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Atualização: Sem título

Uma raiz de ginseng o resgatou

Por Redatores da Empire Cidades 22 de outubro de 2026 às 23:15
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Craig Thompson vive de desenhar quadrinhos há mais de 25 anos. Mesmo assim, acha que isso não é trabalho de verdade. "Eu carrego a culpa", escreve ele logo no começo de "Raízes de Ginseng", que a Quadrinhos na Cia lançou neste mês. "Quando vão descobrir que sou um caipira impostor saído da roça?"

Não é falta de reconhecimento. Thompson, 51, é o autor de "Retalhos" (2003), a memória gráfica sobre adolescência, fé e primeiro amor que ganhou os prêmios Eisner e Harvey, os mais importantes dos quadrinhos americanos, e foi eleita pela revista "Time" a melhor graphic novel do ano. Depois veio "Habibi" (2011), fábula de 672 páginas ambientada num Oriente Médio imaginário.

Embora tenha lhe rendido outro Eisner, a HQ recebeu críticas por apropriação cultural. Seu trabalho seguinte, o infantojuvenil "Space Dumplins", não emplacou. "Aquele livro foi um fracasso. Foram quatro anos de trabalho, quatro meses de turnê e não rendeu um centavo", diz em uma das páginas, que ilustra a diferença em dois quadros: na turnê de 2011, um teatro lotado; na de 2015, cadeiras vazias numa livraria. "Essa vida é insustentável. Mas quais aptidões eu teria para outra carreira?"

A resposta veio de um acidente. Em abril de 2011, com "Habibi" recém-enviado para a gráfica, Thompson viajou de férias com a namorada para a China. Durante a viagem, caiu sobre a mão de desenhar. Para a dor, comprou um spray. O ingrediente principal era ginseng.

Foi como se a planta o chamasse de volta. Dos 10 aos 20 anos, Thompson e seu irmão, Phil, passaram os verões capinando, catando pedras e colhendo ginseng em Marathon, cidade de pouco mais de mil habitantes no Wisconsin que era o maior polo produtor da variedade americana da raiz, a mais valorizada pela medicina chinesa. Ganhavam um dólar por hora —e usavam o dinheiro todo para comprar gibis de super-heróis.

Na prancheta de desenho, Craig Thompson recebe o "chamado" da raizinha antropomórfica Imagem: Divulgação/Quadrinhos na Cia

No livro, a ideia ganha corpo, literalmente. Uma raizinha de ginseng com olhos arregalados e bracinhos de raiz salta para dentro dos quadros e manda o autor voltar para o lugar de onde veio. Ela aparece em quase todas as páginas a partir daí. "Era impossível evitar a raiz antropomorfizada", disse Thompson a um site britânico, "porque há muitas lendas chinesas de raizinhas que ganham vida".

A queda também deixou uma conta. A lesão disparou um problema que ele detalha nas notas do livro: fibromatose, contratura de Dupuytren, artrite, cistos sinoviais e, provavelmente, uso excessivo. Piorou a cada ano. Hoje, diz em entrevista ao UOL , as duas mãos estão piores do que nunca, e a dor tira o sono. "Mas não é o desenho que está mais ameaçado. Eu escalava, não escalo mais. Surfava, não surfo há muitos anos. Carregar compras ficou difícil. Desenhar, não."

Curiosamente, o problema da mão ficou de fora quando "Raízes" foi serializado em 12 revistas de quadrinhos, lançadas entre 2019 e 2024. Só ao reler tudo em sequência, para a versão em graphic novel, é que Thompson percebeu que faltava um fio. "Eu resistia. Não queria uma narrativa de coitadinho." Mas mudou de ideia e as dores e tratamentos acrescentaram 60 a 70 páginas à obra, que totaliza 448. "Todo mundo tem alguma coisa, alguma crise de saúde, pequena ou enorme", admite.

Thompson volta à infância em "Raízes de Ginseng" e lembra dos verões trabalhados na lavoura de ginseng da família, no Wisconsin Imagem: Divulgação/Quadrinhos na Cia.

