Região: Agro Brasileiro Registra 1 Bilhão de Tentativas de Ataques Cibernéticos em 2026, Diz Fortnet
Alexandre Bonatti, vice-presidente no Brasil, mostra como o FortiGuard Labs identifica um avanço mundial de 638% nas atividades maliciosas, enquanto invasões de

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Consulte formatos e valores disponíveisO agronegócio brasileiro registrou 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos entre janeiro e setembro de 2026, segundo levantamento da FortiGuard Labs, divisão de inteligência da americana Fortinet. No mundo, foram identificadas 8,3 bilhões de atividades maliciosas direcionadas ao setor, crescimento de 638,49% em relação ao mesmo período de 2025. A expansão da conectividade nas fazendas e agroindústrias amplia os riscos de sequestro de dados, manipulação de máquinas e paralisação da produção. Um exemplo dessa vulnerabilidade dos equipamentos conectados ganhou dimensão em outubro, quando criminosos assumiram remotamente o controle de sistemas de refrigeração de centenas de supermercados franceses, provocando perdas de alimentos e danos às instalações em toda a cadeia produtiva, do campo à agroindústria.
“Quando divulgamos esses números é justamente para tentar alertar o setor do agro da importância de olhar a tecnologia e olhar a tecnologia de forma segura”, afirma Alexandre Bonatti, vice-presidente de engenharia da Fortinet no Brasil. “A tecnologia está funcionando para o agro, mas ele ainda não tem uma retaguarda robusta de proteção em cibersegurança “. Há 14 anos na companhia, o executivo acompanha a evolução das ameaças digitais e identifica uma diferença entre o ritmo de adoção de tecnologias no campo e os investimentos em proteção. Para ele, a dependência crescente de sistemas conectados torna a segurança cibernética uma questão operacional para produtores, cooperativas e agroindústrias.
O ataque citado acima ocorreu na França, na noite de 11 para 12 de outubro, e atingiu unidades das redes Intermarché e Netto, do grupo Les Mousquetaires, que contabilizou cerca de 300 estabelecimentos afetados. Também foram atingidos cerca de 80 supermercados Carrefour, estabelecimentos da Coopérative U, cerca de 30 lojas Monoprix e unidades da E.Leclerc. Os invasores exploraram vulnerabilidades de sistemas de controle de refrigeração associados à fabricante dinamarquesa Danfoss, utilizados para monitorar e ajustar remotamente a temperatura de câmaras frias e congeladores. A ofensiva levou ao descarte de produtos perecíveis e à interrupção de operações comerciais.
“É muito interessante quando se fala invadir um freezer, porque estamos mais acostumados a ouvir ‘invadir um computador, invadir um celular, invadir um WhatsApp'”, afirma Bonatti. Segundo o executivo, os criminosos também exigiram pagamento para não comprometer os equipamentos. O episódio ganhou novos desdobramentos em 2 de novembro, quando outra onda de ataques a sistemas de refrigeração atingiu estabelecimentos comerciais em diferentes países europeus, incluindo Suécia, Bélgica e Alemanha.
Em janeiro deste ano, o Fórum Econômico Mundial apresentou o relatório Global Cybersecurity Outlook 2026, ressaltando que mensurar as perdas financeiras globais com ataques digitais e seus reflexos no PIB ainda é uma tarefa desafiadora, amplamente amparada em estimativas setoriais e modelos pontuais de risco. Por isso, se começa a estruturar a criação do Centre for Cyber Economics (CCE), iniciativa desenvolvida em parceria com o Global Cybersecurity Forum justamente para quantificar com precisão o impacto macroeconômico do cibercrime e embasar decisões financeiras e regulatórias com dados concretos.
No Brasil, a interferência em equipamentos conectados também aparece entre os riscos enfrentados pelas empresas agrícolas. Bonatti conta sobre casos de granjas que permaneceram com as operações interrompidas por mais de 14 dias após ataques cibernéticos. O executivo não identifica os estabelecimentos atingidos, por conta da confidencialidade e porque muitas empresas não querem se expor publicamente. “As operações foram totalmente paralisadas”, afirma.
