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29.out.2026 às 4h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Felipe Maia São Paulo Fazia apenas três anos que Jorja Smith havia abandonado o emprego numa cafeteria quando embarcou para o maior show da sua vida, o Lollapalooza Brasil 2019. "Eu tinha só 21 anos, era uma menina do Reino Unido no Brasil e não acreditava em quanta gente tinha ido me ver", diz ela, por videochamada de Londres. "Era um mar de gente e todos cantavam. Ali o Brasil virou um dos lugares onde mais me senti amada."
Hoje, com dez anos de carreira, a cantora britânica volta ao país como show solo nesta sexta (30), em São Paulo, e como atração principal do festival Afropunk, no sábado (7), em Salvador. Ao palco, Jorja Smith traz o disco "What Are The Odds", lançado neste ano, e uma trajetória sólida de quem saiu da sombra de comparações com Amy Winehouse para ganhar cadeira cativa na primeira linha da música britânica entre pop, soul e R&B.
"Aprendi a me permitir sentir nestes últimos anos, tudo bem em ficar triste, irritada ou feliz. Sentimentos são passageiros, e confio na minha intuição", ela diz. No álbum mais recente, Smith não abre mão do sentimentalismo que a transformou em sucesso quase do dia para a noite.
"Blue Lights", escrito por ela em 2015, com então 17 anos, é um hit neo soul de inflexão jazzística que fala de amor, perda e revolta —algo entre Lauryn Hill e Erykah Badu com uma aspereza da música de rua britânica.
"What Are The Odds", ao contrário da estreia intimista em "Lost & Found", de 2018, traz a cantora mais solta para a pista, para o clube. "Esse disco foi feito para ouvir no carro a caminho do clube, dentro do clube, saindo do clube, ou então em casa, com os amigos na cozinha, num churrasco —onde quer que dê vontade de se mexer", ela conta. "Não precisa ser uma pista de dança, porque dá para criar uma pista onde você estiver."
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Este é um caminho que já despontava em seu segundo LP, "Falling or Flying", de 2023, cuja versão de remixes reúne nomes conhecidos das pistas britânicas, como Craig David e Todd Edwards. O maior sucesso do álbum, "Little Things", é um garage suingado que coloca uma Smith da noite ao lado do produtor P2J —produtor que acumula projetos com nomes como Tems e Burna Boy em uma conexão de afrobeats entre Nigéria e Reino Unido.
"Foi essa faixa que nos deu a ideia de fazer mais músicas nesse universo, de capturar aquela energia", afirma Smith. "Eu sempre flertei com a pista em faixas como ‘On My Mind’ e ‘Be Honest’, e entramos em estúdio em 2025, quando nós dois tivemos tempo —a princípio a gente tinha um plano, mas tudo aconteceu de forma muito natural."
Nascida em Walsall, pequena cidade industrial na porção oeste da Grã-Bretanha, Smith nunca foi muito de sair em busca de música eletrônica —experiência basilar para boa parte da juventude britânica, da época de grandes raves dos anos 1990, o chamado "Second Summer of Love", a clubes históricos do país, como Ministry of Sound and Fabric.
"Eu não era do tipo que fugia de casa para sair", diz Smith. "Mas meus pais deixavam o rádio sempre ligado na cozinha, então sempre tinha alguma caixa de som tocando dance music."
Smith foi conhecer as pistas vivendo em Londres, cidade com a qual desenvolveu uma relação de amor e ódio. "Precisei voltar para Walsall para encontrar equilíbrio, e isso foi bom, porque estar hoje em Londres voltou a me empolgar", ela conta.
É nessa ida e vinda, com a noite como ponto de fuga e ancoragem, que "What Are The Odds" opera. Com intenção pop, o disco é um menu degustação da música de pista britânica das últimas décadas —um tipo de som que, na ilha, cruza diversos gêneros. Em "This City", com o rapper Devlin, Jorja Smith ecoa o drama lúgubre e dubstep de Londres entre Burial e o primeiro disco do The Streets. Em "The Way It Was", ela até encarna uma MC de grime.
A figura do produtor P2J ganha mais força em faixas como "Alive", que traz para a faixa o nigeriano Wizkid e os "log drums" —tambor eletrônico típico do afropiano, híbrido entre amapiano e afrobeats. Já em "What’s Done Is Done", a dupla atualiza o balanço do UK funky de nomes como Crazy Cousinz para uma geração hiperconectada.
"Crescer sob os holofotes, como foi meu caso, não é normal, por isso passei um tempo longe da internet e só agora tenho uma relação saudável com as redes", diz Smith, que foi vítima de ataques online sobre sua aparência há alguns anos. "É preciso aprender a lidar com aquilo e entender que parte daquilo não é real."
De volta ao Brasil com um intervalo de uma semana entre shows, Smith diz que vai atrás de conhecer mais do país —e das suas pistas. "Adoraria ir a um baile funk, e quero mergulhar na cultura brasileira —preciso que alguém me apresente-a", ela diz. "Acho que esses shows vão ser muito especiais, estou animada para retribuir o amor e ver novamente todo mundo cantando a plenos pulmões."
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