Região: O que é nudify? Entenda os apps que preocupam autoridades
Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

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Consulte formatos e valores disponíveis4:09 Inspirada na história bíblica de São Tomé, a expressão “ver para crer” pode estar com os dias contados: na era das deepfakes, o que parece real nem sempre é. Crédito: Valéria Turola (edição)
Apesar de tantos benefícios já evidentes na sociedade, o uso da inteligência artificial (IA) generativa também traz riscos e novos problemas para muitas pessoas. O nudify, prática em alta a partir de sites e aplicativos, é um desses novos perigos.
Em janeiro de 2026, um estudo dezenas desses apps que “tiram a roupa” de pessoas sem consentimento, sendo inclusive acessíveis por menores de idade. Grupos de Telegram e até chatbots de redes sociais também oferecem essa possibilidade de forma cada vez mais acessível.
Para entender as consequências negativas e o problema por trás desses aplicativos, é importante conhecer como eles funcionam. A seguir, saiba mais sobre essa prática e os riscos inclusive criminais dessa prática.
A palavra vem do inglês e, em tradução livre, significa “despir” ou tirar a roupa. Atualmente, ele é usado para caracterizar aplicativos, sites e bots que usam IA para simular a nudez de uma pessoa a partir de uma foto vestida, criando uma imagem nova sem consentimento.
A prática é também chamada de “nudificação” ou “deepnudes”, usando tecnologias generativas avançadas para gerar um material sintético e falso, retratando a pessoa sem roupas ou em posições sugestivas.
Em outras palavras, todo serviço que oferece a prática de nudify produz um deepnude, que é também uma forma de deepfake.
Vários desses serviços de “nudificar” não exigem grandes conhecimentos técnicos ou configurações complexas: para pedir uma foto modificada, basta enviar a imagem de referência e aguardar o resultado.
Nos modelos de linguagem mais avançados, que podem ser pagos ou cobertos por anúncios para gerar receita, o usuário recebe em questão de segundos um resultado fotorrealista em alta resolução para ser salvo ou compartilhado.
A IA generativa desses apps não “enxerga” através da roupa e nem adivinha o corpo real de uma pessoa. Na verdade, ela “inventa” um resultado, levando em conta uma leitura da imagem de referência —incluindo detalhes como pose, proporções e a área coberta por roupa.
Após esse cálculo, a ferramenta modifica a imagem com base em padrões aprendidos e na própria base de dados, ajustando com a máxima fidelidade possível elementos como tom de pele e iluminação.
O resultado, apesar de convincente, não passa de uma estimativa estatística e artificial.
A facilidade de acesso de aplicativos de nudificação, combinada com o anonimato nos pedidos e o baixo custo dessas ferramentas deixa entidades de direitos humanos, pais e autoridades em alerta.
Mesmo com regras que proíbam esse tipo de conteúdo em lojas digitais e redes sociais, aplicativos que oferecem esse tipo de serviço seguem no ar, alguns até com anúncios pagos em plataformas digitais.
A dificuldade em rastrear os responsáveis, os danos causados pela exposição desse tipo de material e o fato de IAs generativas estarem cada vez melhores em qualidade são fatores que só adicionam mais urgência ao combate a esse tipo de prática.
O principal problema envolvendo o nudify é a quantidade e a gravidade de consequências para as vítimas. Por mais que seja um material falso, a foto circula, faz a pessoa ser reconhecida por amigos ou parentes e expõe uma falsa intimidade.
Mesmo que plataformas removam o conteúdo, não há como saber quantas vezes ele foi salvo ou compartilhado, mantendo a vítima em alerta para eventuais novas tentativas de espalhar o material, criado sem qualquer tipo de autorização.
Há ainda um recorte de gênero que é evidente ao analisar casos como o do Grok, chatbot da rede social X que já permitiu a criação de imagens nudificadas. O fenômeno é um exemplo de violência de gênero, atingindo um número consideravelmente maior de mulheres em comparação com usuários homens.
