Panorama: Como Maurizio Billi Construiu uma Fortuna de R$ 21,7 Bilhões com a Eurofarma
Entre os negócios e as pistas de corrida, o empresário, filho de imigrantes italianos, transformou a pequena farmacêutica fundada pelo pai em uma companhia de a

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Consulte formatos e valores disponíveisFilho de imigrantes italianos, o empresário transformou a pequena fábrica fundada pelo pai em uma farmacêutica de R$ 197,8 milhões. Discreto fora dos negócios, Billi divide o tempo entre a expansão internacional da companhia, investimentos em pesquisa e uma paixão por carros que já o levou ao lugar mais alto do pódio.
A história de Maurizio Billi começa antes mesmo de ele conhecer o Brasil. Em 1957, no mesmo ano de seu nascimento, seus pais, Galliano Billi e Maria Teresa Caselli, deixaram a Itália rumo à América do Sul. O país ainda tentava se reconstruir dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, e a família, como tantas outras que atravessaram o oceano naquele período, buscava uma oportunidade de recomeçar.
Galliano era químico de formação e encontrou no Brasil uma maneira de exercer sua profissão. Seu primeiro emprego foi no laboratório Lepetit, uma farmacêutica de origem italiana. Durante 15 anos, trabalhou na indústria até decidir que era hora de construir o próprio negócio. A experiência acumulada no setor lhe dera uma percepção que se tornaria a base de seu empreendimento: havia espaço para uma empresa especializada em fabricar medicamentos e prestar serviços a outros laboratórios.
Em 1971, começou a construção de um prédio na Avenida das Nações Unidas, em São Paulo. No ano seguinte, nascia ali a Billi Farmacêutica. A pequena companhia tinha um diferencial que a colocava em posição singular no mercado brasileiro: um liofilizador, equipamento utilizado para retirar a água de substâncias por meio de um processo de congelamento e secagem. Na época, era uma tecnologia rara no país, que permitia à empresa prestar serviços para outros fabricantes de medicamentos.
O negócio cresceu a partir dessa especialização. Não era ainda uma farmacêutica voltada à criação de marcas próprias, mas uma operação industrial que encontrara uma maneira de atender a uma necessidade do setor. Maurizio acompanhou essa história desde cedo. Em 1976, aos 19 anos, começou a ajudar o pai na empresa. Em uma companhia pequena, com poucas dezenas de funcionários, era preciso conhecer a operação de perto. Ele passou pela produção, finanças, compras e recursos humanos, experiência que lhe permitiu entender como cada parte do negócio se conectava às demais.
A expansão começou ainda sob a liderança do pai. Em 1978, o grupo adquiriu o Laboratório ISA, responsável pela fabricação de penicilina, em uma operação pioneira no país. Na década seguinte, avançou sobre o mercado de medicamentos isentos de prescrição, os chamados OTC, com a compra do laboratório Majer Meyer. Também diversificou as atividades com a linha Gillian, dedicada a cosméticos e produtos de beleza.
A empresa deixava de depender exclusivamente da prestação de serviços industriais. Passava a reunir diferentes negócios, marcas e linhas de produtos. Em 1993, a reorganização da companhia deu origem à Eurofarma Laboratórios, nome que reunia as operações INAF, ISA e Majer Meyer e fazia referência às origens europeias da família.
A mudança de nome acompanhava uma transformação maior: a pequena fábrica de Galliano estava se tornando um grupo farmacêutico com ambições mais amplas. Em 2000, o fundador se afastou da rotina executiva e Maurizio assumiu a presidência, consolidando a transição entre gerações.
A partir dali, caberia ao filho dar outra dimensão ao negócio construído pelo pai.
A sucessão ocorreu em um momento de mudanças no mercado farmacêutico brasileiro. A Lei dos Genéricos, aprovada em 1999, havia aberto uma nova frente de competição, permitindo a entrada de medicamentos mais baratos e ampliando o acesso da população a tratamentos antes restritos pelo preço.
A Eurofarma criou sua unidade de negócios de genéricos em 2001. A decisão se mostrou importante para o crescimento da companhia, que passou a disputar um mercado de grande escala e a ampliar seu portfólio. Um dos exemplos mais expressivos veio anos depois, com a fabricação do genérico do Viagra, a partir de 2014, que contribuiu para o retorno dos investimentos feitos nessa divisão.
