Panorama: Brasil deve precisar de mais 15 bilhões de litros de etanol para descarbonizar
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Consulte formatos e valores disponíveisDeve precisar de mais 15 bilhões de litros de etanol para descarbonizar Estudo da CNI aponta risco de déficit de créditos de carbono até 2035 e alerta para necessidade de investimentos em usinas Fábrica de etanol da Inpasa: Se o déficit projetado de créditos de descarbonização fosse compensado apenas com etanol hidratado, a demanda total poderia chegar a aproximadamente 61,3 bilhões de litros em 2035, avanço de 78% em relação a 2025. (Leandro Fonseca/Exame)
Priorizar nos meus resultados Google O Brasil poderá precisar produzir 15,2 bilhões de litros adicionais de etanol até 2035 para cumprir as metas de descarbonização do setor de combustíveis. A estimativa é de um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que alerta para o risco de a oferta de biocombustíveis crescer em ritmo inferior ao necessário para atender às exigências ambientais previstas para os próximos anos.
O volume adicional corresponde a quase metade dos 34,4 bilhões de litros de etanol consumidos no país em 2025. A necessidade, porém, não é uma obrigação já estabelecida: trata-se de um cenário calculado pela CNI em que toda a diferença entre a geração projetada de créditos de descarbonização e as metas do governo seria compensada exclusivamente pelo aumento da produção de etanol hidratado.
Segundo o levantamento Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização, divulgado nesta quarta-feira, 28, a demanda pelo biocombustível deverá aumentar nos próximos anos, impulsionada pelas políticas de redução das emissões de gases de efeito estufa e pela ampliação da participação dos combustíveis renováveis na matriz energética.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que o consumo brasileiro de etanol alcance aproximadamente 46,2 bilhões de litros em 2035, crescimento de cerca de 34% em relação a 2025. Entretanto, os cálculos da CNI indicam que esse volume poderá ser insuficiente para atender integralmente às metas indicativas do RenovaBio.
O principal fator por trás dessa necessidade é o possível desequilíbrio entre a oferta e a demanda de Créditos de Descarbonização (CBIOs), instrumentos criados pelo RenovaBio para incentivar a produção e o consumo de combustíveis com menor emissão de carbono.
Cada CBIO corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente cuja emissão é evitada pela substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. Os créditos são emitidos por produtores certificados e comercializados com distribuidoras, que precisam adquiri-los para cumprir metas anuais de descarbonização.
Pelas metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), a necessidade de aquisição desses certificados deverá crescer de 48,09 milhões em 2026 para 73,45 milhões em 2035.
O problema é que a produção de biocombustíveis prevista para os próximos anos pode não gerar créditos suficientes para acompanhar esse crescimento.
Segundo a CNI, a diferença entre a emissão potencial de CBIOs e as metas indicativas deverá atingir aproximadamente 4,7 milhões de certificados em 2027, aumentando gradualmente até alcançar 15,2 milhões de CBIOs em 2035.
Nesse cenário, a meta de aquisição seria cerca de 26% superior à oferta esperada de créditos. A análise da CNI considera as projeções de produção de etanol, biodiesel e biometano da EPE e utiliza como referência os fatores médios de emissão de CBIOs observados em 2025.
Embora diferentes biocombustíveis possam contribuir para a geração desses certificados, a CNI identifica o etanol hidratado como a principal alternativa capaz de responder ao aumento dos incentivos econômicos do RenovaBio.
Isso ocorre porque, diferentemente do biodiesel e do etanol anidro, cujo consumo depende principalmente dos percentuais obrigatórios de mistura aos combustíveis fósseis, a demanda por etanol hidratado está diretamente associada à sua competitividade em relação à gasolina.
Uma valorização dos CBIOs pode, portanto, aumentar a rentabilidade dos produtores de etanol hidratado, estimular sua oferta e favorecer a substituição da gasolina pelos consumidores.
Apesar de o Brasil possuir uma das maiores indústrias de etanol do mundo, transformar o aumento da demanda em produção efetiva representa um desafio.
Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apresentados pela CNI, o país tinha, em junho de 2026, capacidade instalada autorizada para produzir aproximadamente 103,5 bilhões de litros de etanol por ano.
Além disso, pedidos de autorização para novos projetos e ampliações poderiam acrescentar cerca de 20,9 bilhões de litros anuais, elevando a capacidade potencial para aproximadamente 124,5 bilhões de litros.
À primeira vista, os números indicariam espaço suficiente para atender à demanda projetada. No entanto, a capacidade instalada não corresponde necessariamente ao volume que as usinas conseguem produzir ao longo de um ano.
O estudo aponta que a taxa média histórica de utilização da capacidade produtiva do setor permanece próxima de 35%, principalmente em razão da sazonalidade da cana-de-açúcar.
Durante a entressafra, a disponibilidade da matéria-prima diminui e parte das unidades industriais chega a interromper suas operações por até três meses.
Mantido esse padrão de utilização, a capacidade efetiva de produção corresponderia a aproximadamente 36,2 bilhões de litros anuais. Mesmo com a entrada em operação de todos os projetos adicionais previstos, o volume poderia alcançar cerca de 43,6 bilhões de litros, ainda abaixo da demanda estimada para 2035.
Outro fator que limita a expansão é a competição entre a produção de açúcar e de etanol.
Grande parte das usinas brasileiras utiliza a cana-de-açúcar para fabricar os dois produtos. Quando os preços internacionais do açúcar se tornam mais atrativos, as empresas podem direcionar uma parcela maior da matéria-prima para a commodity, reduzindo a disponibilidade destinada ao combustível.
O crescimento do etanol de milho oferece uma alternativa a essa sazonalidade, já que o grão pode ser armazenado e processado durante todo o ano. Ainda assim, a expansão da oferta depende da disponibilidade de matérias-primas, da viabilidade econômica e de investimentos em novas unidades industriais.
A dificuldade de ampliar a produção de etanol também poderá ter consequências para os consumidores.
Segundo a CNI, a manutenção de metas de aquisição de CBIOs superiores à capacidade de geração dos certificados poderá provocar períodos prolongados de escassez e valorização dos créditos.
O estudo cita como exemplo o comportamento do mercado em 2022, quando a emissão de certificados ficou 4,54 milhões de CBIOs abaixo da meta estabelecida.
Naquele ano, o preço médio de cada crédito avançou de aproximadamente R$ 36, registrados em 2021, para R$ 101. Em 2023, o valor médio chegou a R$ 113.
Já em 2024 e 2025, quando a geração de certificados superou as metas, os preços médios recuaram para R$ 88 e R$ 56, respectivamente.
A preocupação da CNI é que um déficit estrutural de CBIOs aumente os custos das distribuidoras, que poderiam repassar parte dessa despesa aos preços finais dos combustíveis.
O risco é particularmente relevante porque o déficit estimado para 2035 seria mais de três vezes superior ao registrado em 2022.
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