Panorama: Vamos triplica lucro, mas resultado pode não reverter tombo na bolsa pós-eleição
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Consulte formatos e valores disponíveisVamos triplica lucro, mas resultado pode não reverter tombo na bolsa pós-eleição Resultado veio acima do esperado, mas juros altos ainda pesam sobre o papel Vamos: ação acumula queda de mais de 20% no ano (Vamos/Divulgação/Divulgação)
Última atualização em 30 de outubro de 2026 às 10h59.
Priorizar nos meus resultados Google A Vamos (VAMO3) entregou na quinta-feira, 29, o balanço que boa parte do mercado queria ver. O lucro líquido do terceiro trimestre somou R$ 150,9 milhões, quase o triplo dos R$ 50,4 milhões de um ano antes e o maior resultado em sete trimestres. O número ficou 14,1% acima do consenso de mercado, segundo o Safra, e 10% acima da projeção do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
Ainda que o resultado tenha sido elogiado pelas casas de análise, a ação volta a ser penalizada na B3. Nesta sexta-feira, 30, VAMO3 segue presa ao patamar de R$ 2 a que foi levada na segunda-feira, 26, primeiro pregão depois da reeleição do presidente Lula.
Na sexta-feira anterior ao segundo turno, os papéis da locadora de caminhões, máquinas e equipamentos fecharam a R$ 6,13. Na segunda, terminaram a R$ 2,46, uma queda de 56,79% em um único pregão, a segunda maior do Ibovespa num dia em que o índice caiu 13,88%, a maior baixa diária em seis anos. Só a Magazine Luiza caiu mais.
Na quinta-feira, dia da divulgação do balanço, a ação fechou de novo a R$ 2,46, perto da mínima de 52 semanas, de R$ 2,40. Desde a véspera do segundo turno até o fechamento de ontem, a desvalorização era de 59,9%. No ano, a queda é de 24%, e a empresa vale hoje cerca de R$ 3 bilhões na bolsa.
O tombo apagou um rali inteiro. Em 20 de agosto, a ação fechou exatamente nos mesmos R$ 2,46 de hoje. Dali até 9 de outubro, subiu 169% e chegou a R$ 6,61, impulsionada pela aposta do mercado na vitória de Flávio Bolsonaro (PL). No pregão seguinte ao primeiro turno, em 5 de outubro, o papel avançou 21,31%.
A Vamos estava entre os nomes mais expostos à virada. Com uma dívida líquida de R$ 11,7 bilhões, a companhia depende de crédito para comprar os caminhões e máquinas que aluga, e os juros futuros dispararam com a perspectiva de uma política fiscal mais expansionista após o resultado do segundo-turno. No próprio dia 26, antes da abertura, o analista Flávio Conde já incluía a Vamos na lista de empresas endividadas que mais sofreriam caso os juros longos ficassem altos.
A receita líquida de locação bateu recorde, com R$ 1,16 bilhão, alta de 11,4% em um ano. A receita líquida total subiu 4,3%, para R$ 1,59 bilhão, freada pela receita com venda de ativos usados, que recuou 21,4%. O Ebitda consolidado passou de R$ 1 bilhão pela primeira vez, com margem de 65%, 6,4 pontos percentuais acima do terceiro trimestre de 2025.
Um dos dados mais observados pelos analistas foi o das retomadas e devoluções antecipadas de veículos, que mede quanto da frota volta para a empresa antes do fim do contrato. O volume caiu 56%, para R$ 111 milhões, o menor patamar desde o início das retomadas, no primeiro trimestre de 2023. Em termos anualizados, representou 2,4% da frota, contra 5,5% em 2025.
A companhia também renovou contratos em ritmo recorde. As extensões somaram R$ 970,1 milhões em nove meses e já superam o teto da meta para o ano inteiro, de R$ 900 milhões. A carteira de receitas futuras de locação chegou a R$ 12,9 bilhões.
A alavancagem, medida pela dívida líquida sobre o Ebitda, caiu para 2,93 vezes, ante 3,27 vezes um ano antes. A meta da empresa era chegar a 3 vezes só em dezembro.
Parte relevante do salto no lucro veio da linha financeira. A despesa financeira líquida caiu 14,7%, para R$ 479,8 milhões. A empresa atribui a queda a três fatores: a variação negativa do IPCA em agosto, que reduziu a TLP, taxa de longo prazo cobrada nas linhas do Finame, do BNDES; a redução da taxa básica de juros; e o aumento de capital feito no segundo trimestre. Mesmo assim, o CDI médio do período foi de 14,1%.
É justamente a trajetória dos juros que a eleição colocou em dúvida. No relatório sobre o trimestre, o BTG afirma que "todos os olhos" estão voltados para os juros. O banco também aponta que o spread entre o retorno sobre o capital investido e o custo da dívida caiu de 3,5 para 3,1 pontos percentuais no trimestre. Ou seja, a diferença entre o que a Vamos ganha e o que a empresa paga de juros diminuiu.
O Safra também observa que o retorno dos novos contratos ficou menor, reflexo de clientes maiores e prazos mais curtos.
Dois itens limitaram um avanço ainda maior do lucro. A depreciação, que mede o desgaste da frota, subiu 26%, para R$ 344,2 milhões. A empresa atribui a alta à entrada de mais ativos novos e a ajustes pontuais em máquinas e equipamentos, ligados a descontos para vender mais rápido ativos devolvidos com avarias.
A alíquota efetiva de imposto foi a 28,7%, ante 15,6% no terceiro trimestre de 2025, uma base de comparação atipicamente baixa. No acumulado do ano, a alíquota está em 25,5%, próxima dos 24,4% de 2025.
O Safra manteve recomendação equivalente a compra e preço-alvo de R$ 4,70, potencial de alta de 91%. Os analistas Luiz Peçanha e Arthur Godoy sustentam a tese principalmente no preço. Segundo eles, a Vamos negocia a 6,7 vezes o lucro projetado para 2026, 28% abaixo da média histórica de cinco anos.
O BTG Pactual também recomenda compra, com preço-alvo de R$ 4,50, alta potencial de 82,9%. O tom do relatório, porém, é mais cauteloso. "Apesar de resultados trimestrais mais fortes e mais limpos, avaliamos que os investidores ficaram mais cautelosos com empresas domésticas, em um ambiente de juros mais altos e risco de desaceleração econômica", escrevem Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim. "Por isso, esperaríamos maior visibilidade sobre o ritmo da atividade econômica antes de adotar uma postura mais construtiva."
Entre os pontos que o banco recomenda acompanhar estão o impacto da turbulência macroeconômica, a evolução das retomadas, o amadurecimento do Sempre Novo, produto de locação de caminhões seminovos, e a capacidade da empresa de reajustar preços com juros mais altos.
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