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Consulte formatos e valores disponíveisO que herdamos de quem não está Imagem: UOL Aline Bei tem pavor de borboletas. Não é aflição. É medo de verdade, paralisante, "como se fosse um leão", me contou quando conversamos para um episódio do Missão Saber.
O mais curioso ela só descobriu depois da morte da avó: ela tinha exatamente o mesmo medo da neta. Aline nunca a tinha visto fugir de uma borboleta nem se lembrava de ouvir isso. Ou seja, não aprendeu nem imitou aquele comportamento. Como herdou?
É uma ótima porta de entrada para Uma delicada coleção de ausências. Porque o terceiro romance de Aline Bei é, entre outras coisas, um livro sobre aquilo que herdamos sem nem mesmo saber.
Medos, silêncios, gestos, violências, maneiras de amar, de fugir. E faltas. Às vezes, o que não tivemos participa da nossa formação tanto quanto aquilo que tivemos.
Laura é uma menina chegando à adolescência. Vive com a avó, Margarida, que ganha dinheiro lendo mãos numa feira de antiguidades. De repente, Filipa, mãe de Margarida e bisavó de Laura, reaparece e vai morar com as duas.
Há ainda Glória, filha de Margarida e mãe de Laura. Glória não está, abandonou Laura ainda bebê e nunca mais deu notícias. Talvez justamente por isso, ocupa muito espaço.
Esse é um dos acertos mais bonitos do romance. Aline não transforma o sumiço numa investigação. A pergunta central não é exatamente "onde está Glória?". Sua ausência funciona de outro jeito: organiza a casa, as relações e a maneira como aquelas mulheres enxergam umas às outras. Talvez seja mais preciso: não enxergam.
Margarida lê as mãos de desconhecidos e tenta descobrir nelas coisas que não estão aparentes. Dentro de casa, porém, tem enorme dificuldade para perceber o que acontece com a filha e, depois, com a neta. É uma contradição extraordinária: a mulher que procura o invisível nos outros não consegue enxergar o invisível nas pessoas que mais ama.
Filipa tem as costas curvas. O corpo parece puxado para baixo pelo peso acumulado da vida. Margarida também começa a se curvar. Laura, por sua vez, vive ouvindo: "endireita essas costas." É quase uma genealogia desenhada nos corpos.
Aline faz isso o tempo todo. Em vez de anunciar que está escrevendo sobre heranças familiares, espalha pequenos indícios: um medo, uma postura, um silêncio, uma forma de reagir. Nem tudo que recebemos de nossos pais e avós vem por uma história que alguém nos contou. Talvez carreguemos inclusive aquilo que jamais foi dito.
Durante nossa conversa, Aline contou que transferiu para Margarida seu próprio medo de borboletas. A escolha fica ainda mais interessante porque a personagem tem nome de flor. Uma mulher chamada Margarida que teme aquilo que inevitavelmente se aproxima das flores. Há alguma coisa de muito Aline Bei nisso. Pequeno na superfície, significativo em um segundo olhar mais atento.
Demorei metade do livro para perceber uma coisa que estava na capa. A palavra mais importante do título talvez não seja "ausências". É "delicada". Delicada pode ser frágil, leve, sutil. É uma boa definição para a escrita de Aline Bei.
Também chamamos de delicado aquilo que é difícil: um assunto delicado, uma situação delicada. Essa segunda acepção talvez diga ainda mais sobre o romance. A linguagem é leve. O que acontece não é. Por baixo da rotina daquelas mulheres corre uma sucessão de abandono, violência doméstica, assédio, abuso sexual e silêncio.
Na entrevista, Aline resumiu uma das ideias centrais do livro dizendo que a violência é "muito mais sofisticada" do que costumamos imaginar e pode vir de lugares inesperados. É justamente aí que Uma delicada coleção de ausências incomoda mais.
O perigo nem sempre chega parecendo perigo. Pode ser alguém integrado à rotina. Alguém útil. Alguém conhecido. Alguém que aparentemente pertence à casa. A violência se aproveita também da confiança, das hierarquias familiares e da incapacidade — ou recusa — dos adultos de enxergar. Nesse sentido, o romance é menos delicado do que parece.
Meu primeiro contato com Aline Bei foi Pequena coreografia do adeus. Comprei o livro numa livraria em Santo Antônio do Pinhal, comecei a lê-lo ali mesmo e terminei no mesmo dia, deitado numa rede, olhando para as montanhas.
