Região: Os personagens que inventamos no decorrer de nossas vidas
Fazemos isso quase todos os dias, muitas vezes sem perceber.

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Consulte formatos e valores disponíveisExiste uma coisa curiosa na natureza humana: temos uma facilidade enorme para imaginar aquilo que gostaríamos que fosse verdade. Fazemos isso quase todos os dias, muitas vezes sem perceber. Fantasiamos pessoas, atribuímos sentimentos, criamos expectativas e, pouco a pouco, vamos construindo histórias que acabam se confundindo com a própria realidade.
Às vezes, inventamos uma versão de alguém que só existe dentro de nós. Damos a essa pessoa qualidades que gostaríamos que ela tivesse, sentimentos que desejamos receber e atitudes que esperamos encontrar. Transformamos pequenos gestos em grandes demonstrações de afeto, silêncios em mensagens ocultas e momentos passageiros em promessas de continuidade.
Também fazemos isso conosco. Criamos personagens para enfrentarmos o mundo, escondemos nossas fragilidades e, em determinadas circunstâncias, passamos a acreditar na imagem que construímos de nós mesmos.
É como se vivêssemos em dois mundos ao mesmo tempo. Em um deles, as coisas acontecem como desejamos; no outro, a vida segue seu curso, indiferente às nossas expectativas.
O problema começa quando passamos a dar mais importância ao mundo que imaginamos do que àquele que realmente existe.
Insistimos em preservar pessoas que talvez nunca tenham sido como pensamos. Defendemos sentimentos que não encontram correspondência, justificamos comportamentos que nos machucam e encontramos explicações para aquilo que, no fundo, já sabemos. Não queremos perder a história que criamos, mesmo quando os acontecimentos insistem em mostrar que ela nunca foi exatamente verdadeira.
Talvez porque abandonar uma ilusão seja também admitir que nos enganamos. E nem sempre temos coragem para isso.
Mas chega uma hora em que a realidade se apresenta sem pedir licença. Uma atitude, uma palavra, uma ausência ou simplesmente o tempo acabam revelando aquilo que durante tanto tempo tentamos não enxergar.
E é nesse momento que percebemos que algumas pessoas nunca foram exatamente aquelas que imaginávamos. E que determinadas histórias foram muito mais vividas em nossos pensamentos do que na realidade.
A dor, então, é inevitável. Não choramos apenas pela pessoa ou pela relação que perdemos. Choramos também por tudo aquilo que imaginamos viver, pelos planos que fizemos silenciosamente e pelas possibilidades que alimentamos dentro de nós mesmos.
É uma tristeza particular, difícil de explicar. Afinal, como explicar a dor de perder algo que, de certa maneira, nunca tivemos?
E talvez seja justamente aí que precisamos parar e refletir.
Não podemos transformar nossas expectativas em obrigações para os outros, nem cobrar de alguém sentimentos que nós mesmos construímos em nossa imaginação. Cada pessoa tem sua própria maneira de sentir, de demonstrar afeto e de estabelecer vínculos. Precisamos aprender a enxergar o outro como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse.
Vivemos em uma época em que tudo parece poder ser construído, editado e apresentado de maneira conveniente. Nas redes sociais, nas conversas e até nas relações afetivas, criamos versões de nós mesmos e dos outros. O virtual aproximou pessoas, mas também abriu espaço para muitas interpretações equivocadas. Às vezes, conhecemos profundamente a imagem de alguém sem conhecer verdadeiramente a pessoa que existe por trás dela.
Não há problema em sonhar, imaginar ou desejar uma vida melhor. O perigo está em perder a referência da realidade e passar a viver dentro de uma história que nós mesmos escrevemos, mas que os outros nunca se comprometeram a viver.
Precisamos acordar dessa espécie de Matrix que construímos dentro de nós. Não para deixar de acreditar nas pessoas, mas para aprender a acreditar com os olhos abertos.
Não permita que suas idealizações roubem a oportunidade de viver experiências verdadeiras. Não transforme a ausência de alguém em uma presença imaginária. Não passe a vida tentando encaixar pessoas em lugares que elas nunca desejaram ocupar nem estar. E, principalmente, não permita que uma desilusão faça você desacreditar da beleza de viver.
A vida continua sendo bonita, mesmo quando algumas pessoas nos decepcionam. Existem encontros sinceros, amizades verdadeiras, afetos que não precisam ser implorados e pessoas que não precisam representar absolutamente nada para permanecer ao nosso lado.
Talvez a sabedoria esteja justamente em aceitar as pessoas como elas são, sem retirar delas a humanidade, mas também sem abrir mão da nossa própria dignidade.
Sonhe, tenha expectativas, apaixone-se, faça planos. Mas não se esqueça de olhar para aquilo que está diante dos seus olhos.
A realidade pode não ser tão bonita quanto a fantasia que criamos, mas é nela que encontramos a possibilidade de construir algo verdadeiro.
Não se torne prisioneiro dos personagens que sua imaginação inventou. Não confunda o que você deseja com aquilo que realmente acontece.
A vida é preciosa demais para ser desperdiçada tentando fazer existir aquilo que só encontramos dentro de nós.
No fim das contas, talvez a maior demonstração de amor-próprio seja esta: ter coragem de abandonar as ilusões sem abandonar a capacidade de acreditar na vida.
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Por Virgílio Galvão – Colunista da Folha do Estado em Brasília.
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