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Região: A dupla cidadania da eleição brasileira no território americano

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 31 de outubro de 2026 às 20:19
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Região: A dupla cidadania da eleição brasileira no território americano
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Andrew Harnik/Getty Images Donald Trump não estará na cédula nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Ainda assim, estará em praticamente todas elas. Em 3 de novembro, os americanos decidirão quem controlará o Congresso nos dois últimos anos de seu governo. Uma vitória republicana o fortalece. Uma vitória democrata aumenta os freios sobre a Casa Branca.

O curioso é que uma parte dessa disputa pode passar pelo Brasil. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, por 51,79% dos votos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, produz efeitos que não terminam na fronteira brasileira. Há pelo menos duas maneiras pelas quais o resultado pode favorecer Trump e candidatos republicanos.

A primeira está dentro dos próprios Estados Unidos. Cerca de 725 mil brasileiros nascidos no Brasil vivem no país e um terço deles já possui cidadania americana. A diáspora, incluindo descendentes, aproxima-se de 950 mil pessoas. Evidentemente, nem todos votam. Mas o contingente eleitoral deixou há muito tempo de ser irrelevante.

Em 2024, uma pesquisa do Instituto Ideia mostrou Kamala Harris com 60% e Trump com 35% entre brasileiros com direito a voto. O dado mais interessante, porém, estava na série histórica: Trump tinha apenas 10% desse eleitorado em 2016, passou a 27% em 2020 e chegou a 35% quatro anos depois.

O resultado brasileiro pode acrescentar um novo ingrediente a esse movimento. Para uma parcela dos brasileiros que construiu a vida nos Estados Unidos, a política americana deixou de ser inteiramente separada da brasileira. Trump é aliado declarado da família Bolsonaro e transformou sua relação com Brasília em tema de política externa.

Para quem enxerga a reeleição de Lula e o protagonismo do Supremo Tribunal Federal como sinais de avanço excessivo da esquerda ou de desequilíbrio institucional, fortalecer os republicanos pode significar também preservar a força do governo que, até aqui, demonstrou maior disposição para pressionar Brasília.

Isso não significa que esse eleitor concorde com toda a agenda de Trump. Há uma contradição evidente: brasileiros também estão entre os grupos atingidos pelo endurecimento migratório de seu governo. Eleições, porém, raramente são uma soma perfeitamente coerente de interesses. Identidade, memória e percepção de ameaça também pesam.

Essa percepção não precisa ficar restrita aos brasileiros. Depois de uma sequência de vitórias da direita na América Latina, imigrantes de outros países da região com direito a voto nos Estados Unidos também podem enxergar na reeleição de Lula um possível impulso à esquerda em suas terras de origem.

Para essa parcela do eleitorado, fortalecer Trump seria uma forma de conter não apenas Brasília, mas a influência que o Brasil pode exercer sobre os vizinhos. O voto é americano; a preocupação pode continuar latino-americana. A segunda via é econômica e geopolítica.

O Brasil não é Cuba nos anos 1960. A disputa atual tampouco é uma reedição da Guerra Fria, com capitalismo de um lado e socialismo do outro. O conflito brasileiro tornou-se muito mais personalizado e institucional, envolvendo Lula, a família Bolsonaro, o Supremo e uma sucessão de embates políticos, jurídicos e diplomáticos.

Mas isso não torna o Brasil irrelevante. Pelo contrário. Com um PIB de aproximadamente US$ 2,3 trilhões, o país é a maior economia da América Latina. E a reação dos mercados ao resultado eleitoral mostrou que há inquietação: no primeiro pregão após a vitória de Lula, o Ibovespa caiu 13,9% e o dólar subiu 8,2% frente ao real. Não é prova de que o Brasil caminhe para uma crise. É prova de que incerteza tem preço.

Para o eleitor americano, o Brasil dificilmente será o tema principal das urnas. Economia, imigração e política externa, sim. Pesquisas recentes mostram que a economia é o principal assunto das midterms e também a maior preocupação entre independentes. Se a maior economia latino-americana passar a ser percebida como fonte de instabilidade fiscal, jurídica ou política, Trump ganha um argumento familiar: o de que os Estados Unidos precisam de força para conter riscos no próprio hemisfério.

O efeito, naturalmente, tem limites. O Brasil não decidirá a eleição americana, assim como eleitores de origem latino-americana não formam um bloco eleitoral homogêneo. Mas eleições legislativas são decididas distrito por distrito e, muitas vezes, por margens pequenas. Nessas condições, movimentos marginais importam.

Há, portanto, uma ironia possível no resultado brasileiro. A vitória de Lula, celebrada como derrota política do bolsonarismo, pode produzir do outro lado do continente um pequeno incentivo na direção oposta: mobilizar parte do eleitorado de origem latino-americana e reforçar, entre alguns eleitores americanos, a narrativa de que Trump precisa permanecer politicamente forte.

Na política, as urnas também têm efeitos que atravessam fronteiras.

Ticiano Figueiredo é advogado, mestre em administração pelo MIT com certificação em Business Analytics, fundamentos de inteligência artificial e IA aplicada ao empreendedorismo pelo MIT Open Learning

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