Nunca esqueci. Foi também quando descobri aquele jeito peculiar de Aline escrever. Ela é formada em Letras e Artes Cênicas, e talvez seja impossível separar completamente a escritora da mulher que veio do teatro. Sua página é um espaço cênico. Há frases curtas, vazios, mudanças de ritmo, letras minúsculas, pausas. Às vezes uma frase parece ter sido colocada exatamente naquele ponto da folha porque precisava de alguns centímetros de silêncio em volta.
Neste livro aparece ainda outra mudança importante: pela primeira vez num romance, Aline escreve em terceira pessoa. Nos livros anteriores, havia algo próximo do monólogo. Agora ela precisa circular entre Laura, Margarida e Filipa.
Na nossa conversa, explicou que imaginou um narrador "poroso": alguém capaz de observar as personagens de fora e, de repente, infiltrar-se em seus pensamentos. A formação teatral reaparece também nas rubricas — aquelas indicações de gesto ou movimento que acompanham os diálogos numa peça.
Aline incorpora algo delas à prosa para não precisar interromper as cenas permanentemente com "disse Margarida", "respondeu Filipa", "falou Laura". "Eu gosto de um texto que vai mais levemente pro cerne do acontecimento", disse. É exatamente o que acontece.
E por isso eu recomendo uma coisa pouco prática: se puder, leia Uma delicada coleção de ausências no papel. Perguntei a Aline se havia perdido algo porque li parte do livro no celular. Havia. A virada da página, o tamanho dos vazios e a disposição das palavras também participam da narrativa.
Margarida inventa uma classificação particular para as pessoas. Existem pessoas-cravo e pessoas-eucalipto. O cravo tem presença forte, amadeirada, capaz de dominar o ambiente. O eucalipto deixa o ar passar. Há nele leveza, integridade, talvez até de disponibilidade para que o outro exista. Margarida simplesmente sabe a qual grupo cada pessoa pertence.
É uma dessas pequenas invenções que poderiam ser retiradas do romance sem prejudicar o enredo e, ainda assim, fazem enorme diferença para o livro. Literatura que vai além da narrativa.
Uma delicada coleção de ausências conversa diretamente com os dois romances anteriores de Aline: O peso do pássaro morto, lançado em 2017, e Pequena coreografia do adeus, de 2021.
Ela mesma fala numa espécie de trilogia involuntária. Os três livros acompanham mulheres marcadas por perdas, abandonos e relações familiares que deixam marcas muito depois de terminarem.
Aline não diz que não planejou criar uma trilogia. Aconteceu. "Como escritora, a gente também é muito escolhido pelas histórias que a gente conta", me disse. "Não é só a gente que escolhe. A história escolhe você de volta."
Uma delicada coleção de ausências me parece o livro mais complexo dos três. Continua fácil de ler, mas tem um campo de visão mais amplo. Não acompanhamos apenas uma mulher e aquilo que lhe aconteceu. Vemos diferentes gerações participando da fabricação umas das outras. Às vezes por aquilo que fizeram. Outras pelo que deixaram de fazer.
Sim. E eu começaria por ele mesmo se você nunca leu Aline Bei. Há livros sobre famílias marcadas por traumas. Há livros sobre violência contra mulheres. Há livros sobre abandono.
O que diferencia este é a combinação dessas coisas com uma pergunta mais difícil: quanto de quem somos foi construído pelo que não aconteceu, pelo que não recebemos ou por pessoas que não estavam lá? É por isso que Glória, a personagem ausente, pode ser tão importante quanto as três mulheres presentes.
E talvez seja por isso também que o título funcione tão bem.
Aline contou que passou quatro anos trabalhando no romance e ainda não tinha conseguido batizá-lo. O título apareceu quando o livro estava praticamente pronto. Veio durante um banho — cena que, por coincidência ou não, tem importância especial na história.
Ela escreveu "Uma delicada coleção de ausências" no box para olhar para aquelas palavras e descobrir se aguentavam existir juntas. Aguentaram. Poucos títulos explicam tão bem um livro sem explicar nada. Afinal, todos nós mantemos alguma coleção de ausências. O problema é que algumas delas continuam crescendo mesmo depois que quem partiu já não está lá.
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