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Panorama: Especialistas veem desafio em abstenções e destacam papel dos indecisos

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 23 de outubro de 2026 às 07:30
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Panorama: Especialistas veem desafio em abstenções e destacam papel dos indecisos
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Durante o primeiro turno das eleições, o Brasil registrou o maior nível de abstenção desde 1998 , com 33,4 milhões de eleitores que não foram às urnas, o equivalente a 21% dos cerca de 158,7 milhões de votantes aptos em 2026.

Essa fatia do eleitorado chamou a atenção dos candidatos à Presidência da República como possibilidade de votos válidos para o segundo turno, capaz de impulsionar uma vitória menos apertada para Flávio Bolsonaro (PL) ou uma virada para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .

As motivações de ausência podem variar por razões de força maior, como imprevistos de saúde e de trabalho, assim como a ausência no domicílio eleitoral no dia da votação ou uma forma de protesto ou desânimo com os candidatos participantes.

Lula perdeu votos em cidades pequenas em relação a 2022, diz especialista Nível de abstenção prejudicou Lula no primeiro turno, avalia especialista Análise: Abstenção no 1º turno presidencial cresce desde 2006 Apesar de não contar com um dado concreto de quantas ausências são voluntárias dentre esse grupo de eleitores, o cientista político e mestre em economia Renato Dolci fala da necessidade de separar esses votantes aptos dos que não compareceram às urnas por outros motivos. Para ele, o motivo mais plausível para as faltas é uma crise de representação.

"O eleitor pode acompanhar o debate público, ter demandas concretas e, ainda assim, não acreditar que algum candidato represente uma possibilidade de mudança. Nesse caso, a ausência deixa de ser apenas uma questão de desinteresse e passa a expressar um distanciamento entre a sociedade e o sistema político" , diz.

Na análise de Murilo Medeiros , cientista social da UnB (Universidade de Brasília), a motivação é similar, como um "sintoma do distanciamento entre a política e a sociedade". Ele destaca que muitos eleitores podem perder a perspectiva de que seu voto cause mudanças concretas no país devido ao cenário atual.

"A polarização persistente, os elevados índices de rejeição dos candidatos, somados à percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas, contribuem para afastar o eleitorado das urnas" , completa.

Os especialistas apontam que esses 21% de abstenções não são o único público no qual os candidatos devem focar em alcançar o voto, mas aponta também para a fatia de indecisos. Segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21), o percentual de pessoas que não decidiram seu voto dobrou de 7% para 14% em uma semana.

Para Dolci, além de apostar na narrativa de medo do adversário pelo eleitor, é importante que se apresentem propostas concretas que possam transformar a vida desse eleitor indeciso que está fora da polarização.

Já Medeiros aponta também a importância de os candidatos focarem nos eleitores pendulares, aqueles que podem mudar o voto. Dentre esse grupo, ele aponta para mulheres e jovens de baixa renda que residem nas periferias urbanas do país.

Além disso, também é apontada a importância do eleitorado idoso facultativo apto, aquele com 70 anos ou mais, que atualmente são 17 milhões de pessoas. Apesar de uma queda em relação ao não comparecimento em 2022, o número deste ano ainda representa um montante de 8,45 milhões de votantes.

Outro ponto que pode desmobilizar a presença de eleitores às urnas é a ausência de segundo turno em 21 das 27 unidades federativas do país, com as pessoas escolhendo apenas o presidente nessas localidades.

Com o cenário definido para o comando estadual nos quatro maiores colégios eleitorais do país — São Paulo , Minas Gerais , Rio de Janeiro e Bahia —, é destacado o esforço dos candidatos para que não se perca o engajamento desses eleitores no segundo turno.

"É muito comum que a ausência da disputa local reduza a mobilização política. Lula e Flávio precisarão manter suas bases estaduais mobilizadas, mesmo sem o impulso das campanhas para governador", diz Medeiros.

Já para Dolci, o cenário polarizado no país e a intensidade da eleição presidencial podem fazer com que as pessoas compareçam às urnas, mesmo em localidades que não contaram com eleições para governador.

"A hipótese é que a presença de duas disputas relevantes produza estímulos adicionais para votar, mas a intensidade da eleição presidencial pode compensar essa ausência", completa.

No caso de ausências injustificadas, a Justiça Eleitoral estabelece alguns impedimentos a esses eleitores, como o pagamento de multa de R$ 3,51 a cada turno não votado, além da limitação de obter o passaporte, fazer matrículas em estabelecimentos oficiais de ensino, tomar posse em concurso público, entre outros.

Além disso, caso o eleitor não vote em três turnos seguidos sem justificativa, o título estará sujeito a cancelamento. Segundo dados de 2025 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) , mais de 5 milhões de eleitores tiveram o direito de votar suspenso por esse motivo.

Tal número não entra na contagem de abstenções, o que aumenta ainda mais o montante de pessoas que não comparecem às urnas para eleger os seus representantes e podem mostrar uma questão mais ampla.

"Esses cancelamentos mostram que existe um problema de afastamento persistente, embora não possamos afirmar que todos esses eleitores tenham decidido conscientemente abandonar a participação política", destaca Dolci.

Para reverter esse grande número de abstenções, assim como a quantidade de registros cancelados, os especialistas ouvidos apontam que a multa e outras restrições não são necessariamente efetivas e não causam um efeito de incentivo para o exercício do sufrágio.

"O desafio institucional tem três dimensões: reduzir os obstáculos concretos ao comparecimento, ampliar a educação política e fortalecer a confiança nas instituições. Mas o TSE não consegue resolver sozinho uma crise de representação que depende também dos partidos e dos candidatos" , cita Renato Dolci.

Ambos concordam que as ações devem seguir para além de campanhas institucionais de conscientização do direito ao voto, assim como a obrigatoriedade da participação. É destacada a necessidade da educação dos jovens nas escolas, com o devido destaque à importância das eleições e escolha dos candidatos para o exercício da democracia.

"O enfrentamento da abstenção exige mais do que campanhas publicitárias às vésperas das eleições. É necessário investir permanentemente em educação cidadã, principalmente nas escolas, para que as novas gerações compreendam o funcionamento das instituições e a importância do voto na transformação da sociedade" , finaliza Murilo Medeiros.

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