URGENTE
Voltar para a página inicial

Atualização: O ‘manual de segurança’ para encontros por aplicativos de relacionamento

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por TecMundo 17 de outubro de 2026 às 10:18
Via TecMundo
Atualização: O ‘manual de segurança’ para encontros por aplicativos de relacionamento
Foto: Foto: TecMundo
Compartilhar:WhatsAppX / TwitterFacebook
Espaço Publicitário · topo

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região

Consulte formatos e valores disponíveis

A relação da comunicadora Iara Rodrigues*, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento é marcada por uma profunda ambiguidade. Ao mesmo tempo que sente necessidade das plataformas para conhecer pessoas , a catarinense detesta o processo de se deparar com pretendentes no ambiente virtual. Ao longo dos anos, a jovem desenvolveu um complexo protocolo de segurança antes de aceitar ver pessoalmente qualquer rapaz com quem trocou mensagens.

“Quando percebo que a conversa no aplicativo está indo para a sugestão de um encontro presencial, l evo a pessoa para outra rede social , normalmente o Instagram . Acho o WhatsApp muito íntimo. É como se fossem etapas”, relata. Os passos de Iara incluem pesquisas no Google e no LinkedIn , escolha estratégica do figurino, uso de transporte em que a placa do carro não seja identificada e a checagem rigorosa do local do encontro , preferencialmente um food hall movimentado e que ela já conheça bem.

A experiência de Iara traduz um fenômeno coletivo: a necessidade de criar protocolos rígidos de segurança para conseguir encontrar pessoalmente quem conheceu na internet . Esse movimento é reflexo da migração das relações amorosas para o ambiente virtual (em busca de uma falsa sensação de segurança), combinada aos altos índices de violência de gênero que atingem o mundo físico.

A psicóloga e psicanalista Lívia Boaretto observa que os encontros românticos se transformaram em um “fator estressor” sistêmico para as mulheres , pois exigem o planejamento contínuo de estratégias de fuga e a conjectura de cenários trágicos antes de abrir a porta de casa:

“Como uma mulher pode ir para um relacionamento amoroso, que deveria ser algo leve e bacana, quando o primeiro encontro já se transformou em estresse? Acabamos tendo de nos resguardar tanto que nos fechamos para outras relações. Inevitavelmente, isso nos leva a ficar mais sozinhas”, analisa.

Falando dessa forma, penso que até que pode parecer paranoia. Porém, todo cuidado ainda é pouco. Escolho até a roupa no sentido de não ser algo muito ‘uau’. É horrível, mas é como se todos os passos até chegar ali fossem para dar o mínimo de brecha possível para algo ruim acontecer. É cansativo

Pesquisadora sobre violência contra a mulher, Lívia ressalta que o medo não é desproporcional à realidade: “Nem todos os homens são iguais, mas eles precisam entender que há algo muito sério acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de décadas em feminicídios, com milhares de mulheres mortas por homens”, alerta.

A preocupação demonstrada encontra eco nos dados de segurança pública. O país atingiu, em 2025, a marca mais alta de feminicídios desde a alteração no Código Penal, em 2015. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 1.571 casos no ano passado; um crescimento de 4% na comparação com as 1.504 mortes registradas em 2024.

A insegurança no ecossistema dos aplicativos não atinge apenas mulheres heterossexuais. Para a comunidade LGBTQIA+, pessoas pretas e pessoas com deficiência (PcDs), o flerte virtual pode virar isca para crimes de ódio, extorsão e violência física grave.

Especialistas ouvidas pelo TecMundo identificaram que, no público feminino heterossexual, há prevalência de táticas de manipulação psicológica como o love bombing (excesso intencional de demonstrações de afeto para criar dependência) e o estelionato amoroso . Em contrapartida, em apps voltados para a comunidade LGBTQIA+, a exemplo do Grindr, os golpes costumam ter desfechos fisicamente mais violentos.

A delegada da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Tatiana Bastos, destaca que investigações policiais revelam um modus operandi ainda mais ostensivo nessas plataformas:

“Na delegacia de combate à intolerância, realizamos a Operação Moedor, focada em crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extorsão, o golpe do ‘Boa Noite Cinderela’, lesão corporal grave, invasão de residências e espancamentos. A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o medo do estigma social fazem com que esses grupos virem alvos frequentes de criminosos que usam o anonimato digital ”, pontua a delegada, que atua no combate a crimes cibernéticos e na proteção de grupos vulneráveis.

A múltiplas camadas de preconceito fazem com que pessoas pretas e pessoas trans enfrentem camadas adicionais de risco , que vão da fetichização e discriminação a cenários em que o agressor utiliza a vulnerabilidade social da vítima para chantageá-la.

