Panorama: Dia Nacional da Cultura – 05 de Novembro
O artigo aborda as tradições locais, as culturas indígenas, a contribuição de moradores migrantes, as expressões urbanas da juventude e a importância de polític

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Consulte formatos e valores disponíveisNo dia 5 de novembro, celebramos o Dia Nacional da Cultura, uma data que nos convida a olhar para a diversidade de expressões, costumes, crenças, linguagens e manifestações que formam o Brasil. A escolha da data homenageia o nascimento de Rui Barbosa, em 1849, e foi instituída por lei em 1970. Mais do que uma comemoração, é uma oportunidade de refletir sobre o lugar que a cultura ocupa na nossa sociedade.
Mas eu gostaria de propor uma reflexão que vai além do Dia Nacional da Cultura: de que adianta celebrar a cultura se, no cotidiano, tantas pessoas ainda não encontram espaço para vivê-la?
A cultura está no mundo inteiro. No dia a dia. Está na música que atravessa fronteiras, nas histórias que passam de geração em geração, na dança, na culinária, no teatro, na literatura, nas crenças e até nas maneiras como nos relacionamos. Ela não é algo distante, reservado a quem tem dinheiro para comprar um ingresso ou a quem consegue ocupar um palco. Cultura é expressão humana. É identidade. É memória. É também a possibilidade de questionar o mundo e imaginar outras formas de viver.
O Brasil é um país construído por encontros, mas também por conflitos e desigualdades. Povos indígenas, africanos, europeus e tantos outros grupos contribuíram para a formação de nossas expressões culturais. Essa diversidade é uma riqueza, mas precisa ser reconhecida para além dos discursos e das datas comemorativas. A Fundação Roberto Marinho destaca justamente a importância dos saberes originários, da herança negra e das expressões construídas coletivamente.
E quando olhamos para Santa Catarina, para o litoral e, principalmente, para Itapema, essa reflexão ganha um significado ainda mais próximo.
Itapema é uma cidade que arrecada, movimenta a economia e cresce impulsionada pelo mercado imobiliário e pelo turismo. São setores importantes, que geram empregos, renda e oportunidades. Mas eu me pergunto: onde está o mesmo empenho em criar espaços permanentes para a cultura?
Uma cidade não pode ser medida apenas pela altura de seus prédios, pelo valor dos imóveis ou pelo movimento da temporada. Também precisa ser avaliada pela qualidade de vida de quem mora nela, pelas oportunidades de convivência, pelo acesso à arte e pela possibilidade de seus moradores expressarem quem são.
Itapema precisa de mais espaços para apresentações, teatro, cinema, dança, música, circo, exposições e encontros culturais. Precisa de lugares onde uma família possa assistir a um espetáculo, onde um jovem possa aprender uma linguagem artística, onde artistas locais possam mostrar seu trabalho e onde a comunidade possa se reunir sem que o consumo seja a principal condição para participar.
Não se trata apenas de ensinar alguém a fazer arte. Trata-se também de permitir que as pessoas tenham contato com a arte como espectadoras. Assistir a uma peça, a uma roda de dança, a uma apresentação musical ou a um espetáculo de circo pode despertar sentimentos, ideias e possibilidades que talvez nunca tenham sido imaginadas.
Antes de ser uma cidade marcada pelo turismo e pelo mercado imobiliário, Itapema já era território de histórias, saberes e modos de vida. A cultura local está ligada ao mar, à pesca artesanal, às comunidades tradicionais, à culinária, às festas, às memórias familiares e aos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Essas expressões carregam qualidades que não podem ser substituídas: a relação com a natureza, a solidariedade comunitária, o conhecimento do território e a memória de quem construiu a cidade. Elas precisam ser valorizadas, registradas e compartilhadas.
Também é necessário olhar para as culturas indígenas que existiam e existem neste território. A história dos povos originários não pode aparecer apenas como uma lembrança distante, um capítulo de livro ou um nome em uma placa. É preciso reconhecer sua presença, seus saberes, suas relações com a terra e a importância de preservar suas histórias e identidades.
Quando uma cultura é esquecida, não perdemos apenas uma manifestação artística. Perdemos formas de compreender o mundo.