No caso de uma operação avícola com capacidade de abate de 600 mil frangos por dia, por exemplo, uma interrupção de 14 dias em uma unidade dessa dimensão representaria 8,4 milhões de aves que deixariam de ser processadas no período. Segundo o executivo, esse cálculo é ilustrativo e não corresponde a perdas comprovadas nas granjas mencionadas, mas dá a dimensão do que pode ser um ataque. Além do abate, a paralisação pode atingir o recebimento de animais, o transporte, a armazenagem refrigerada e o fornecimento de produtos aos compradores.
A possibilidade de interromper a produção é um dos instrumentos empregados por criminosos em ataques de ransomware, modalidade que envolve o bloqueio de sistemas ou arquivos, acompanhado de exigências de pagamento. Bonatti afirma que os invasores procuram empresas nas quais a urgência para restabelecer as operações aumenta a pressão financeira.
“O atacante não quer especificamente o agro; ele quer aonde ele vai ter um retorno financeiro com menor trabalho”, diz.
Segundo o executivo, a relevância econômica da atividade agrícola e a dependência de processos contínuos aumentam o interesse dos criminosos por empresas do setor. A transformação das máquinas em equipamentos conectados amplia as possibilidades de invasão. Tratores autônomos, drones de pulverização, sensores de solo e sistemas de alimentação animal passaram a integrar redes que permitem monitoramento e comandos à distância. “Hoje um empresário do agro consegue abrir o celular e operar ou verificar o GPS de um trator pelo celular. Isso está na internet”, afirma Bonatti. Para ele, a expansão da conectividade por satélite nas propriedades rurais incorporou à internet equipamentos anteriormente operados em redes locais ou sem comunicação externa contínua.
O executivo cita o exemplo de um drone agrícola que pode ser comprometido caso criminosos explorem vulnerabilidades em seus sistemas. A instalação de programas maliciosos permitiria interferir em comandos e configurações, inclusive na aplicação de defensivos. “Aquele drone, se um invasor muda uma configuração para soltar 1 ml a mais de inseticida, isso pode acabar com quela plantação”, afirma.
O estudo da FortiGuard Labs identificou 1,6 milhão de atividades relacionadas a botnets, redes de equipamentos comprometidos que podem ser controlados remotamente por criminosos. Desse universo, 19 mil registros estão associados à família IoT-Mirai, conhecida por explorar vulnerabilidades em dispositivos conectados à internet. O monitoramento também contabilizou 1 bilhão de detecções de tentativas de negação de serviço, destinadas a interromper o funcionamento de sistemas, e 133,4 milhões de tentativas de exploração de falhas em softwares. Essas categorias representam modalidades distintas de atividade maliciosa, sem comprovar que todas resultaram em invasões.
A dimensão geográfica também aparece no levantamento, realizado com informações de mais de 1 milhão de sensores de monitoramento espalhados pelo mundo. A América do Norte concentra 81,2% das atividades maliciosas detectadas contra o agronegócio, seguida pela América Latina, com 12,6%, e pela região da Ásia-Pacífico, com 3,6%. Separadamente, o Brasil registrou 1 bilhão de tentativas no período analisado. O executivo ressalta que tentativas identificadas não significam necessariamente ataques bem-sucedidos.
Para Bonatti, no agro, a fragilidade não está somente nos equipamentos, mas na forma como a tecnologia tem sido incorporada às empresas. “O que estamos percebendo no agro é um investimento puramente em tecnologia. O setor está correndo com tecnologia, mas o investimento em cibersegurança não tem a mesma proporção”, afirma. Além disso, muitos dispositivos da Internet das Coisas, ou IoT, não permitem instalar mecanismos tradicionais de proteção, como antivírus. Nesses casos, a segurança depende de controles nas redes, restrições de acesso, atualização dos sistemas e monitoramento de atividades suspeitas.
A recuperação dos sistemas após uma invasão também depende da preparação das empresas. Bonatti afirma que organizações com equipes de segurança e mecanismos de recuperação conseguem reagir ao sequestro de informações sem a necessariamente de pagar aos criminosos. “Existem soluções que restabelecem o ambiente sem que haja esse pagamento. Agora, é preciso de maturidade em cibersegurança”, diz. Além disso, para o setor do agronegócio falta regulamentações específicas de comunicação de incidentes, o que dificulta conhecer a quantidade de ocorrências efetivas no país.
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