O medo da violência e do anonimato virtual também molda a rotina de João Vitor Alcantara, 26 anos. Morador de Santo André, no ABC paulista, o pesquisador sintetiza o dilema vivido por homens gays na transição das telas para as ruas: a divisão entre a curiosidade de conhecer alguém e a necessidade pragmática de criar filtros de segurança.

Para mitigar riscos antes do primeiro “date” presencial, Alcantara estabeleceu um protocolo de investigação focado na rede de sociabilidade do pretendente. A regra de ouro é nunca aceitar encontros sem antes checar o perfil nas plataformas digitais:

O Instagram me dá a oportunidade de ver se aquela pessoa realmente existe e como é a vivência dela. Se alguém me passa apenas o WhatsApp , evito ir direto para a casa da pessoa. Para encontros casuais, exijo saber se ela tem amigos em comum ou uma rede de apoio. Se a pessoa tem um bom convívio com a comunidade, a tendência é ser tranquila. É a minha forma de traçar um perfil para me sentir seguro

Entre amigos da comunidade LGBTQIA+, o receio da extorsão não é hipótese teórica. O rapaz recorda o caso de um amigo que, após um encontro casual marcado por app, passou a ser chantageado pelo agressor sob a ameaça de ter vídeos íntimos gravados sem consentimento enviados para familiares e para o trabalho.

“Ele pensou muitas vezes em não ir à polícia devido ao estigma de ser uma pessoa LGBT e por estar exposto em uma situação muito íntima. Nós o orientamos a buscar a delegacia presencialmente para detalhar a chantagem. Ele fez o Boletim de Ocorrência e conseguiu a proteção necessária, mas é o tipo de caso que assusta a todos nós”, lamenta.

Quando o encontro finalmente acontece em um local público (geralmente, barzinhos ou cinemas de rua que ele já conhece), a vigilância não se desliga. Além do receio de golpes, surge uma segunda camada de tensão: o medo da homofobia urbana ao demonstrar afeto.

“Existe uma ansiedade constante na comunidade. Durante o encontro em um local público, observo o ambiente antes de segurar a mão ou dar um beijo. Preciso avaliar se estou seguro e se o parceiro se sente confortável. Isso afeta a qualidade do encontro, porque deixa de ser apenas sobre nós dois e passa a ser sobre como a sociedade nos olha”, desabafa.

O TecMundo/Estadão está acompanhando o movimento de digitalização dos relacionamentos. Para mitigar riscos e garantir que a busca por afeto não termine em trauma ou prejuízo, reunimos as orientações práticas da delegada Tatiana Bastos , da professora de Direito Digital Rubia Ferrão , da advogada Gisele Truzzi e da Secretária de Políticas para a Mulher do Estado de São Paulo, Adriana Liporoni .

Com a popularização de aplicativos e bots que prometem puxar o histórico criminal de pretendentes a partir de dados como número de telefone ou chave Pix, surge um debate jurídico relevante sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o papel do Estado. O TecMundo fez, inclusive, uma reportagem especial sobre o tema.

A professora de Direito Digital Rubia Ferrão ressalta que a busca individual feita por uma pessoa física não viola a LGPD:

Para a pessoa física que realiza a pesquisa para fins estritamente particulares e não comerciais, a LGPD não se aplica. Quando a consulta é feita por plataformas privadas, elas costumam se fundamentar no legítimo interesse para proteger a integridade de mulheres e vulneráveis

Rubia Ferrão, advogada e professora de Direito Digital

Por outro lado, a advogada Gisele Truzzi e a delegada e Secretária de Políticas para a Mulher do Estado de São Paulo, Adriana Liporoni, fazem alertas cruciais sobre os limites dessas ferramentas:

Se você for vítima de algum crime digital, chantagem, extorsão ou agressão:

*O nome de Iara Rodrigues foi alterado a pedido da personagem para preservar sua privacidade

Mais lidas 1 . Audi RS 3 retorna com a mesma essência, mas em nova embalagem

Cientistas antecipam fim do ‘segundo bissexto’ para 2027; entenda

Hospital Sírio-Libanês confirma incidente cibernético em sistema interno de relatórios

WhatsApp falso aparece no topo de buscas da Play Store com 500 mil downloads

De onde veio o sinal de rádio captado pela primeira vez fora do Sistema Solar? Entenda

Reiteramos nosso compromisso em indicar apenas produtos e promoções curados e selecionados pelos nossos especialistas, sempre levando em consideração a experiência dos nossos leitores.

Sempre verifique códigos e descontos. Lojas e marcas podem alterar ou encerrar ofertas a qualquer momento.

#Polícia
Espaço Publicitário · meio texto

Anuncie sua marca e alcance milhares de leitores na região

Consulte formatos e valores disponíveis

Matérias Relacionadas