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Panorama: Sem título

Pesquisa mostra que foi antes do que se pensa

Por Redatores da Empire Cidades 30 de outubro de 2026 às 20:50
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Panorama: Sem título
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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“Ainda não voltou a paz aos morros da cidade.” Assim começa uma reportagem publicada em janeiro de 1954 no Correio da Manhã, jornal de grande circulação no Rio de Janeiro daquela época. Embora fale de morros, no plural, o texto trata especificamente da favela da Mangueira, na Zona Norte. Noticiava que “delinquentes” haviam criado ali um “novo método” de faturar com o crime. “A pretexto de defender os moradores contra os assaltantes”, dizia o jornal, um grupo local tinha passado a “recolher dinheiro dos proprietários de tendinhas ou ‘biroscas’” da favela. A esse grupo se dava o nome de “polícia do morro” ou “polícia mineira”.

A reportagem é, muito possivelmente, a primeira da imprensa carioca a usar a expressão “polícia mineira” para designar organizações que atribuem a si mesmas a tarefa de policiar territórios e fazer justiça com as próprias mãos. Nos meses seguintes, o termo foi se tornando mais corriqueiro. O recém-fundado jornal Luta Democrática noticiou, em agosto daquele mesmo ano, um espancamento no Morro dos Telégrafos – nome de uma localidade específica da Mangueira –, promovido por um “bando que compõe a ‘polícia mineira’”. Ao final da reportagem, o jornal conclamava as autoridades a tomarem alguma providência, já que “a ‘polícia mineira’ é realmente um constante perigo para os pacatos moradores dos morros”.

No começo, esses grupos eram retratados de forma negativa, mas isso não tardou a mudar. Em março de 1955 – portanto, menos de um ano depois da reportagem alarmista sobre o Morro dos Telégrafos –, o Luta Democrática já demonstrava ter mudado de opinião. “Os pacatos moradores do Morro da Mangueira sentiam a necessidade de organizar uma polícia própria para combater os delinquentes, visto que o morro se transformara num ninho de bandidos”, dizia um texto do jornal, em tom apologético. “O tenente reformado da Marinha Otávio Ribeiro, morador há quase vinte anos na base da Mangueira, reuniu uma turma de moradores corajosos, apelou para amigos na polícia, fez subscrição popular e organizou a ‘polícia mineira’.” Mas a reportagem conta que o grupo, depois de um êxito inicial, foi desbaratado pelos criminosos. Por isso a manchete na capa do jornal: “A vingança dos bandidos.”

A guinada de opinião no Luta Democrática não é de espantar. Mais surpreendente é que o jornal tenha inicialmente criticado esses grupos, considerando que seu publisher era Tenório Cavalcanti, político conhecido por adotar práticas semelhantes de justiçamento na Baixada Fluminense. Em março de 1954, meses antes da primeira menção à “polícia mineira”, o jornal havia publicado uma reportagem em que o deputado Almir Moura dizia que a única solução contra a criminalidade na Baixada era “entregar o policiamento” a Cavalcanti. O dono do Luta Democrática usava o veículo para consolidar sua imagem de justiceiro, como conta o historiador Israel Beloch no livro Capa Preta e Lurdinha (1986). Seu apelido era “o homem da capa preta”, porque costumava usar vestes assim, escondendo debaixo delas sua submetralhadora de nome Lurdinha, que levava consigo aonde quer que fosse.

Mas não foi só na Luta Democrática que a imagem da “polícia mineira” se transformou. Aos poucos, a imprensa carioca passou a pintá-la em cores mais favoráveis – uma abordagem que foi dominante até o começo do século XXI.

A “polícia mineira” é uma das raízes daquilo que, no começo dos anos 2000, passamos a conhecer como grupos paramilitares e, principalmente, como milícias. A essa altura, o fenômeno já havia se alastrado pelo Rio de Janeiro. O relatório final da CPI que investigou essas organizações, sob a liderança do então deputado estadual Marcelo Freixo, pintou um cenário grave. Mais de duzentas pessoas foram indiciadas pela comissão, entre elas vereadores e dezenas de policiais militares.

