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Panorama: Lula enfrenta desafio de descer do palanque e retomar negociações com EUA e Argentina

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 8 de novembro de 2026 às 08:00
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Panorama: Lula enfrenta desafio de descer do palanque e retomar negociações com EUA e Argentina
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Priorize VEJA no Google Ler Resumo Lula explorou atritos com Trump e Milei para impulsionar sua reeleição, posicionando-se como defensor da soberania. O desafio agora é focar na diplomacia profissional para resolver tensões com EUA e Argentina, buscando proteger os interesses do Brasil em um cenário global complexo, apesar de ser visto como símbolo de resistência ao extremismo. Este resumo foi útil?

O presidente Lula soube explorar as investidas de Donald Trump contra o Brasil para recuperar popularidade e ganhar impulso na campanha eleitoral. Em busca de seu quarto mandato, ele também usou o governo de Javier Milei, na Argentina, para desgastar o senador Flávio Bolsonaro, a quem derrotou no segundo turno da corrida presidencial por uma diferença de 4,4 milhões de votos. A estratégia de contrapor o líder da esquerda brasileira, com seu discurso em defesa da soberania e da democracia, a duas referências mundiais da direita radical — uma, acusada de ser imperialista, a outra, de ser subserviente ao império — deu certo em termos eleitorais. Agora, o desafio de Lula é descer do palanque e retomar a ênfase na negociação diplomática, na qual os interesses do país devem estar acima de preferências ideológicas e das disputas políticas, inclusive daquelas travadas com governantes de outras nações. As condições são até favoráveis ao petista, que, ao resistir à onda de vitórias eleitorais da direita na América do Sul, passou a ser festejado no exterior como um símbolo da resistência ao extremismo.

Uma das tarefas mais urgentes do presidente reeleito é reduzir os desentendimentos entre Brasil e Estados Unidos. No ano passado, Trump sobretaxou em 50% as exportações e cassou vistos de autoridades brasileiras, além de aplicar a Lei Magnitsky a ministros do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo, entre outros, de livrar o ex-­presidente Jair Bolsonaro de uma condenação por tentativa de golpe. No campo judicial, a pressão externa não surtiu efeito, e o capitão foi sentenciado a 27 anos e três meses de prisão pelo STF. Na seara diplomática, a tentativa de Trump de forçar a gestão Lula a se curvar às pretensões hegemônicas dos Estados Unidos no hemisfério ocidental também fracassou. Não à toa, o secretário de Estado, Marco Rubio, incluiu o Brasil na lista de países não amigáveis aos EUA. Nas relações comerciais, no entanto, a ofensiva americana trouxe prejuízos à economia brasileira. As vendas para os EUA caíram de 40,36 bilhões de dólares em 2024 para 37,68 bilhões de dólares em 2025. Vários setores produtivos foram afetados.

As perdas podem aumentar, já que a administração Trump baixou, em meados deste ano, tarifas adicionais como punição a práticas comerciais brasileiras que os EUA consideram desleais. Do outro lado do balcão, Lula usa os canais diplomáticos para tentar reverter a situação. O governo brasileiro apresentou argumentos técnicos sobre a impertinência da ofensiva americana, mas foi ignorado. Uma reunião entre equipes dos dois países, prevista para este mês, pode marcar a retomada da negociação relacionada às sobretaxas, que não foram tratadas como prioridade pelo presidente durante a campanha eleitoral — a não ser quando foram usadas para acusar a família Bolsonaro de conspirar contra o país, ou para dizer que o Brasil não se dobrará a Trump. Encerrada a votação, a situação agora requer mais diplomacia profissional, comandada pelo chanceler Mauro Vieira, e menos discurso eleitoreiro, que continua a contaminar o ambiente.

A gestão Trump ainda não reconheceu a vitória de Lula e recebeu de braços abertos Flávio Bolsonaro, que saiu às escondidas do Brasil após ser derrotado. O presidente americano também insinuou, sem apresentar indícios mínimos, ter havido fraude na eleição brasileira. É um discurso recorrente, entoado toda vez que ele ou algum aliado perde ou corre o risco de perder uma votação, como ocorreu agora na eleição de meio de mandato nos EUA (leia a reportagem na pág. 52). As rusgas entre Brasil e EUA se acumularam nos últimos anos. Há divergências em outros temas sensíveis, como exploração de minerais críticos, regulação das big techs e suspeita de interferência americana na eleição brasileira, supostamente para beneficiar a direita. A lista é extensa. O governo Lula não aderiu, por exemplo, ao chamado Escudo das Américas, uma aliança dos EUA com países latino-americanos destinada a combater o crime organizado e, como dizem trumpistas e bolsonaristas, o “narcoterrorismo”.

