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Paulo Borges e a Trama do SPFW em Nova Série — Costureiro de Pessoas

“Muito Além da Moda” chega ao seu terceiro e último episódio nesta quinta-feira (05.11), integrando o catálogo de streaming Universal+ O post Costureiro de Pess

Por Redatores da Empire Cidades 5 de novembro de 2026 às 05:00
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Paulo Borges e a Trama do SPFW em Nova Série — Costureiro de Pessoas
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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“ Eu não sabia exatamente onde ia chegar, mas sabia qual seria o ponto de partida ”, diz Paulo Borges. Ele está falando do momento em que concebeu a São Paulo Fashion Week, semana de moda que idealizou 30 anos atrás e que, como o tempo mostrou, se tornou parte incontornável da história da moda brasileira – inclusive, no que diz respeito ao que ainda está por vir. Está aí a importância de “Muito Além da Moda”, série dirigida pelo documentarista Richard Luiz que estreou no canal E! e que chega ao seu terceiro e último episódio nesta quinta-feira (05.11), integrando a partir de amanhã também o catálogo da plataforma de streaming Universal+.

“Sempre entendi a necessidade de ter uma semana de moda. Eu viajava e, quando voltava, pensava: o que temos em São Paulo?”, ele lembra, ao revisitar a memória de quando, ainda aos 18 anos, frequentava com olhar curioso os desfiles do circuito Paris-Milão-Londres. À época, a credencial era de profissional iniciante: Paulo chegou a trabalhar como assistente no pit de fotógrafos, o espaço destinado à aglomeração de câmeras que registram, na ponta da passarela, os looks exibidos pelas marcas. Para ele, um ponto de vista privilegiado – talvez mais do que a cobiçada fila A –, do qual ele pôde observar a estrutura logística e criativa que sustentam o funcionamento de um desfile de moda. Depois que os primeiros quatro ou cinco looks riscavam a passarela, o olhar de Paulo passeava por lugares pelos quais ninguém mais estava olhando: a maneira que as luzes eram montadas para incidir sobre as modelos, quantos passos cada uma delas dava da boca de cena até o pit, de que maneira a trilha sonora contribuía para o ritmo da apresentação, qual era a intenção do cenário para criar a atmosfera que envolvia cada coleção.

Mas Paulo olhava também, e principalmente, para as pessoas. Todas aquelas que fazem a engrenagem de uma fashion week funcionar, semestre após semestre, ano após ano. “ Em um momento do documentário, me defino como costureiro de pessoas. Acho que foi isso que eu fiz o tempo todo. Quando eu comecei, quase quatro décadas atrás, não se pensava de maneira coletiva. Ninguém pensava em dividir, ninguém pensava em dar as mãos. Não se pensava em somar forças, dificuldades, fortalezas. A essência do negócio de moda no Brasil, naquele momento, estava no protagonismo absoluto, no individual. E eu não acreditava nisso. Eu pensava que, juntos, todos seríamos mais fortes. Essas foram coisas importantes de quebrar, logo de início”, conta, sobre o formato de apresentação de nossos estilistas, que antes montavam seus shows de maneira independente, cada um por si. Criar um calendário de moda, como pontua a consultora de moda Gloria Kalil logo no primeiro episódio, foi algo que extrapolou o benefício primário da concentração de lançamentos de coleções: ajudou a própria indústria e o varejo a se organizarem dali em diante, repensando a lógica da cadeia de produção aos buyers.

Pode parecer inconcebível, em especial para as novas gerações que nos lêem, mas houve um momento, e nem faz tanto tempo assim, em que não existiam de maneira profissional muitos dos ofícios especializados de moda, como o dos stylists, beauty artists, iluminadores de passarela e coordenadores de camarim. “Até mesmo a carreira de modelo”, Paulo lembra. “Ainda não era algo secundário, quase algo de sorte. Na época, não existiam agências como as conhecemos hoje, não havia um critério de cachê”. Na série, o tema rende assunto: estamos falando, afinal, de uma categoria profissional que também teve no SPFW o impulso de projeção do Brasil para o mundo, com gerações extraordinárias de top models “tipo exportação” – Gisele Bündchen, Carol Trentini, Isabeli Fontana, Shirley Mallmann, Alessandra Berriel e Carol Ribeiro são alguns dos nomes que integram o casting da série.