O processo de transformação da “polícia mineira” em milícia é conhecido e já foi descrito em detalhes nos vários livros que tratam do assunto. A tese mais aceita é de que esse processo aconteceu primeiro, ou ao menos de forma mais consistente, na comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. Mas a origem da “polícia mineira”, antes disso, não é tão clara assim. Quando se mergulha na bibliografia acadêmica ou jornalística sobre o tema, encontram-se diferentes explicações, quase todas situando o surgimento desses grupos nas décadas de 1970 e 1980.

Com algumas modulações, a história costuma ser mais ou menos assim: no fim dos anos 1950, o então secretário de Segurança Pública do Rio, Amaury Kruel, criou o Serviço de Diligências Especiais, departamento que deu origem ao primeiro esquadrão da morte da polícia fluminense. A partir daí, uma sucessão de acontecimentos – entre os quais se destacam o assassinato do policial Milton LeCocq em 1964, a subsequente caça ao criminoso Cara de Cavalo, acusado de tê-lo matado, e em seguida a criação da Scuderie LeCocq – consolidou esses esquadrões. Nos anos 1970, eles se espalharam na forma de “polícias mineiras”.

Mas a história real é um pouco diferente. Como demonstram as notícias dos jornais cariocas, o germe das milícias já existia nos anos 1950. Essas reportagens podem ser encontradas na Hemeroteca Digital, portal da Biblioteca Nacional que reúne o acervo de muitas publicações jornalísticas. Não é uma busca simples de se fazer, afinal quando se procura pelo termo “polícia mineira” encontra-se uma infinidade de menções literais – isto é, notícias e artigos sobre a polícia de Minas Gerais. Nos jornais cariocas da década de 1940, a expressão apareceu 436 vezes, todas no sentido literal. Na década de 1950, porém, o termo começa a ser usado para se referir a grupos paramilitares. O que não quer dizer que a expressão “polícia mineira” tenha surgido naquela década: é possível que já circulasse na boca da população antes disso, mas que tenha demorado a ser notada pela imprensa.

Até hoje, ninguém sabe com clareza o motivo desses grupos serem chamados de “polícia mineira”. Há duas hipóteses correntes. Uma diz que a polícia de Minas era conhecida pelos métodos violentos e que, por isso, o termo acabou sendo aplicado aos paramilitares cariocas, que também se destacavam nesse quesito. A outra hipótese diz que a expressão vem do verbo “mineirar”, no sentido de extrair recursos, extorquir – prática típica desses grupos. Não há nos jornais, porém, qualquer indício que confirme uma ou outra hipótese. É conhecido o fato de que, na década de 1950, atuava na Mangueira um criminoso chamado José Miranda Rosa, o “mineirinho”, que chegou a ter alguma fama. O termo pode ter surgido como referência a ele? Também não há, por ora, evidências confirmando essa tese.

A pesquisa traz, também, um outro elemento que diverge da história que normalmente se conta sobre as milícias. Todas as primeiras menções à “polícia mineira” na década de 1950 se referem a grupos atuantes na Zona Norte do Rio, como nas favelas da Mangueira, do Esqueleto, do Tuiuti e do Turano. É um indicativo de que essas organizações, que mais tarde prosperaram na Baixada Fluminense e, posteriormente, ficaram famosas por operar na Zona Oeste do Rio, talvez tenham surgido, na verdade, em diferentes regiões ao mesmo tempo.