Mas Billi não pretendia limitar a expansão ao mercado brasileiro. O primeiro movimento internacional aconteceu em 2002, com a aquisição da Themaxis, na Cidade do México, que marcou o início da presença do grupo no exterior. O processo ganhou outra dimensão em 2009, com a compra da farmacêutica argentina Quesada, que já tinha operações em outros países da América do Sul e da América Central.
Vieram, na sequência, as aquisições dos Laboratorios Gautier e Volta, no Uruguai, e da Farmindustria, no Chile, em 2010. Dois anos depois, o grupo avançou na Colômbia com a compra de uma operação farmacêutica da Merck Sharp & Dohme.
A escolha da América Latina tinha uma lógica. Os mercados eram relativamente próximos, apresentavam semelhanças no comportamento de médicos e consumidores e, em muitos casos, cresciam mais rapidamente do que os de economias desenvolvidas. Além disso, a fragmentação do setor oferecia espaço para empresas capazes de combinar produção local e distribuição regional.
Billi não vê a expansão internacional como uma simples reprodução do modelo brasileiro. Em sua avaliação, uma das principais dificuldades de uma aquisição é compreender o funcionamento do mercado em que a empresa está entrando. Há diferenças regulatórias, culturais e comerciais que exigem adaptações. Por isso, considera um erro comprar uma operação e substituir imediatamente toda a equipe local por executivos enviados da matriz.
A recomendação é combinar profissionais da empresa adquirida com pessoas da Eurofarma, preservando o conhecimento de quem já conhece o mercado e transmitindo gradualmente a cultura do grupo.
A mesma lógica aparece em sua visão sobre o crescimento orgânico e as aquisições. Construir uma operação do zero costuma ser mais barato, mas exige tempo. Comprar uma empresa pronta pode acelerar a entrada em um novo mercado, desde que haja condições financeiras e uma oportunidade que justifique o investimento.
A companhia que nasceu como uma pequena fabricante para terceiros passou, assim, a operar em diferentes países, com unidades industriais, marcas e equipes locais. Atualmente, a Eurofarma está presente em 20 países da América Latina e tem ampliado sua atuação por meio de parcerias em outros mercados.
A imagem pública de Maurizio Billi é a de um empresário discreto, mais associado às decisões estratégicas da companhia do que à exposição pessoal. Mas existe uma atividade que revela um lado menos conhecido do controlador da Eurofarma: sua paixão por carros.
Nas horas vagas, Billi também assume o papel de piloto. O interesse por automobilismo não se limita a acompanhar corridas ou colecionar veículos. Ele chegou a competir profissionalmente e conquistou, em 2013, uma vitória na Porsche Master Cup Brasil, campeonato que reúne pilotos em disputas com carros da marca alemã.
A participação nas pistas acrescenta uma dimensão pouco usual à trajetória do empresário. Aos compromissos de uma companhia com operações em diferentes países, ele soma o interesse por uma atividade que exige concentração, precisão e disposição para competir. É uma faceta que contrasta com a discrição de sua atuação empresarial, mas ajuda a compor um retrato mais completo de quem está à frente da farmacêutica.
A vida pessoal também se cruza com a continuidade dos negócios. Maurizio tem dois filhos, Marco e Mayra, ambos envolvidos na companhia. Marco é responsável pela operação internacional, enquanto Mayra atua na área de saúde animal e no instituto da Eurofarma.
A estrutura de gestão, porém, não está concentrada nos herdeiros. O grupo conta com seis vice-presidentes, responsáveis por áreas como indústria, inovação, finanças e recursos humanos. Para Billi, a combinação entre gestão profissional e participação familiar é uma das condições para que uma empresa atravesse gerações.
Se as aquisições ajudaram a Eurofarma a ganhar escala, a próxima etapa da estratégia de Billi passa por uma ambição mais complexa: ampliar a capacidade de desenvolver medicamentos inovadores.
A companhia mantém em Itapevi, na Grande São Paulo, seu principal centro de pesquisa e desenvolvimento, considerado o maior da América Latina, com mais de 750 pesquisadores. A estrutura concentra projetos em diferentes estágios, desde o desenvolvimento de genéricos até pesquisas voltadas à criação de novas moléculas.