Para seguir o conselho da raiz, Thompson volta no tempo. O livro revisita os verões dos anos 1980 com tudo o que tinham de bom e de ruim.

O lado bom tem graça. O primeiro patrão dos irmãos se chamava Marvel, "algo inacreditável, já que nossos ganhos iam para a editora de mesmo nome", escreve. Ao UOL , ele lembra as primeiras revistinhas compradas com o dinheiro da colheita do ginseng: "Era coisa de criança. A Marvel tinha uma linha infantil baseada nos desenhos de sábado de manhã. Comecei pelos Ewoks."

O outro lado pesa mais. A família se lembra de jornadas de 13 horas. As crianças chegavam de manhã logo depois da pulverização, com a névoa do produto ainda no ar: "Nós enfiávamos o nariz na camiseta para não engasgar durante o trabalho". Um dos fazendeiros diz no livro que não contratava crianças, mas abriu exceção para os irmãos Thompson. O quadro completa: "Mas a pobreza é motivadora."

É o mesmo terreno de "Retalhos", visto por outro ângulo. Nele, a lavoura ficou quase de fora, e quem cobra isso é Phil. Numa conversa reproduzida no novo ilvro, o irmão diz que achou algumas coisas exageradas quando "Retalhos" saiu, mas que, olhando para trás, Craig tinha atenuado os detalhes. "Você deixou tanta coisa de fora... Por exemplo, essa parte tão imensa da nossa infância: trabalhar na lavoura." E explica por que o livro anterior importa para ele: "Ele preserva algumas das memórias antes que elas definhem e virem fumaça."

Desta vez, os pais também participaram. Em "Retalhos", Thompson escondeu deles que estava fazendo o livro, "por medo de que a desaprovação deles me paralisasse". Em "Raízes", todos foram gravados e leram as falas antes da publicação. A mãe desconfiou logo: "Você não vai botar isso num livro, vai?" Ninguém pediu corte, e só houve um atrito. "Minha mãe disse: eu nunca falei isso. Mas, claro, eu tinha a gravação." A frase "a aposentadoria é contra a Bíblia" é dita por ela na ocasião em que o pai decide para de trabalhar. "Entrou no livro, óbvio." Os pais deram a bênção, mas, segundo ele, "teriam preferido que fosse só sobre fazenda e ginseng".

A mãe de Craig Thompson, em um dos únicos diálogos questionados no quadrinho Imagem: Divulgação/Quadrinhos na Cia

"Retalhos" foi feito de memória e diálogos reimaginados. "Raízes" foi feito de gravações. Ao longo de oito anos, Thompson entrevistou oficialmente 80 pessoas: os fazendeiros que o empregaram aos 10 anos, agrônomos, distribuidores, refugiados hmong (povo das montanhas do Laos que lutou ao lado dos EUA na Guerra do Vietnã), produtores na Coreia do Sul e na China. Menos da metade chegou às páginas finais. "Eu passava um mês transcrevendo uma entrevista e depois descartava, porque não era o que a narrativa pedia. Você deve lidar com isso o tempo todo como jornalista."

O modelo foi Joe Sacco, autor de "Palestina" e de outras reportagens em quadrinhos, que assina a frase de capa da edição brasileira. Thompson faz questão de marcar a distância: "Ele é formado em jornalismo e vai para zonas de guerra. Eu gravava as entrevistas no aplicativo de notas de voz do celular."

De Sacco, guardou duas regras. A primeira: transcrever tudo pessoalmente. "É nas horas, dias e meses digitando as notas que as cenas importantes aparecem." A segunda: acertar cada detalhe histórico. Para os capítulos sobre a guerra do Vietnã e os combatentes hmong recrutados pelos EUA, ele diz ter lido um livro inteiro para desenhar um único quadro. "Armas e veículos não me interessam nem um pouco. Mas sempre vai existir um entendido de história que fica furioso se você desenha o fuzil errado."

A memória familiar é só o começo. Thompson puxa a raiz e vem junto o mundo inteiro.