Folhear os jornais das décadas de 1950 e 1960 desperta uma estranha sensação de familiaridade. Muitas práticas que hoje identificamos com as milícias já estavam presentes naquela época. A primeira delas, naturalmente, é a violência. Uma reportagem de 1958 do jornal Luta Democrática conta que um homem chamado Miguel Paranhos, morador do Morro do Turano, havia procurado a delegacia local para denunciar a “polícia mineira” da favela. “Com fratura no braço esquerdo, diversas escoriações e ferida na cabeça”, Paranhos, acompanhado de outras três pessoas, relatou que “seu barracão fora invadido e ele barbaramente espancado”. Segundo o jornal, ele também disse estar impossibilitado de voltar para casa, “uma vez que as ruas que davam acesso ao morro estavam tomadas pelos elementos da referida polícia. Se alguém desejar passar, não o faz antes que seja devidamente revistado e se apresentar qualquer suspeita será atrozmente espancado”.

A despeito desse e de outros relatos, os métodos violentos da “polícia mineira” passaram a ser tratados com alguma naturalidade na imprensa. Às vezes, com humor. “A verdade é que só a polícia não dá para espantar assaltantes e os marginais na nossa vila de São Sebastião. E então, a própria população de Bangu organizou uma brigada de proteção ao bairro que chama ‘polícia mineira’”, escreveu na Tribuna da Imprensa, em 1961, Don Rossé Cavaca, nome artístico do cronista e humorista José Martins de Araújo Júnior. “Procurei um desses rapazes da ‘polícia mineira’ pra que me dissesse como se faz a limpeza do bairro”, ele contou no texto, relatando em seguida a resposta que disse ter ouvido do entrevistado: “A gente sai em frente. Quando vê uma pinta estranha, aborda e faz perguntas. Se ele diz que não é do bairro, a gente dá uma solução. Faz como a torcida do Flamengo quando aparece um vascaíno ali do lado esquerdo da Tribuna do Maracanã!”

Três meses depois, o Luta Democrática noticiou o assassinato de Sebastião de Melo, um militar de 22 anos, no Morro da Cachoeira Grande, na Zona Norte. “Sebastião foi eliminado com um tiro de revólver na cabeça, por um elemento da chamada ‘polícia mineira’”, diz a reportagem, que revela ainda outro aspecto das futuras milícias: o vínculo com agentes do Estado. Os assassinos de Sebastião, que acabaram presos, eram um soldado do Exército e um guarda rodoviário.

Outras notícias reforçam esse vínculo. Em alguns casos, mostam ainda uma aceitação ora tácita, ora explícita, por parte das autoridades. “Revoltados com a onda de assaltos praticados pelos marginais que infestam a localidade, sessenta moradores de Padre Miguel, Realengo e Bangu, tendo à frente o 1º tenente do Exército, Francisco de Paula Soares, criaram, ontem, sua própria polícia e já, a partir de amanhã, armados de paus, facas e revólveres, estarão fazendo o policiamento nas ruas”, relatou o jornal Última Hora, em 1961, dizendo em seguida: “Os integrantes da ‘polícia mineira’ foram, ontem, à delegacia do 28º Distrito Policial para expor ao delegado substituto, Carlos Brito, e ao comissário Madalena, os planos de policiamento.”

O consentimento do poder público fica ainda mais claro em uma reportagem da Tribuna da Imprensa publicada no mesmo ano. “Contra transviados, só polícia mineira”, dizia o título. “Transviado” era um termo pejorativo e preconceituoso utilizado naquela época para designar as travestis. “Quase todas as delegacias de polícia da Zona Norte aceitaram a formação de ‘polícias mineiras’ pelos moradores do Méier, Encantado, Todos os Santos, Pilares, Honório Gurgel e Marechal Hermes, que são atacados há mais de uma semana por quadrilhas de transviados.”

Fica claro como a “polícia mineira” era um mecanismo por meio do qual se buscava eliminar pessoas indesejáveis. Esse ímpeto se manifestou também nos bairros mais ricos da cidade, como mostra uma reportagem publicada no Última Hora na mesma época. O título era “População revoltada organiza brigadas para caçar homicidas”. E o texto relatava: “Caso a polícia não faça cessar os frequentes assaltos e homicídios na Zona Sul, os moradores de Ipanema estão na firme disposição de subir o Morro do Cantagalo e atear fogo à favela ali existente.” Da “brigada para caçar homicidas” a um plano de eliminação física dos moradores da favela, bastava um pulo.