Assessor especial de Lula para assuntos internacionais, o ex-chanceler Celso Amorim justificou a resistência do Brasil à iniciativa dizendo que o Escudo das Américas não passa de uma tentativa de Trump de conseguir uma “dominação absoluta” do continente. Críticos costumam dizer que o governo Lula peca às vezes por antiamericanismo e recaídas ideológicas. Já o presidente rebate afirmando que o Brasil tem de se sentar à mesa de negociação em condições de igualdade com qualquer país e deve buscar um protagonismo crescente no cenário internacional. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou Lula em discurso na Assembleia Geral da ONU. Entre ser subalterno ou rival de qualquer potência, há uma distância considerável, além de um universo de oportunidades. “Temos uma agenda externa muito carregada”, diz Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington. “O Brasil deve manter uma postura equidistante, pragmática, independentemente de preferência ideológica, na defesa dos interesses do país”, complementa.

Historicamente, o Brasil tem um papel de líder regional, que passou a ser contestado por alguns vizinhos. Antes de ser sequestrado e preso pela gestão Trump, Nicolás Maduro, até então tratado com tapete vermelho pelo PT, confrontou Lula ao ser cobrado pelo governo brasileiro a apresentar provas da legalidade da eleição na Venezuela. “Ninguém deve se meter nos assuntos internos da Venezuela, porque nós não nos metemos nos assuntos internos de ninguém”, desafiou o antigo ditador venezuelano. Já Javier Milei partiu para o confronto aberto com o petista. Ao participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto, o presidente argentino chamou Lula de presidiário. Desde então, a relação diplomática entre os dois países foi rebaixada: não há embaixador do Brasil na Argentina, nem embaixador da Argentina no Brasil. A situação piorou depois de o governo vizinho ajudar Flávio Bolsonaro a sair do Brasil. Como Trump, Milei não reconheceu a vitória de Lula. Foi o único mandatário da América do Sul a trilhar esse caminho.

Diplomatas dizem que a relação entre Brasil e Argentina nunca foi tão ruim. E nada indica que a situação mudará no curto prazo. No último dia 2, o deputado André Janones (Rede), a quem Lula credita parte da responsabilidade por sua reeleição, visitou a ex-­presidente Cristina Kirchner e outros oposicionistas argentinos, que pediram aconselhamento digital para derrotar Milei (leia a reportagem na pág. 34). O mandatário argentino devolveu a provocação, republicando a seguinte mensagem numa rede social: “Depois, (os peronistas) vêm falar de soberania nacional”. No governo Lula, a ordem é para não entrar em bate-­boca e deixar Milei falando sozinho, até para minimizar eventuais consequências negativas, por exemplo, nas transações comerciais. No ano passado, o Brasil exportou 18,10 bilhões de dólares para a Argentina e importou 12,93 bilhões de dólares de lá, um saldo positivo de 5,17 bilhões de dólares. Em 2024, a diferença tinha sido de apenas 200 milhões de dólares.

Em seus três primeiros mandatos, Lula sonhou em se tornar um líder mundial. Ministros e assessores do Palácio do Planalto falavam até na possibilidade de ele ser premiado com o Nobel da Paz. Nada disso aconteceu. Com problemas de popularidade, o presidente foi obrigado a deixar a agenda internacional de lado e concentrar esforços nas demandas domésticas. Ao conquistar o quarto mandato, ele confirmou a fama de animal político que tem no Brasil e ganhou ar de herói da cruzada internacional contra o extremismo. Um de seus jingles de campanha mais conhecidos tocou até no autódromo onde foi realizado, no domingo 1º, o grande prêmio de Fórmula 1 do México. Os dedos em forma de L, gestual característico de seus apoiadores brasileiros, passou a ser repetido por políticos e manifestantes de vários países. O reconhecimento internacional pode ser ainda maior se o presidente apostar na diplomacia profissional — e nas melhores tradições da chancelaria brasileira — para defender os interesses do país num cenário global cada vez mais complicado.

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