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Hoje, só resta a areia

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Consulte formatos e valores disponíveisEm 1908, os alemães estavam concluindo aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20. O pouco lembrado massacre dos hereros e dos namas deixou cerca de 75 mil mortes e teria servido como um treino para o Holocausto.
O Império Alemão controlava o Sudoeste Africano Alemão, colônia que hoje corresponde à Namíbia, desde 1892. Em quatro anos, os germânicos exterminaram 80% dos hereros em marchas da morte e outras atrocidades.
Somente no campo de concentração da Ilha do Tubarão, cerca de 3 mil pessoas foram mortas. Não à toa, o local também era conhecido como Ilha da Morte.
Pouco após o fechamento do campo, a apenas 10 quilômetros, um trabalhador namibiano deu início a um novo capítulo da colonização alemã no país. É uma história sem os traumas do genocídio, mas também efêmera e pouco conhecida, perdida nas areias do deserto. Começou com base na tremenda sorte, e também no talento, desse homem misterioso.
Reprodução kolmanskop.de Zacharias Lewala trabalhava na companhia ferroviária que atendia a região. Em um dia qualquer, varrendo os trilhos e afastando a areia incessante que cobria os dormentes, ele visualizou umas pedrinhas incomuns.
Lewala tinha experiência. Havia trabalhado em uma mina de diamantes na Colônia do Cabo (na moderna África do Sul), então ele suspeitava que aquilo era relevante.
Ele mostrou ao patrão, o alemão August Stauch, que também entendia um pouco do assunto. Stauch disse aos outros trabalhadores para ficarem de olho no chão e não perdeu tempo: tratou de comprar os direitos de mineração na área.
Zacharias Lewala Imagem: Wikimedia Commons Infelizmente, pouco se sabe a respeito de Lewala. Sumiu no horizonte, talvez com alguns diamantes no bolso.
Um mês depois, a febre dos diamantes já era realidade. A região atraía homens atrás das pedras, e uma nova cidade brotou.
Kolmanskop cresceu assim, graças ao trabalho de pessoas que rastejavam lentamente, com panos cobrindo o rosto, à procura da sorte grande. Eles caçavam diamantes deitados sobre a terra, pois nem era preciso cavar: uma sucessão de eventos geológicos fez com que a mina ficasse logo abaixo da superfície, e não a centenas de metros de profundidade.
Era preciso oferecer o necessário, pois ninguém podia sair da Sperrgebiet ("área proibida"), criada para restringir a exploração a apenas cinco empresas. Ao final do contrato, o trabalhador tinha que encarar uma novidade tecnológica, o aparelho de raio X. Caso os supervisores encontrassem algo suspeito, o sujeito era convidado a tomar um laxante, a fim de liberar possíveis pedrinhas escondidas.
Kolmanskop, 1914 Imagem: Reprodução Essa era uma das demonstrações de opulência do local. Os engenheiros alemães tinham à disposição praticamente tudo que o dinheiro permitia para viverem no deserto mais antigo do mundo — inclusive um arcaico ar-condicionado.
Todas as manhãs, uma merceeira passava distribuindo pães, limonada, água e blocos de gelo, que eram colocados em compartimentos refrigerados. Um sistema de dutos soprava o ar sobre esse compartimento e o transportava aos cômodos vizinhos.
A lista de produtos dessa merceeira mostrava que ela não administrava um simples armazém de secos e molhados. Vendia também champanhe, caviar e produtos típicos alemães — e era paga, às vezes, em diamantes.
Kolmanskop tinha entretenimento de sobra. Cassino, boliche, academia de ginástica, salões de champanhe para as damas e de charutos para os cavalheiros, espetáculos circenses e de ópera. Tudo em salões art nouveau extravagantes.
Carrossel no festival infantil de 1919 Imagem: Reprodução A maioria dos negócios pertencia ao próprio Stauch. Sua companhia construiu até uma usina elétrica em Lüderitz, onde hoje funciona o Museu Marítimo da Namíbia, o maior do tipo na África.
Para alimentar a usina, a empresa importava carvão do Reino Unido. Praticamente tudo, na verdade, era importado. Os materiais para a construção das casas, do piso às portas, eram italianos. Água potável vinha da Cidade do Cabo.
A cidade podia ficar no meio do deserto, mas até a areia era alemã. Não era frescura, mas uma particularidade da construção civil: como a areia local tinha mais sais, as paredes feitas com ela tendiam a ser mais quebradiças, segundo o jornalista de viagem e historiador David Bowan.
Ao longo de quatro anos, Kolmanskop produziu 5,5 milhões de quilates de diamantes, 20% do total do planeta. Isso fez dela, possivelmente, a cidade mais rica do mundo, por um curto período.
Adobe Stock Durante a Primeira Guerra (1914-18), a produção começou a cair. O Império Alemão foi derrotado no conflito e perdeu suas colônias. Em 1915, a União Sul-Africana, domínio britânico que antecedeu a África do Sul, assumiu o controle do Sudoeste Africano.
Mas a vida pouco mudou em Kolmanskop. A libra esterlina substituiu o marco alemão, porém aquelas pessoas diretamente ligadas à exploração de diamantes permaneceram, e os sul-africanos não interferiram.
Só que a descoberta da maior mina de diamantes do mundo, 270 quilômetros ao sul, próxima do Rio Orange, sacramentou o destino de Kolmanskop, em 1928. A produção seguiu sua lenta decadência até terminar de vez, dez anos depois. Maquinários e trabalhadores migraram para outra mina, Elizabeth Bay, mas muitos moradores permaneceram em Kolmanskop.
Eles ficaram ali até 1956, quando a água deixou de ser entregue, o hospital fechou as portas e as duas famílias que ainda insistiam em não se mudar foram embora de vez. O silêncio cobriu a cidade, e a areia começou a engoli-la.
Wirestock/Getty Images/iStockphoto Hoje, Kolmanskop é uma atração turística. Visitantes podem ver a estrutura preservada das casas parcialmente soterradas, que mantêm o estilo arquitetônico dos anos 1910.
O cenário inspirou fotógrafos e artistas. Já apareceu em capa de disco do Tame Impala e na série "Fallout".
A área proibida agora é de administração da Namdeb, empresa estatal namibiana de exploração de diamantes. Isso adiciona uma camada de preservação a uma região que, por incrível que possa parecer, tem muita biodiversidade.
É possível conhecê-la, mas você precisa planejar com antecedência e pagar o ingresso de visita ao local, que hoje funciona como um museu a céu aberto.
Kolmanskop durou 48 anos, e só uma fração disso foi de prosperidade real. Seu papel mais duradouro é o de cidade fantasma, algo que está ligado à sua própria origem.
"Kolmanskop" significa "pico de Kolman", em africâner. Teria recebido esse nome em referência a um certo Kolman, que abandonou sua carroça de bois naquele local após ter sido pego por uma tempestade de areia.
Em Kolmanskop, nem os diamantes são eternos. Só o abandono.
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