Billi divide o trabalho de inovação em três frentes. A primeira é desenvolver genéricos para que a companhia consiga chegar ao mercado assim que termina a proteção patentária de um medicamento de referência. A segunda envolve melhorias em produtos existentes, como a combinação de dois princípios ativos em um comprimido ou a criação de formulações que permitam reduzir a frequência de administração.
A terceira é a mais ambiciosa: desenvolver moléculas inéditas. É também a que exige mais tempo e envolve maior incerteza. O empresário estima que alguns dos projetos em andamento possam resultar em medicamentos inovadores dentro de cinco a sete anos, caso os estudos avancem como esperado.
A estratégia não depende apenas de pesquisas próprias. A Eurofarma também procura acordos com farmacêuticas internacionais que tenham medicamentos em estágio avançado de desenvolvimento, mas ainda não contem com presença comercial na América Latina. Nesses casos, a empresa pode adquirir os direitos de comercialização para a região e aproveitar sua estrutura industrial e de distribuição.
O modelo já aparece em iniciativas recentes. No primeiro semestre de 2026, a companhia preparava o l ançamento de XCOPRI (cenobamato), medicamento da sul-coreana SK Biopharmaceuticals indicado para o tratamento da epilepsia focal farmacorresistente. Em junho, também submeteu à Anvisa uma vacina contra a chikungunya, desenvolvida em parceria com a dinamarquesa Bavarian Nordic.
Outro investimento importante é o financiamento de R$ 285 milhões aprovado pelo BNDES para ampliar a capacidade de pesquisa, desenvolvimento e produção em Itapevi. Os recursos serão destinados, entre outros projetos, a medicamentos inovadores para o tratamento da dor e antibióticos, além de novas associações de princípios ativos voltadas à depressão e ao Alzheimer. O plano inclui ensaios clínicos e a aquisição de sete equipamentos importados para o centro de pesquisa.
A companhia também procura aproveitar oportunidades em mercados que crescem rapidamente. Um dos exemplos é o de medicamentos à base de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Em parceria com a Novo Nordisk, a Eurofarma lançou, em abril de 2026, o programa EuroCuida, que oferece acompanhamento clínico e condições especiais de acesso aos medicamentos à base de semaglutida Poviztra e Extensior.
A iniciativa já havia alcançado centenas de milhares de pacientes cadastrados no primeiro semestre, segundo a companhia. O movimento coloca a farmacêutica em um dos segmentos mais disputados da indústria mundial e amplia sua exposição a uma categoria de medicamentos que transformou as perspectivas de crescimento de grandes laboratórios internacionais.
Os resultados ajudam a dimensionar a transformação. Em 2025, a Eurofarma registrou receita líquida de R$ 12,5 bilhões e lucro recorde de R$ 571 milhões, crescimento de 123% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, a receita líquida alcançou R$ 6,1 bilhões, avanço de 6% na comparação anual. A companhia também reportou melhora da rentabilidade, geração de caixa e redução da alavancagem.
A expansão dos negócios se reflete no patrimônio de seu controlador. Maurizio Billi aparece na 19ª posição entre os brasileiros mais ricos na lista Bilionários Brasileiros 2026 da Forbes Brasil, com uma fortuna estimada em R$ 21,7 bilhões, ante R$ 20,6 bilhões no levantamento anterior.
A distância entre a fábrica de Galliano, equipada com uma tecnologia rara no Brasil, e o centro de pesquisa de Itapevi, com centenas de cientistas, é também a medida de uma mudança de geração. O pai identificou uma oportunidade na estrutura industrial de um setor em desenvolvimento. O filho ampliou o negócio, atravessou fronteiras e agora procura fazer da pesquisa uma nova fonte de competitividade.
Em uma de suas recomendações a empreendedores que desejam internacionalizar seus negócios, Billi costuma destacar uma característica que considera indispensável: humildade. O sucesso em um país, diz, não significa que a mesma fórmula funcionará em outro. É preciso aprender com as equipes locais, compreender as diferenças e reconhecer que outras pessoas podem fazer melhor determinadas tarefas.
A ideia parece sintetizar a trajetória de uma empresa que começou com máquinas recuperadas e uma oportunidade de prestar serviços a outros laboratórios. Mais de cinco décadas depois, a Eurofarma tem uma presença internacional, uma estrutura de pesquisa própria e projetos que podem levá-la a desenvolver medicamentos inéditos.
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