Tem a história do comércio, mais antigo que os próprios EUA: em 1709, um jesuíta francês a serviço do imperador chinês ganhou uma raiz que não conhecia; em 1784, o primeiro navio americano a negociar com a China zarpou com ginseng no porão. "Talvez não existissem os EUA sem o ginseng", provoca o autor no livro. Tem a indústria de hoje, com produtores como a empresa da família Hsu, fundada por um imigrante taiwanês e hoje a maior operação do país, e a sucessão de quem fez o trabalho pesado: famílias, crianças como ele, refugiados hmong, trabalhadores mexicanos. Tem a medicina chinesa, que Thompson experimenta na pele com o acupunturista Justin Penoyer, depois que uma médica lhe recomenda cirurgia na mão. E tem as lendas, como a de Shennong, o "fazendeiro divino" que, segundo a tradição, inventou o arado e ensinou o povo a semear.

O cuidado chega à letra. Como em "Habibi", em que entrelaçou caligrafia árabe às páginas, Thompson enche "Raízes" de caracteres chineses e coreanos. O ? da família Hsu aparece carimbado nos galpões. Placas de rua são reproduzidas sinal por sinal. Uma página inteira desmonta o caractere de ginseng (?, sh?n): em cima, "os três soberanos do alto", que são também as três estrelas de Órion; no meio, o caractere de "humano"; embaixo, "três 'cabelinhos' que se entocam", os bigodinhos da raiz.

Ele aprendeu a língua? "Não. No livro, eu só copiei desenhando por cima." Com o árabe tinha sido parecido: aprendeu o alfabeto, mas nunca leu com fluência. Nos dois casos, trabalhou com revisores fluentes. "Até hoje ninguém me apontou um erro. Mas isso atrasou o processo. Quando eu desenhava uma rua lotada na China, tinha que ser meticuloso copiando as placas, justamente porque não leio chinês." Até a cor tem origem: o preto, o branco e um único vermelho vêm da xilogravura chinesa. É também o vermelho da propaganda maoísta e das bagas do ginseng no fim do verão.

Escrever sobre a cultura chinesa era justamente o que Thompson temia. Depois de "Habibi", acusado de usar um Oriente Médio de fábula sem conhecê-lo, ele ficou "muito relutante em escrever sobre outra cultura de novo". O projeto do ginseng ficou na gaveta por cinco anos.

O livro conta essa parte com menos conforto do que a entrevista. A editora recusou a proposta: "Contar uma história com conteúdo asiático... não é o projeto mais seguro para você nesse momento". E mais: "Pode passar a imagem de um branco como explorador cultural." Na mesma época, ele descobriu que outra autora já tinha entrevistado os pais das famílias que queria retratar. "Meu livro já foi escrito." Thompson guardou o material, cancelou um convite oficial para ir a Pequim e começou outros livros que não andaram. Num quadro, curvado sobre a prancheta, resume: "Tudo que eu fizer vai ofender ALGUÉM."

O que o destravou foi perceber que a pergunta tinha outra ponta. "A questão era: você tem o direito de escrever sobre a cultura dos outros? E minha resposta foi: e quando ela se sobrepõe à sua? Eu cresci numa cidade minúscula cuja identidade inteira era o cultivo de ginseng. Quando criança, eu nem pensava no que era aquilo. Era um bico de verão."

A China, de todo modo, não terá edição do livro. "A primeira informação que recebi foi: não pode ser impresso nem publicado lá." O livro reconhece Taiwan e mostra Mao Tsé-tung. Sugeriram que ele cortasse as páginas; ele recusou. "Eu me arrepio um pouco com censura." Os leitores chineses o conhecem por outra via: numa das viagens, Thompson descobre um fã que escaneia seus quadrinhos e os revende na internet.

O empurrão final veio do irmão. "Passam nove meses, mas nenhuma página de quadrinho nasce", escreve Thompson. Aí chega o convite para um festival de quadrinhos na Coreia do Sul, e ele liga para Phil. A resposta vem na hora: "Sim, com certeza. Eu tenho uma folga no trabalho por agora. E a minha vida em Mineápolis anda... estagnada."

