobre o que significa qualidade de vida.
A escolha não é isolada. Um estudo da ONU divulgado nesta quinta-feira, 19, colocou, pela 8ª vez consecutiva, a Finlândia no topo do ranking dos países mais felizes do mundo , uma liderança que se sustenta por fatores que vão além da renda: confiança nas instituições, segurança, acesso à educação e, principalmente, equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
“Mesmo em um momento de transição, em todos os meus trabalhos aqui, pude vivenciar uma cultura forte de work-life balance. Existe um respeito genuíno pelo tempo pessoal, o que permite maior comprometimento com a vida fora do trabalho, o que impacta diretamente o bem-estar”, afirma Vita.
Isso não significa que trabalhar seis dias em uma semana seja automaticamente ilegal em todos esses países. A legislação europeia estabelece períodos mínimos de descanso, mas permite diferentes formas de distribuição dos dias trabalhados. A principal diferença está nas garantias legais, na negociação coletiva e na predominância de jornadas organizadas em cinco dias.
Para Baruki, o debate sobre a jornada deve considerar também os impactos sobre a saúde dos profissionais. Ao longo de sua atuação na fiscalização de situações de assédio e riscos psicossociais, a especialista identificou como jornadas extensas e cobranças excessivas podem contribuir para o adoecimento dos trabalhadores.
“Esses riscos estão diretamente ligados a doenças ocupacionais que poderiam ser evitadas com práticas mais humanizadas”, afirma.
Jane Vita, de 47 anos, vive na Finlândia: "Vivencio uma cultura forte de work-life balance" (Arquivo pessoal /Divulgação)
Na União Europeia, a Diretiva 2003/88/CE estabelece um período mínimo de 24 horas consecutivas de descanso semanal, acrescido, em regra, de 11 horas de descanso diário, totalizando ao menos 35 horas consecutivas de descanso semanal.
“Isso torna a prática da escala 6x1 praticamente impossível em muitos países membros”, diz Baruki.
A diretiva também estabelece um limite médio de 48 horas semanais de trabalho, incluindo horas extras, calculado dentro de períodos de referência definidos.
As regras não proíbem universalmente a escala 6x1 . Ainda assim, a combinação entre legislação nacional, convenções coletivas e práticas empresariais faz com que a semana convencional de cinco dias seja predominante em diversos países europeus.
Além dos países nórdicos, outras economias têm experimentado formatos de trabalho que vão além da tradicional jornada de cinco dias.
Entre 2015 e 2019, a Islândia realizou experimentos de redução da jornada semanal, sem diminuição salarial, envolvendo trabalhadores de diferentes setores. Os resultados apontaram melhora no bem-estar, redução do estresse e manutenção ou crescimento da produtividade em diversos ambientes de trabalho.
Os testes contribuíram para ampliar negociações coletivas sobre jornadas menores no país, embora não tenham estabelecido uma semana obrigatória de quatro dias para todos os trabalhadores.
Na Nova Zelândia , empresas também passaram a experimentar voluntariamente modelos de 4 dias de trabalho, com foco em produtividade, satisfação e retenção de profissionais.
“Esses países oferecem uma visão de como o futuro do trabalho pode ser transformador, priorizando tanto a saúde mental quanto o desempenho”, afirma Baruki.
As experiências mostram que reduzir a jornada não significa necessariamente reduzir a produção. Os resultados, porém, dependem de fatores como setor econômico, organização das equipes, tecnologia e gestão das atividades.
Enquanto parte da Europa avança em modelos mais flexíveis, países asiáticos enfrentam desafios relacionados ao excesso de horas trabalhadas.
Na China, o chamado modelo 996 , caracterizado pelo expediente das 9h às 21h, seis dias por semana, tornou-se símbolo de jornadas excessivas, especialmente no setor de tecnologia.
Embora esse regime contrarie os limites legais de jornada e horas extras do país, a prática ganhou notoriedade por sua associação à cultura de trabalho intensivo.
“Na Índia, a informalidade e as dificuldades de fiscalização também contribuem para jornadas prolongadas em determinados setores”, diz Baruki.
Já o Japão enfrenta há décadas o problema do karoshi , expressão utilizada para designar mortes associadas ao excesso de trabalho. O país adotou medidas para limitar horas extras e incentivar mudanças na cultura corporativa.
Para Baruki, as diferentes experiências internacionais demonstram que a discussão sobre jornada vai além de uma simples alteração na legislação.
“Os exemplos globais deixam claro que o futuro do trabalho depende de uma mudança cultural e legislativa, que priorize o bem-estar dos trabalhadores sem comprometer, claro, a competitividade econômica”, afirma.
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