saiba como se proteger — Onda de procedimentos estéticos esconde clínicas clandestinas
Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

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Consulte formatos e valores disponíveisNesta era ultraconectada, a ideia do que é belo reverbera em escala global, ensejando uma profícua indústria voltada para a estética. Uma fatia crescente dela se dedica hoje a procedimentos para corpo e rosto que, conforme a tecnologia evolui, vão se tornando mais acessíveis e se incorporam à rotina de uma multidão mundo afora. O leque é vasto: preenchimentos, toxina botulínica, bioestimuladores, lasers — tudo isso consta em um cardápio que alça o Brasil à posição de vice-líder nesse mercado, atrás dos Estados Unidos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Tamanho vigor, porém, embute uma face bem menos glamourosa, que agora se faz mais visível: a das clínicas que funcionam à margem das exigências sanitárias, tocadas por profissionais não habilitados que podem fazer daquela mexidinha aqui, outra ali, um pesadelo.
É verdade que fatia considerável dos estabelecimentos se rege pela seriedade e boa ciência, mas problemas de todos os matizes relatados nesta diversa seara se disseminam rapidamente, soando um alerta: é preciso filtrar bem antes de escolher um endereço. Um recente levantamento, feito pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo, mostra que as denúncias contra médicos que atuam na área subiram 41% em dois anos, e as que miram esteticistas, dentistas e outros saltaram 90% entre 2024 e 2025. É um enrosco de envergadura nacional. “Casos dessa natureza são cada vez mais frequentes”, afirma o delegado Wellington Vieira, à frente da Delegacia do Consumidor da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que enfatiza quão vital é verificar a idoneidade de hospitais e clínicas.
Em outubro, o Grupo Celita Toledo, em Laranjeiras, na Zona Sul carioca, passou a ser alvo de 36 inquéritos, após três mortes e dezenas de relatos de necrose, perda de tecidos, cicatrizes e deformações permanentes. Apesar das denúncias, havia quinze cirurgias programadas ali no dia em que o lugar foi, enfim, interditado. “Todo paciente nosso tem direito a reparo, não faz porque não quer”, falou Celita, a proprietária, em vídeo nas redes, dizendo que o resto “a Justiça vai provar”. Na mesma semana, uma clínica de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, entrou no radar depois de uma paciente denunciar ter sido atendida por uma profissional que não havia nem concluído a formação, no que foi seguida por outras, que deram voz à insatisfação com o resultado. A dona acabou presa. Pouco antes, a polícia civil havia abordado o Instituto Paula Lima, com duas unidades no Rio, onde vinte mulheres se queixaram de sequelas pós-harmonização de glúteos. A investigação indica que um material sintético proibido no Brasil para fins estéticos, o PMMA, era injetado nas clientes. Também aí a dona foi conduzida à prisão.
Especialistas ouvidos por VEJA alertam que o termo “procedimento minimamente invasivo”, tão disseminado, pode sugerir que é tudo muito simples, quando na realidade as consequências de um mau atendimento podem se revelar graves e permanentes. “Confundem harmonização e preenchimento com depilação, corte de cabelo, maquiagem”, observa Marcelo Sampaio, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Minimizar os riscos já levou gente como a influenciadora e ex-modelo Mariana Michelini, 38 anos, a se submeter à harmonização facial em uma clínica com uma dentista que fazia boca a boca virtual. “No início, me senti bonita e pensei que conseguiria até mais trabalho”, diz. Mas, passados alguns meses, ela acordou com dores e o rosto inchado. Consultou então diferentes médicos e descobriu que haviam lhe injetado PMMA. “Passei os últimos anos à base de antibióticos e precisei remover material dos lábios para não piorar a infecção. Vivia isolada dentro de casa, usando máscara”, lamenta Mariana, que enfrentou delicadas cirurgias para a reconstrução da boca.
Por trás da ascendente procura por procedimentos estéticos, reside um afã por encaixar-se em padrões que, mesmo com os inequívocos avanços da sociedade em prol das diferenças, seguem firmes sob os holofotes das redes. Atenta ao fenômeno, a turma da psicologia lança o olhar para as raízes da onda das intervenções, sem demonizá-las. “A mudança física carrega a expectativa de resolver insatisfações profundas e conquistar aceitação, mas novos padrões sempre surgem e outros incômodos aparecem”, ressalta o psicanalista Michel Simões, da USP. Dito isso, espera-se que os perigos, para quem quiser seguir em frente, não sejam jamais subestimados. “É preciso desconfiar de grandes promessas, tirar todas as dúvidas e procurar referências com outros pacientes”, ensina Marcelo Sampaio, da SBCP. Por mais tentadora que seja, a busca por um up no visual não pode deixar em segundo plano a própria saúde.
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