A viagem virou o clímax do livro. Os irmãos foram até Geumsan, centro milênar do cultivo de ginseng e cidade-irmã de Marathon, e depois à província chinesa de Jilin, na fronteira com a Coreia do Norte. Nos EUA, ninguém entendia o projeto. Lá, fazia todo sentido.

Numa sessão de autógrafos em Seul, uma leitora conta que "Retalhos" a ajudou a superar a morte do pai. No almoço, os anfitriões apresentam o conceito coreano de han (?): "são os sentimentos arraigados que você quer resolver". É a palavra que "Raízes de Ginseng" passa o livro todo procurando.

O Brasil também está no mapa. "Os quadrinhos me levaram ao Brasil, à Jordânia, à Rússia", escreve Thompson. Em outubro de 2009, ele veio lançar "Retalhos" no FIQ, festival de quadrinhos de Belo Horizonte, e numa sessão em São Paulo foi entrevistado no palco por Fábio Moon e Gabriel Bá. "Eles viraram grandes amigos. Adoro aqueles dois." Da viagem, guarda uma impressão que ele mesmo desconfia ter envelhecido: "Naquele momento, o Brasil parecia um lugar muito otimista. Imagino que não seja igual agora, porque o mundo inteiro desandou nesses 17 anos." E admite: "Estava no meu radar: se eu pudesse morar num lugar como o Brasil."

Pai do quadrinista sofreu um AVC após a publicação de "Raízes de Ginseng": "Documentei um momento no tempo", diz Imagem: Divulgação/Quadrinhos na Cia

No fim, "Raízes" funciona como as duas coisas: o caminho de volta aos quadrinhos e uma sessão de terapia em 448 páginas. Thompson diz isso sem rodeios. Numa das páginas mais fortes, sob o título "Por fim, psicoterapia", ele lista os tratamentos que tentou e escreve: "Antes eu achava que os quadrinhos tinham me salvado. Me salvado de uma vida na fábrica ou na fazenda, de morar numa cidadezinha. [...] Mas aí os quadrinhos destruíram meu corpo e minha alma." Cada resenha, conta, o lembrava de onde veio, "a classe baixa, tosca, marginal, operária e pobretona". E fecha com a imagem que dá nome ao livro: "A pessoa precisa construir seu lar com alicerces sólidos. Mas meus alicerces são uma lavoura barrenta cheia de pesticida, onde as plantas não vão crescer de novo."

A lavoura, aliás, mudou de novo. O livro termina antes da escalada tarifária de 2025 entre EUA e China, principal comprador do ginseng do Wisconsin. Perguntado sobre as pessoas que entrevistou, Thompson responde com um número. "Quando eu era criança, acho que havia 1.600 produtores na minha cidade. Na época em que fiz o livro, uns 180. Hoje está perto de 60. As tarifas praticamente varreram a indústria." Chua Vang, o fazendeiro hmong que protagoniza dois capítulos, saiu do ginseng. "Eu poderia fazer um outro livro inteiro só sobre o quanto mudou."

Isso, diz ele, o deixa grato. "Meu pai teve um AVC há três anos. Ele está bem, está vivo, mas ficou com afasia. Minha primeira reação foi culpa: talvez o estresse deste livro tivesse contribuído. Mas isso virou muito rápido uma gratidão por ter todas aquelas entrevistas gravadas, por ter desenhado páginas que capturaram a voz dele antes de ela ir embora. Sinto o mesmo em relação ao ginseng do Wisconsin. Eu documentei um momento no tempo."

E desenhar, afinal, é trabalho de verdade? Thompson não entrega uma resposta pronta. "Hoje, quando termino um livro, é como um parto. Nunca mais. Foi torturante demais. E aí passam alguns meses ou anos e você se pega querendo cavar tudo de novo." Primeiro foi a pandemia que fez todo mundo repensar o trabalho; agora, diz, é a inteligência artificial. "O que é trabalho humano diante dessa revolução? Tenho um pouco disso. Mas acho que também está me dando energia para encarar outro livro. Eu demoro para voltar à ação."

"Raízes de Ginseng", Autor: Craig Thompson. Tradução de Érico Assis. Quadrinhos na Cia, 448 págs. Preço sugerido R$ 159,90.

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