A criação sistemática desse tipo de imagem pode gerar até outros tipos de crimes, como extorsão para não divulgar o material falso.
Os jovens são, ao mesmo tempo, alvo e autores frequentes dessas criações, o que torna o assunto ainda mais delicado. São vários os casos conhecidos, inclusive no Brasil, de menores de idade que criam fotos nudificadas de outras adolescentes por diferentes motivações;
As imagens e as consequências começam no constrangimento em ter uma foto falsa espalhada, mas também envolvem extorsão e, neste caso, criação de material de abuso sexual infantil.
Os aplicativos de nudify não são proibidos no Brasil por uma lei específica e não há um crime tipificado para o simples download deles. Porém, isso não significa que utilizá-los deixa de ser crime ou que outras esferas não possam combater essas ferramentas.
O artigo 216-B do Código Penal, por exemplo, pune quem faz montagem de pessoas em cena de nudez ou ato sexual de caráter íntimo com seis meses a um ano de detenção e multa.
Já divulgar o conteúdo sem autorização, seja ao distribuir ou publicar, também está previsto no artigo 218-C. Aqui, a pena é maior, passando de quatro a dez anos de reclusão.
Se o crime foi enquadrado como violência psicológica contra a mulher, o 147-B do Código Penal modificado por uma lei em 2025 tem uma pena maior caso a IA seja usada na ilegalidade, como no caso de deepfakes. Aqui, a reclusão pode ser de 9 meses até três anos.
No caso de crianças ou adolescentes, a situação cai na Lei 15.487/2026, que trata de “medidas de enfrentamento e repressão ao crime de violência sexual” inclusive no ambiente digital.
Ela prevê reclusão de três a cinco anos e multa para quem simula a participação de menores de idade em conteúdo adulto por montagem ou IA. O crime passou ainda a ser considerado hediondo e ter punição aumentada no caso de deepfakes.
Na esfera civil, a vítima pode pedir indenização e a retirada do conteúdo, com possível responsabilização também da plataforma, caso ela não tirar o material do ar após uma notificação.
Órgãos do governo, como o Ministério da Justiça, podem pedir o bloqueio de apps e sites de “nudificação”. As próprias donas de plataformas, como Google e Apple, também têm o poder de apagar as ferramentas de suas respectivas lojas digitais.
Ao notar que há uma ou mais fotos falsas suas de nudificação circulando, o ideal é preservar a prova e registrar o conteúdo, fazendo capturas de tela visíveis e do material completo, incluindo toda a tela do computador.
Em seguida, é indicado registrar um boletim de ocorrência, anexando os arquivos salvos para relatar o crime e buscar apoio de autoridades, como delegacias especializadas em crimes virtuais ou contra a mulher.
Pedir a remoção do conteúdo pelas plataformas digitais é sugerido na sequência. Neste caso, advogados podem ajudar na coleta de provas e entrar com ação para agilizar essa retirada.
As vítimas também podem buscar apoio de entidades como a SaferNet, pela orientação gratuita via chat ou email do Helpline, enquanto denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes na internet podem ser feitas pelo Disque 100 e pela Polícia Civil.
O cuidado com a saúde mental também é importante, seja mantendo-se fora das redes ou com acompanhamento psicológico. No caso de menores de idade, a lei brasileira prevê atendimento psicológico individual.
Ferramentas atuais que sugerem se uma foto é ou não de IA não são consideradas confiáveis o bastante para servir de prova. Esses serviços até apontam se uma imagem é sintética, mas os resultados são imprecisos.
Há também limites técnicos, já que compressão, desfoque e ruídos, gerados após grande circulação de uma imagem por plataformas digitais, podem dificultar a resposta de um detector.
A tecnologia SynthID, da Google, tende a ser a mais confiável para esse tipo de detecção, mas ela tem as suas restrições e pode não identificar imagens geradas por apps de terceiros.
Acesse a seção sobre IA no site do TecMundo e saiba tudo sobre esse mercado. /Com informações de ICMEC Australia e The Guardian.
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