A tensão entre o asfalto e as favelas na Zona Sul volta a aparecer em 1963, numa reportagem do Luta Democrática. “Os comerciantes da Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon, estão revoltados com a onda de crimes e a falta de policiamento naquele bairro”, dizia o texto, ressaltando a indignação dos comerciantes pelo fato de que a polícia teria “deixado o local entregue aos marginais da [ favela da ] praia do Pinto.” O representante dos comerciantes fez um apelo e disse ao jornal que, se não houvesse “uma solução para o caso nos próximos dias”, eles criariam “uma polícia particular, mais conhecida por ‘polícia mineira’, para garantir o funcionamento do comércio”. Essa polícia, diz o entrevistado, faria “justiça com as próprias mãos fuzilando todos os assaltantes” que eventualmente aparecessem no bairro.

A crônica policial fluminense tem personagens célebres. LeCocq, Mariel Mariscott, Perpétuo de Freitas e o delegado Sivuca são alguns dos nomes que habitam esse imaginário. Muitas vezes, a história da instituição – e a história da violência no Rio de Janeiro, como um todo – é contada a partir de suas trajetórias individuais.

Em sua dissertação de mestrado em antropologia na Universidade Federal Fluminense (UFF), defendida em 2008, o ex-capitão do Bope Paulo Storani consagrou uma das versões que mais se popularizaram sobre a atuação da polícia fluminense na década de 1960. Segundo ele, havia naquela época uma clivagem nas forças policiais. De um lado, havia “um grupo liderado pelo detetive [ Milton ] LeCocq, caracterizado pelo confronto”; de outro, o grupo do “detetive Perpétuo [ de Freitas ], caracterizado pela resolução de problemas sem o emprego de armas de fogo e com a prisão do criminoso”. Segundo essa narrativa, ainda hoje muito arraigada, o crescimento das milícias nas décadas seguintes representou, em última instância, uma vitória do modelo LeCocq em detrimento do modelo Perpétuo.

Mas a história talvez não seja tão simples. Em março de 1961, o matutino O Jornal noticiou: “Homens de Perpétuo são autores da morte do operário João Ferreira.” Segundo a reportagem, Ferreira fora morto “por engano”, a “tiros de metralhadora no Morro da Matriz”, enquanto dormia em seu barraco, “violentamente invadido pelos agentes policiais que estavam caçando o delinquente ‘Miguelzinho’”. Entre os autores do crime estavam “elementos da ‘polícia mineira’, organização criada na favela do Esqueleto pelo detetive Perpétuo e integrada por moradores e alcaguetes que ajudam as autoridades a localizar e prender os marginais que invadem o morro”.

A afirmação de que Perpétuo liderava a “polícia mineira” do Esqueleto, mesmo que não seja confirmada por outras fontes, põe um grão de sal na sua biografia de good cop. Além disso, mostra que os arquétipos de mocinho e vilão provavelmente não se encaixam tão bem na história da violência policial no Rio. Nas notícias de sessenta anos atrás sobre a “polícia mineira”, o que vemos é uma prática que já se espalhava muito antes de alguns episódios que, hoje, costumam ser apresentados como a certidão de nascimento dos esquadrões da morte e dos grupos de extermínio.

Os jornais da década de 1970 já retratam um outro contexto, quando, sob a ditadura militar, esses grupos paramilitares cresceram e se complexificaram. É uma pesquisa que ainda está por ser feita, mas cujo teor pode ser antecipado em uma manchete do Luta Democrática de março de 1975: “Polícia mineira não perdoa, mata.” O jornal de Tenório Cavalcanti encerrou as atividades no final da década seguinte, pouco depois da morte do dono. Suas ideias, no entanto, continuam circulando até hoje. Por pouco, um político vinculado à tradição das “polícias mineiras” do Rio de Janeiro não se sentou na cadeira de presidente da República, eleito pelo voto popular.

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