Para o diretor, narrar o percurso de Paulo é também revisitar a ideia de transformação. “ Paulo teve um papel importante ao reunir talentos e criar uma plataforma que deu visibilidade e consistência à moda brasileira. Ter acompanhado isso desde 1997 me ajudou a construir uma narrativa que relaciona sua história com as mudanças culturais e profissionais do setor ”, diz Richard, que gravou ou dirigiu, ele mesmo, cerca de 90% das imagens que integram a série, do fim da década de 1990 até os dias atuais. Há desfiles que perdoam o uso cansativo da palavra icônico, como o realizado por Jum Nakao em 2004; e depoimentos de bastidores contados em primeira pessoa, que vão do dia em que uma novíssima Gisele Bündchen entrou na passarela com um gato arisco até a despedida da top das passarelas, durante o SPFW.

Não seria errado dizer que, entrelaçada com a trajetória profissional de Paulo, a série se torna um documento fundamental para entender também a construção e evolução de uma identidade nacional para nossa semana de moda. O formato não veio de um template. “E nem daria certo, porque o Brasil não é a França, o Brasil não é a Inglaterra, o Brasil não é a Itália, o Brasil não é os Estados Unidos. Em todos os aspectos: sociais, culturais, econômicos e históricos. Nós somos um povo que foi colonizado; o Brasil demorou para criar uma cultura de formação de marca, porque nos foi ensinado que o bom é o que vem de fora. Não é que a gente acredite isso, mas é que isso foi colocado em nós como um mantra. Por isso que se fala sobre o ‘jeitinho brasileiro’. E aí, para fazer a São Paulo Fashion Week, eu não usei ‘jeitinho brasileiro’ nenhum. Eu trabalhei para um projeto único, que atendesse ao Brasil, sem ter que dar amém ou beijar os pés de ninguém. Foi um modelo de pensamento de semana de moda que era necessário para nós, nesse sentido”.

O projeto de Paulo sempre foi pensado a longo prazo. Isso fica visível com o line-up de marcas, que se tornou progressivamente mais diverso, em especial no que diz respeito às manifestações de criadores de moda de diferentes regiões do país. “ É impossível personalizar um país que é tão grande, tão múltiplo, de tantas diferenças culturais e sociais, em uma única forma. Quando você pensa assim, a moda francesa é luxuosa, a moda italiana é sexy, a moda inglesa é irreverente, a moda americana é comercial. Mas e a moda brasileira? Você não consegue botar uma palavra só pra dizer qual é o tamanho da nossa criatividade. E nosso potencial também está nisso”, reflete. “Nós vivemos com muitos estereótipos. Eu me lembro da imprensa internacional chegando aqui e falando: ‘nossa, eu imaginei que na rua as pessoas se vestissem mais coloridas’. Eu falei, ‘mas por quê? Tem lugar que você vai assim, mas tem lugar que não’. O Brasil é muito rico, cada região nos dá muitas histórias”.

E como Paulo visualiza o futuro da semana de moda brasileira? “Eu acho que a gente tem que resgatar os princípios, inverter a lógica da velocidade, fazer com que a arquitetura construtiva seja protagonista e fazer com que a observação crítica seja mais aprofundada. Eu acredito que o mundo está entrando em um outro momento do século, em que a gente está revisando valores. E eu acho que isso tem que estar espelhado numa semana de moda”. De que forma? “Quase como se estivéssemos dando dois passos para trás, para que a gente possa recuperar a atenção das pessoas naquilo que importa. Moda é algo muito maior e mais sério, no sentido do que ela significa. A rede social, por exemplo, trabalha num processo extremamente descartável: aquilo que eu falo, aquilo que eu vejo, aquilo que eu posto, aquilo que eu penso, é tudo descartável. Dois dias depois, ninguém mais está falando nisso. A moda não pode ser assim. A roupa pode. Mas a moda não ”, finaliza.

Confira abaixo um trecho do capítulo final da série “Além da Moda”, que vai ao ar nesta quinta-feira (05.11), integrando a partir de amanhã também o catálogo da plataforma de streaming Universal+.

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