Atualização: Safra de Soja Corre Risco de Perdas de R$ 33 Bilhões e Acirra o Endividamento em 2027
Estudo inédito da Serasa Experian estima quebra potencial de 17,6 milhões de toneladas sob El Niño forte.

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Consulte formatos e valores disponíveisUma eventual quebra na safra brasileira de soja 2026/27 pode colocar R$ 33 bilhões em risco e ampliar a pressão financeira sobre os produtores rurais em 2027. O alerta faz parte do primeiro estudo da Serasa Experian dedicado ao dimensionamento dos impactos do clima sobre a produção agrícola, apresentado nesta terça-feira (27). Sob um cenário de El Niño forte, a colheita nacional pode cair de 181,2 milhões para 163,6 milhões de toneladas, uma retração potencial de 9,7%.
O risco climático chega em um momento de preocupação com o endividamento de parte do setor agropecuário. Uma redução na receita da colheita pode dificultar o pagamento de financiamentos, fornecedores e arrendamentos, sobretudo nas propriedades que já operam com elevado nível de alavancagem e pouca margem para renegociar compromissos.
Para Marcelo Pimenta, head de agronegócios da Serasa Experian, o impacto sobre a inadimplência dependerá da situação financeira de cada produtor e da região onde está instalada a lavoura. Propriedades mais expostas à quebra e com dívidas elevadas tendem a enfrentar maior pressão sobre o caixa.
O endividamento no crédito rural chega a R$ 205,46 bilhões, que representa 23,8% da carteira total de crédito do agro de R$ 864,24 bilhões, segundo os dados mais recentes do Banco Central, de agosto de 2026. Em agosto de 2025, a carteira problemática no agro era de R$ 140,9 bilhões, 17,1% da carteira de crédito agrícola de R$ 822,5 bilhões. No segundo trimestre de 2026, o agronegócio registrou 448 pedidos de recuperação judicial, de acordo com a Serasa Experian.
“De maneira geral, o que afeta a inadimplência é, durante dois, três ou quatro anos, não ter uma gestão adequada da fazenda do ponto de vista financeiro: estar muito alavancado e assumir arrendamentos com expectativas irreais de produtividade”, diz Pimenta.
Pimenta também destacou que a inadimplência corrente preocupa mais do que os pedidos de recuperação judicial, que representam uma etapa extrema da crise. “A inadimplência machuca mais do que a própria recuperação judicial. A RJ é a ponta final: ela machuca bastante o agro, mas estamos falando de um produtor pedir RJ a cada 10 mil que produzem”, disse.
O levantamento integra mais de 20 anos de mapeamento territorial da Serasa Experian, dados de produtividade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e séries do Índice Oceânico do Niño (ONI), utilizado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) para acompanhar os ciclos de aquecimento e resfriamento das águas do Pacífico.
A metodologia compara o desempenho da safra 2023/24, marcada por um El Niño severo, com o da temporada 2024/25, utilizada como referência de neutralidade climática. Essas informações são combinadas com a projeção de área plantada para 2026/27, calculada a partir do histórico de expansão agrícola e da disponibilidade territorial.
A Serasa Experian estima que a área brasileira de soja avance de 49 milhões para 49,9 milhões de hectares. Mantida essa extensão nos dois cenários, a produção chegaria a 181,2 milhões de toneladas em condições climáticas neutras. Sob um El Niño forte, o volume recuaria para 163,6 milhões de toneladas.
“Mesmo no cenário de expansão de área, o clima pode trazer desafios que apontem para uma produção em direção contrária. Uma lavoura maior não necessariamente significa uma safra melhor”, afirmou Daniel de Oliveira, gerente de geoprocessamento da empresa e líder técnico do estudo.
O especialista ressaltou que o levantamento não pretende antecipar de forma definitiva o resultado da temporada. “O que estamos fazendo aqui não é nenhuma previsão determinística de como vai ser a safra 2026/27, mas um exercício de dimensionamento de risco a partir de referências observadas em safras recentes”, explicou.
