Panorama: Menos guerra, mais ciência
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Consulte formatos e valores disponíveisMenos guerra, mais ciência Primeira brasileira a assumir um cargo na diretoria global da Unesco, a médica Denise Pires de Carvalho tem como desafio aproximar conhecimento e sociedade
CartaCapital: A senhora chega à direção da Unesco em um cenário de disputa geopolítica pela hegemonia científica e tecnológica, marcado por uma crescente guerra cultural. Como analisa esse cenário e quais os riscos para a produção científica mundial? Denise Pires de Carvalho: Os cientistas sempre foram perseguidos ao longo da história. Hoje, porém, não há como a ciência deixar de ser levada em consideração. Com o avanço científico e tecnológico, os dados estão aí. A internet e as redes sociais, que imaginei que democratizariam o conhecimento, também passaram a ser utilizadas para divulgar notícias falsas e questionar a ciência. Usa-se a própria ciência para perseguir a ciência. Meu cargo na Unesco é fundamental para aproximar o conhecimento das demandas da sociedade. Nossa missão é reduzir desigualdades, atender às populações vulneráveis, promover a equidade de gênero e combater a discriminação e o racismo. A Unesco defende um mundo mais pacífico, com menos guerras e mais ciência.
CC: Quais são as suas prioridades à frente do cargo? DPC: Elaborar programas mais integrados entre as ciências humanas e sociais e as ciências naturais. Precisamos preservar a biodiversidade, proteger as comunidades que habitam as reservas da biosfera e os geoparques e valorizar o conhecimento local. Quero dar continuidade ao trabalho que desenvolvi no governo Lula e na UFRJ em defesa de uma educação superior inclusiva. Fiquei muito emocionada com a escolha e espero contribuir à altura desse desafio internacional, especialmente nos países mais vulneráveis.
CC: O Brasil sai de uma eleição presidencial acirrada, com a sociedade dividida e uma base social de extrema-direita consolidada. Quais os impactos do avanço do ultraconservadorismo sobre a ciência? DPC: O impacto depende de quanto as pessoas têm acesso à informação correta e buscam fundamentar suas decisões na ciência. As vacinas são um exemplo: não há motivo científico para questionar os imunizantes, mas grupos políticos lideraram movimentos antivacina. Isso é ideologização da ciência. Ela não é religião nem questão de crença, mas de confiança. É preciso buscar informações em fontes oficiais e instituições sérias, comprometidas com a educação de qualidade. Uma medicação, por exemplo, passa por testes clínicos em diferentes fases. Não cabe a um leigo determinar o uso de um remédio. Precisamos evitar ser massa de manobra e ouvir mais a ciência.
CC: Como a Inteligência Artificial está transformando a produção científica e como garantir que seu uso não comprometa o rigor, a originalidade e a autoria dos trabalhos? DPC: A Unesco publicou, em 2021, uma recomendação sobre ética no uso da Inteligência Artificial, antes da popularização dos chats de IA, a partir de 2023. O Comitê Executivo da Unesco, formado por 58 países membros, conta com um grupo de trabalho que vai formular um novo documento, a ser publicado muito provavelmente no próximo ano, com uma nova recomendação sobre Inteligência Artificial.
“Existe um gargalo que impede as mulheres de avançar, por isso criamos a bolsa de pós-doutorado durante a maternidade”
CC: Qual é a posição do Brasil no cenário científico internacional e o que falta para transformar sua capacidade de pesquisa em protagonismo global e autonomia tecnológica? DPC: O Brasil está entre os 15 países que mais produzem ciência e tem pesquisadores reconhecidos internacionalmente. Minha formação foi toda brasileira, da graduação ao doutorado, com exceção de um período de pós-doutorado. Tenho orgulho disso e de ter formado 34 doutores. Nossa ciência é consolidada. Hoje há mais de 850 projetos de Inteligência Artificial no âmbito da Capes, sem contar os que não estão cadastrados e os desenvolvidos no setor privado. O que falta é investimento. Precisamos de um fundo nacional de ciência e tecnologia que alcance 2% do PIB. A China se tornou uma potência investindo perto de 2,5% do PIB em pesquisa. A ciência não pode depender dos governos de ocasião, precisa ser uma política de Estado, como ocorre com a Capes e o CNPq.
CC: Como sua experiência à frente da Capes, com iniciativas para ampliar a participação das mulheres na pesquisa, pode contribuir para sua atuação na Unesco? DPC: A Unesco tem uma diretoria voltada à igualdade de gênero. Vamos atuar estrategicamente com esses setores e com programas nos países, sobretudo naqueles com maior desigualdade. No Brasil, as mulheres são maioria entre mestres e doutores, mas continuam sendo minoria entre docentes da pós-graduação na maior parte das áreas, com exceção das ligadas ao cuidado. Existe um gargalo que impede as mulheres de avançar. Por isso, criamos um comitê permanente de equidade de gênero na Capes e implantamos programas como o Aurora, que oferece bolsa de pós-doutorado a mulheres durante a maternidade, permitindo que contem com supervisão e apoio para manter suas atividades acadêmicas nesse período.
CC: Como evitar que o conhecimento científico fique concentrado nas grandes potências e em poucas empresas, ampliando a dependência tecnológica dos países em desenvolvimento? DPC: Os países têm diferentes níveis de desenvolvimento. Nos países com maiores dificuldades, são necessários projetos de Estado para formar pessoal qualificado. No caso específico do Brasil, já temos capacidade instalada para avançar, mas precisamos ampliar a formação de doutores e aproximar a pesquisa das empresas. Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra e China seguiram esse caminho. O Brasil é o segundo país do mundo em quantidade de minerais críticos e terras-raras. Vamos repetir com esses recursos o que fizemos com o ouro, os diamantes e o petróleo bruto? Continuaremos como uma colônia de exploração, exportando matérias-primas, ou produziremos nossos chips e satélites? O salto de desenvolvimento depende de investimentos em alta tecnologia. Nenhum país alcançou isso sem investir nas instituições que produzem conhecimento. Para a soberania, só a ciência. Para a independência verdadeira, só a ciência. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital , em 28 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Menos guerra, mais ciência’
Fabíola Mendonça Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco
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