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‘Um filme sobre pertencimento’ — Sandra Hüller analisa ‘A Terra do Meu Pai’

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 29 de outubro de 2026 às 18:21
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‘Um filme sobre pertencimento’ — Sandra Hüller analisa ‘A Terra do Meu Pai’
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Priorize VEJA no Google Em A Terra do Meu Pai, do polonês Paweł Pawlikowski, um pai e uma filha retornam à Alemanha no pós-guerra, após dezesseis anos de exílio causado pela perseguição política nazista. A trama do filme ganha mais peso pelas personalidades por trás dos protagonistas: o pai é ninguém menos que o Nobel da Literatura Thomas Mann, gigante das letras alemãs, autor do monumental A Montanha Mágica, que está acompanhado da filha Erika, seu braço direito, em uma breve turnê de homenagens que serão entregues a ele dos dois lados das novas divisas do país, na Alemanha oriental e na ocidental. A dupla é interpretada por Hanns Zischler e Sandra Hüller, que falaram com a reportagem de VEJA durante o Festival de Cannes, onde Pawlikowski saiu premiado como melhor diretor. Confira a seguir a conversa:

A Terra do Meu Pai trata, em grande medida, da ideia de pertencimento. O que assimilaram dessa mensagem?

Sandra Hüller: É, de fato, um filme sobre pertencimento. Mas também vejo muito o conflito entre o privado e o político. A questão do pertencimento pode ser um problema para os dois personagens, mas, ao mesmo tempo, eles decidiram embarcar nessa jornada por uma causa maior. Assim, todos os sentimentos pessoais acabam ficando em segundo plano. Eles os reprimem de uma maneira que considero realmente notável.

Os personagens falam em várias línguas ao longo do filme, pois estão há muito tempo exilados nos Estados Unidos e também lidam com repórteres de diversos países. Nesse contexto, qual é a importância da língua alemã para a história, especialmente em um momento histórico tão delicado? Hanns Zischler: Imagine a situação: você retorna a um país que deveria ser sua pátria, ou que um dia foi sua pátria, mas sabe que esse país já não existe da mesma maneira. O que permanece em comum entre o país antigo e o novo é a língua, ou quase a mesma língua. Então você precisa encontrar uma maneira de se fazer compreender por pessoas que demonstram muita resistência a você. Isso é muito interessante. A crise surge justamente quando se entra nesse país levando consigo a língua que lhe foi dada, a única que possui: o alemão.

Como construíram a relação entre pai e filha, Thomas Mann e Erika Mann? Na coletiva de imprensa, mencionaram que foi um processo de desenvolvimento conjunto dos personagens. Como essa dinâmica funcionou?

Sandra Hüller: Não diria que foi uma relação simbiótica. Estamos muito longe de ser simbióticos, não é, Hanns? (Risos.) Mas trabalhar com Hanns Zischler é um prazer absoluto, porque ele é uma fonte inesgotável de informação e entretenimento, preciso dizer. Para mim, o maior prazer de fazer esse filme foi passar tempo com ele. O trabalho de Paweł [o diretor] depende muito da colaboração entre os atores, e foi exatamente o que fizemos. Tivemos a oportunidade de desenvolver essa dinâmica durante as filmagens. E tivemos a sorte de gostar um do outro — bom, eu gosto de você, Hanns, não sei se você gosta de mim (risos). Mas, falando sério, havia um respeito mútuo pelo trabalho de cada um, e isso definitivamente ajudou muito. Hanns Zischler: Sandra é um tesouro e um prazer. Um tesouro e um prazer. E isso traz uma dificuldade interessante: quando dois atores se entendem muito bem, precisam mostrar no filme que seus personagens nem sempre compartilham a mesma compreensão da situação. Thomas e Erika têm interpretações diferentes do que está acontecendo e maneiras distintas de antecipar o que virá. Em certos aspectos, ela enxerga as coisas com muito mais clareza do que ele. Thomas diz: “Muito bem, vou cumprir minha missão”. E Erika responde: “Você realmente deveria pensar melhor nisso”. É muito interessante ser confrontado com o pensamento da própria filha e considerar: “Talvez ela tenha razão, mas vou fazer isso mesmo assim”. Isso cria um conflito muito interessante, que raramente é expresso de maneira tão aberta. Sandra Hüller: É verdade. Gostei muito da relação entre os dois justamente porque eles conseguem ser bastante duros um com o outro. São muito francos e não ficam excessivamente preocupados com o que o outro pode sentir. Simplesmente expressam suas opiniões. Ao mesmo tempo, respeitam a opinião um do outro, mas jamais esperam que o outro mude de comportamento. Eles respeitam as diferentes maneiras de lidar com as situações, mas isso não os impede de apontar quando acham que o outro está errado. Gosto muito disso na relação deles.

Poderiam dar um exemplo de uma cena que ilustre essas diferenças?

Hanns Zischler: Há uma cena bastante clara. Thomas está prestes a fazer um discurso muito importante em Weimar. Ele olha para a plateia e percebe que Erika desapareceu. É a coisa mais terrível que poderia acontecer naquele momento. Ele está discursando para quinhentas pessoas em um salão, mas a única pessoa a quem realmente dirige suas palavras é a filha. E ela não está mais lá. O que acontece depois? Bem, vocês veem no filme. Ele passa o tempo todo procurando por ela, ansiosamente. É fantástico.

Sandra, seu trabalho em Anatomia de uma Queda é magnífico e vejo um certo espelhamento entre aquele filme e A Terra do Meu Pai. Em ambos, há emoções muito contidas que, em determinado momento, explodem. São cenas que arrebatam o público. Como você constrói essa progressão emocional? E como é assistir a esses momentos no cinema? Sandra Hüller: É sempre muito especial. Existe uma atmosfera única no cinema, todo o ritual de entrar na sala, estar ali e a expectativa de ver as pessoas na plateia quando as luzes se acendem novamente. É uma experiência que não se compara a nenhuma outra. Mas preciso dizer que não penso antecipadamente nessas cenas que você mencionou. Elas simplesmente acontecem no dia da filmagem. Eu sabia que Erika não teria muito espaço para demonstrar o que realmente sentia. Não seria apropriado. Ela é uma pessoa comedida, então sabe em quais situações esses sentimentos podem ou não vir à tona. E é isso. Nós filmamos as cenas e as coisas acontecem. Não tenho um plano para momentos assim.

Hanns, o que significou para você interpretar Thomas Mann? Foi necessário revisitar os livros do autor ou realizar alguma preparação literária específica? Hanns Zischler: Li Thomas Mann durante toda a minha vida. Portanto, essa não foi exatamente uma questão para mim. O desafio era extrair de sua obra uma ideia de quem ele poderia ter sido, de como poderia se comportar. É uma espécie de tradução, de transposição. E foi o roteiro que tornou isso possível. Foi justamente isso que me agradou.

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