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1º.nov.2026 às 4h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Davi Galantier Krasilchik São Paulo O autor Thomas Mann está em turnê pela Alemanha. Entre conversas com jornalistas e visitas a lugares destruídos pela Segunda Guerra, tudo indica que a viagem é uma ação do governo para aliviar dores do conflito, como o exílio do escritor durante o regime nazista.
Em " A Terra do Meu Pai ", já em cartaz nos cinemas, Mann vê a Guerra Fria influenciar o seu itinerário. Entre áreas dominadas por americanos e regiões sob controle soviético, o cineasta Pawel Pawlikowski recupera esse período —mais lembrado por disputas simbólicas do que por brigas armadas— como uma obsessão.
"Meus pais viveram a Segunda Guerra e eu cresci no pós-guerra. Querendo ou não, estou enraizado nela", afirma o diretor polonês, filho de pai judeu e vencedor do Oscar de melhor filme internacional por " Ida ". Lançado em 2013, o longa acompanha uma jovem órfã que, criada em um convento católico e prestes a se tornar freira, descobre ter sido afastada das raízes judaicas durante o domínio de Adolf Hitler.
Cinco anos depois, foi a vez de " Guerra Fria ", em que Pawlikowski reforçou a vocação para representar elos entre a arte e a política. O filme mostra o declínio de um casal de artistas, um maestro e a sua fiel cantora. Juntos, fundam um grupo de música folclórica, que é rapidamente cooptado pelo governo de Josef Stálin.
Como "A Terra do Meu Pai", vencedor do prêmio de melhor direção no último Festival de Cannes, os dois títulos foram fotografados por Łukasz Żal. Os enquadramentos fechados e em preto e branco reforçam as expressões dos personagens e a atmosfera melancólica.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... "Gosto de tramas em que os personagens são moldados pela história, ou em que a própria história é um personagem. Não é algo simples em nossa era digital, e por isso volto a tal período —ele me oferece um mundo tridimensional, me deixa fazer filmes que têm um significado para o presente. Não procuro fazer filmes nostálgicos, quero que eles ressoem nos dias de hoje."
Em "A Terra do Meu Pai", Mann e sua filha Erika, a atriz e assistente vivida por Sandra Hüller, veem a obra dele ser cooptada por políticos. Reconhecido por dissecar o capitalismo e a moral humana —como o fez no livro " A Montanha Mágica ", em que um sanatório isolado, cujos internos alimentam ideais românticos, espelha a Europa que antecedeu a Primeira Guerra —, o autor se opôs a tradições do romantismo alemão quando o totalitarismo usurpou o movimento.
No seu " Morte em Veneza ", de 1912, um burguês rígido se apaixona por um jovem polonês, descrito como uma personificação da beleza. Na busca pela relação idealizada, ele abandona a capacidade de interferir no mundo. Já "Doutor Fausto", publicado mais de três décadas depois, durante o exílio de Mann, revê a lenda do homem que fez um pacto com o diabo para ilustrar a queda de um país entregue ao nazismo.
No longa de Pawlikowski, aqueles que organizam a turnê do vencedor do Nobel se apegam ao humanismo na tentativa de limpar a imagem da Alemanha, que distorceu mitos românticos e usou o culto à nação para exterminar outras populações.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Em tela, o ator Hanns Zichler interpreta um Mann frio, distante dos princípios que defende nas páginas. Ao seu lado, a filha encara dramas familiares, como o suicídio recente do irmão, o também autor Klaus Mann. Escritor da sátira ao nazismo "Mefisto", ele morreu em 1949 após anos de depressão.
Pai e filha não têm onde se ancorar, presos no jogo entre os Estados Unidos e a União Soviética.
"A cultura deixou de ser considerada importante", diz Pawlikowski, que conversou com este repórter durante as eleições. "Não acho que [Flávio] Bolsonaro e seus apoiadores leem muito ou veem muitos filmes. A capacidade de atenção se tornou limitada, não só na direita. Hoje, tudo se resume a frases de efeito, fragmentos e chavões. Duvido que esse pessoal brigaria por Thomas Mann."
Em conversa com jornalistas, questionado sobre conflitos atuais, como a guerra entre Israel e a Palestina, o cineasta defende que as redes simplificam discussões amplas e afirma que "não faz filmes de guerra".
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... "Não saberia como transpor isso para um filme. Meus filmes são sobre a sensação de que o chão está se abrindo sob nossos pés. 'A Terra do Meu Pai' mostra uma mentalidade desaparecida, já que os nazistas destruíram toda a cultura humanista. Era algo que achávamos que sempre estaria ali e que atuava como um centro para o Ocidente, apesar de todos os seus erros e corrupções."
Por sua vez, Sandra Hüller diz que a complexidade do mundo pouco mudou e que sua responsabilidade como artista segue a mesma. Este ano, fora o longa em questão, ela estrelou "Rose", filme austríaco em que uma mulher rompe normas do século 17 ao se disfarçar de homem, e os blockbusters " Devoradores de Estrelas " e " Digger ".
O último, sobre um magnata egoísta que causa uma crise climática, tornou-se um dos maiores fracassos na história da Warner Bros.
"Só sei que todos esses filmes tomaram grandes riscos financeiros, artísticos e até pessoais. Todos eles abordam questões que são muito importantes para o mundo atual. O que o público faz com esses filmes foge ao meu controle", diz ela, ao ser questionada sobre a diferença com que títulos políticos americanos e europeus são recebidos.
Pawlikowski diz que filmes complexos, que resistem aos algoritmos, estão em falta. "A arte deve resistir à redução da humanidade, que tem se tornado um simulacro, uma versão mais banal de si. [O dramaturgo Anton] Tchekov dizia que a arte não deve ensinar lições, mas sim descrever os problemas com precisão."
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