Região: Centrão quer mudar regras eleitorais após avanço de partidos com identidade ideológica clara
A receita era outra: os partidos deveriam se organizar como partidos nacionais coesos e nitidamente distintos, para que o eleitor soubesse em que estava votando
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Consulte formatos e valores disponíveisProfessora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ
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18.out.2026 às 17h04 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Em 1950, a Associação Americana de Ciência Política (APSA) publicou o relatório "Toward a More Responsible Two-Party System", que criticava o fato de tanto o Partido Democrata quanto o Republicano serem federações frouxas de máquinas locais, sem programa e sem disciplina. A receita era outra: os partidos deveriam se organizar como partidos nacionais coesos e nitidamente distintos, para que o eleitor soubesse em que estava votando.
Meio século depois, os partidos americanos eram ideologicamente coerentes e disciplinados no Congresso. Em 2007, Nicol Rae fez o balanço num artigo de título irônico: "Cuidado com o que você deseja". Os partidos finalmente se adequavam à demanda dos cientistas políticos, mas o fortalecimento partidário veio acompanhado de polarização e paralisia decisória. Quem pedia partidos ideológicos passou a reclamar deles.
Por aqui, a queixa de cientistas políticos, jornalistas e formadores de opinião sempre lembrou a de 1950: partidos sem programa, interessados em cargos, centrão fisiológico. Mas o cenário vem mudando desde a reforma de 2017.
Em 2026, a concentração eleitoral em partidos com identidade ideológica clara ganhou força. O PL, principal representante da direita bolsonarista, e por que não dizer ideológica, elegeu 121 deputados, a maior bancada desde 1990. Nikolas Ferreira alcançou sozinho 14 quocientes eleitorais em Minas, e Lucas Pavanato recebeu votação equivalente a oito quocientes eleitorais em São Paulo. E o "efeito Nikolas" não é defeito: em sistemas eleitorais de voto em lista o eleitor vota primeiro no partido, mesmo que não saiba disso.
A reação foi rápida. Como mostrou esta Folha , dez partidos do centrão fecharam acordo para votar uma reforma do sistema eleitoral ainda este ano. O objetivo é reduzir o peso dos puxadores de votos. Hugo Motta falou em sobreviver à "selva política".
A pressa tem explicação. Hoje, esses partidos somam 271 deputados. A partir de fevereiro, serão 252. A ideia é mudar a regra enquanto ainda há votos para isso.
Não é a primeira vez que escrevo sobre essa reforma. Em abril de 2025, Motta defendeu o sistema misto sem dizer qual problema ele resolveria. Em novembro, o sistema misto virou blindagem contra o crime organizado. Agora, é antídoto contra puxadores de votos. O problema muda, a solução é sempre a mesma.
As alternativas dizem muito. O sistema conhecido como "distritão" elege os mais votados e ignora os partidos. Exige emenda constitucional e já foi rejeitado em 2015. Simulações deste sistema para o pleito de 2026, que captam apenas o efeito mecânico da regra, sem considerar como partidos e eleitores ajustariam suas estratégias, indicam que em São Paulo, por exemplo, Adriana Ventura (Novo), Sônia Guajajara (PSOL) e Milton Leite Filho (União) ficariam de fora. Rui Falcão e Paulo Teixeira (PT), além de Orlando Morando (MDB), entrariam.
Quanto aos sistemas mistos, o modelo alemão que preserva a proporcionalidade final da distribuição de cadeiras talvez dispensasse emenda constitucional. Nele, porém, o PL continuaria do tamanho dos seus votos.
Em 1950, cientistas políticos americanos queriam mudar as regras para ter partidos ideológicos. Em 2026, políticos brasileiros querem mudar as regras para não os ter.
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