A estimativa de R$ 33 bilhões foi calculada multiplicando-se a diferença potencial de 17,6 milhões de toneladas pelo valor médio de aproximadamente R$ 1,88 mil por tonelada, obtido a partir do Valor Bruto da Produção (VBP) da soja utilizado pela empresa em agosto de 2026.
Os números do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ajudam a dimensionar a relevância econômica do risco calculado pela Serasa Experian. O VBP mede o faturamento bruto estimado das atividades agrícolas e pecuárias, com base na produção e nos preços recebidos pelos produtores.
Em setembro de 2026, o VBP da soja foi estimado em R$ 352,7 bilhões. Nesse contexto, os R$ 33 bilhões calculados pela Serasa Experian equivalem a aproximadamente 9,4% do valor projetado para a cultura.
A comparação com os anos anteriores também mostra a oscilação do faturamento da soja. Em 2023, o VBP da cultura foi de R$ 351,22 bilhões; em 2024, recuou para R$ 295,39 bilhões. Para 2025, a estimativa divulgada pelo Mapa em agosto daquele ano era de R$ 318,9 bilhões.
A análise territorial revela que o impacto potencial do El Niño não será distribuído igualmente entre as regiões produtoras. Mato Grosso aparece com uma redução estimada de 9,7 milhões de toneladas, enquanto Goiás pode registrar um déficit de 4 milhões de toneladas. Juntos, os dois estados concentram quase 80% da diferença nacional projetada.
Em Mato Grosso, a área estimada é de 12,7 milhões de hectares. No cenário neutro, a produção poderia alcançar 51 milhões de toneladas, contra cerca de 41 milhões sob El Niño forte. A principal preocupação passa a ser a regularidade das chuvas entre novembro e janeiro, período decisivo para o florescimento e o enchimento dos grãos.
O plantio havia alcançado 70% da área estadual na data da apresentação, após a normalização das chuvas em outubro. O avanço, contudo, não elimina o risco de períodos secos em fases críticas da lavoura.
Em Goiás, a diferença potencial chega a 4 milhões de toneladas. Segundo Oliveira, áreas de sequeiro, especialmente no norte e no leste do estado, estão mais expostas à irregularidade hídrica. Minas Gerais também aparece entre as regiões vulneráveis, com redução potencial de 1,5 milhão de toneladas.
No Rio Grande do Sul, o comportamento projetado é diferente. O modelo aponta possibilidade de aumento de 16 milhões para até 22 milhões de toneladas, um incremento de 5,5 milhões. Esse ganho, entretanto, não compensaria as perdas concentradas no Centro-Oeste.
Além disso, o excesso de precipitações pode trazer problemas para as lavouras gaúchas. “No Rio Grande do Sul, mais chuva não é automaticamente melhor. Se vier em excesso, podemos ter solo encharcado, dificuldades para colher e maior pressão de doenças fitossanitárias”, alertou Oliveira.
Até o momento, cerca de 40% da área nacional de soja foi semeada, segundo consultorias de mercado. Apesar do avanço do plantio em importantes regiões, a Serasa Experian considera necessário acompanhar a evolução das chuvas e das lavouras nos próximos meses.
O risco também pode alcançar a segunda safra de milho e o algodão, caso atrasos no plantio ou a necessidade de replantio reduzam a janela de cultivo. Esse possível efeito, entretanto, não foi quantificado no estudo, que se restringiu à soja.
Entre as medidas de mitigação estão a escolha de cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico, o escalonamento das datas de semeadura e investimentos em irrigação. Para a gestão financeira, o acompanhamento dos custos, do fluxo de caixa e do nível de endividamento também será fundamental.
“A gente não pode controlar o clima, mas a gente pode utilizar os dados para entender melhor os riscos e, com isso, aumentar a nossa capacidade de enfrentar esse tipo de problema”, afirmou Pimenta.
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