Itapema recebe pessoas de diferentes regiões do Brasil que vêm em busca de trabalho, segurança, oportunidades e uma vida melhor. Junto com elas chegam sotaques, receitas, músicas, festas, histórias e tradições.
Gaúchos, paranaenses, nortistas, nordestinos e moradores de tantas outras regiões também fazem parte da identidade que a cidade está construindo. Essa mistura não deveria ser vista como algo que precisa ser assimilado ou escondido. Ela pode ser uma oportunidade de encontro, aprendizado e enriquecimento cultural.
Imagine uma cidade onde diferentes tradições possam se encontrar em feiras, apresentações, rodas de música, festivais, oficinas e espaços comunitários. Não para transformar culturas em atrações isoladas, mas para criar convivência e respeito entre pessoas que compartilham o mesmo território.
A cultura não é estática. Ela se transforma quando as pessoas se encontram.
Existe uma crítica que escutamos com frequência: “Ah, os jovens não fazem nada”. “Na minha época era diferente”. “Só sabem ficar no celular”. “Só querem usar porcarias”.
Mas será que paramos para pensar em que século esses jovens estão vivendo?
A juventude de hoje cresceu em meio a uma transformação tecnológica profunda. Passou por uma pandemia que restringiu a convivência, alterou rotinas e mudou a forma como as pessoas se relacionam. Para muitos, as redes sociais, os jogos, os aplicativos e as conversas on-line se tornaram formas de contato e escape.
Isso não significa que todos os jovens vivam a mesma realidade ou que a tecnologia explique todos os desafios. Mas precisamos reconhecer que o mundo mudou. E, depois de tantas mudanças, é necessário perguntar: que alternativas presenciais estamos oferecendo para que a juventude se encontre, crie, aprenda e se expresse?
Quando um jovem sai de casa e não encontra espaços atrativos, acolhedores e acessíveis, o que esperamos que aconteça? Onde estão as rodas de dança? As batalhas de rima? Os encontros de música? Os espaços para teatro, grafite, circo, produção audiovisual e outras linguagens?
Muitas vezes, manifestações culturais urbanas são tratadas com preconceito, como se a expressão de um jovem na praça fosse automaticamente um problema. Mas a cultura urbana também é linguagem, identidade, criatividade e participação social. Ela pode oferecer caminhos de pertencimento e construção coletiva.
Antes de condenar uma juventude, precisamos olhar para as oportunidades que ela recebeu — ou deixou de receber.
A falta de espaços culturais não afeta apenas artistas. Afeta a convivência, o sentimento de pertencimento e a qualidade social da cidade. A cultura pode aproximar gerações, criar oportunidades, estimular o pensamento crítico e fortalecer vínculos comunitários.
Também pode movimentar a economia. Artistas, técnicos, produtores, profissionais de som e iluminação, comerciantes e empreendedores podem trabalhar a partir de atividades culturais. Uma programação cultural contínua, inclusive à noite, pode ampliar as opções de lazer e contribuir para uma cidade que não dependa exclusivamente da temporada turística.
Isso exige planejamento, investimento, espaços adequados e políticas públicas que compreendam a cultura como parte da vida cotidiana — não apenas como uma programação eventual.
Talvez exista receio de que a cultura provoque reflexão, questionamento e pessoas que pensem “fora da caixa”. Mas uma sociedade que dialoga, que conhece diferentes histórias e que tem acesso à arte não precisa ter medo da diversidade. Precisa aprender a conviver com ela.
O Dia Nacional da Cultura não deveria ser apenas uma data para publicar homenagens. Deveria ser um convite para transformar a maneira como cuidamos das nossas cidades.
Itapema já tem cultura. Ela está nos moradores antigos, nos povos originários, nas comunidades tradicionais, nos artistas, nos jovens, nos migrantes e em cada pessoa que traz uma história consigo.
O que falta é acolher essa diversidade, oferecer espaços para que ela floresça e garantir que a cultura não seja privilégio de poucos.
Porque quando uma pessoa faz a seguinte pergunta “por que criar espaços culturais agora, se nunca tivemos?”, talvez esteja esquecendo a pergunta mais importante:
Se a cultura transforma vidas, por que deixar para depois aquilo que pode melhorar a vida de todos hoje?
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